Revista Acontece Sul

Idosos exibem disposição para encarar exercícios vigorosos

em Beleza & Saúde - segunda, 10 de maro de 2014


De cócoras, Francisco Verazane Aguiar passa parafina na prancha. Depois de alongar pernas, braços e mãos, corre para o mar para pegar a próxima onda e se juntar à turma.

O diferencial nessa cena é que os surfistas têm entre 60 e 72 anos. Eles frequentam uma escola pública de surfe em Santos (SP), que oferece aulas gratuitas do esporte durante três dias por semana.

Na tarde da última quarta-feira, a Folha acompanhou uma aula com quatro idosos – três surfaram e uma treinou bodyboard, considerado a porta de entrada para o surfe.

Francisco, 70, e a mulher, Edmea Correa, 67, são alunos da escola há oito anos.

Foram incentivados pela história de superação do filho, deficiente visual que também surfa.

 

Vovôs sarados

 

 

Ambos começaram com o bodyboard até se sentirem seguros para ficar de pé sobre a prancha. "Foi amor à primeira onda", conta Edmea, recém-operada do útero e, por ora, impedida de surfar.

Magro e ágil, Aguiar diz que, além do ganho físico ("acabou aquela história de dói aqui, dói ali"), o surfe lhe trouxe mais segurança para atividades do dia a dia.

"O fato de me equilibrar sobre uma prancha me trouxe autoconfiança para todas as outras coisas da vida. Afastou os medos, até os mais bobos, como atravessar uma rua muito movimentada."

Aguiar, que também pratica natação e pesca, lamenta que os idosos da sua idade não se aventurem. "Passam a tarde jogando dominó, baralho. Dá até tristeza de ver."

Aos 72 anos, a comerciária Maria do Carmo de Jesus, que mora em São Paulo, desce a serra semanalmente só para surfar. Diz que as amigas duvidaram que estivesse pegando onda. "Elas só acreditaram vendo vídeos e fotos."

Nem mesmo a artrose na coluna é impedimento para o esporte. "Quando entro na água, esqueço tudo."

Já a professora aposentada Maria Inês Guaglianone, 67, pratica há três anos bodyboard e ensaia sua estreia no surfe. "Os amigos dos meus netos costumam dizer: ‘Enquanto a sua avó surfa, a minha usa andador’."

O surfista Cisco Aranã, 57, coordenador da escola de surfe, diz que mais aprende com os idosos do que ensina. "A gente aprende a ter paciência, a superar os limites."

A escola exige atestados médicos periódicos, que assegurem uma boa saúde cardiorrespiratória. Também incentiva que eles pratiquem outros esportes para manter o condicionamento físico.

Mas não é só na praia que os idosos esbanjam saúde para deixar muita gente jovem com inveja. Grandes redes de academias como Bodytech e Competition já têm programas específicos voltados para a terceira idade, mas, além de qualidade de vida, esse grupo também está cada vez mais preo­cupado com os resultados estéticos.

Os braços sarados e a barriga tanquinho da empresária Maria Christina Monteiro, 64, chamam a atenção dentro e fora da academia.

"As pessoas olham mesmo, vêm falar comigo. É bem gostoso saber que o esforço vale a pena", diz ela, que credita o corpão à prática de atividade física desde jovem.

"A alimentação também é fundamental", completa.

 

Limitações?

E as limitações da idade? "Às vezes, um adolescente sedentário tem mais limitações do que eles", garante Aranã.

 

O geriatra Salo Buksman, diretor da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, também reforça que não existe uma "data de validade" para qualquer tipo de esporte.

"Tudo depende do condicionamento do idoso."

Segundo ele, na velhice, há um desgaste da visão, audição, do equilíbrio e da velocidade dos reflexos, o que faz do surfe um esporte pouco praticado nessa fase da vida.

Por isso, ele recomenda que o esporte seja praticado por idosos que tenham capacidade aeróbica, equilíbrio e força muscular.

No caso dos sedentários, o geriatra aconselha reforçar as condições musculares e cardiorrespiratórias e ter o sinal verde do médico para praticar exercícios mais vigorosos.

 

 

 

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