Revista Acontece Sul

Eu, Britto Junior

Por Editor Chefe e produtor do Caderno Carros & Cia - Paulo Rodrigues em Cidade - quarta, 07 de abril de 2010

Eu sou apenas um rapaz latino-americano, nascido em Caxias do sul, na bela Serra Gaúcha e que adotou São Paulo para morar, trabalhar e constituir uma família maravilhosa.
Em 1979, muito tempo antes de casar com Fernanda e ainda mais tempo antes de ser pai do Arthur, tive a ousadia de me tornar repórter esportivo. Eu ainda estava no frescor dos meus 16 anos de idade. Mais do que tudo, eu queria mesmo era ser jogador de futebol, mas uma traiçoeira hepatite deu cartão vermelho para o plano original: por recomendação médica, um ano sem jogar bola! Eis que havia uma alternativa para eu não ficar longe dos campos. Foi quando meu pai, jornalista esportivo, viu em mim mais talento para driblar com as palavras do que com os pés e, então, me tornei repórter esportivo. Hilton Britto, o comentarista e Britto Júnior, o repórter.
Meu primeiro emprego foi na rádio Independência, e meu primeiro salário: dois pares de sapatos, da coleção do patrocinador. Depois, Rádio Caxias e, sem que esse fosse meu objetivo na época, RBS TV Caxias. Era 1981, tempo em que ainda se aprendia a trabalhar na raça, observando os mais experientes (como eles tinham paciência com os focas!) E, como se costuma dizer por ai, “se virando” num ciclo de tentativa e erro inimaginável nos dias atuais (hoje não tem vaga pra foca e ninguém tem paciência com eles). Posso afirmar que tive muita sorte. Fui pupilo de excelentes jornalistas caxienses, como Odilon Ramos, Dante Andreis, Adelar Neves, Otaviano Fonseca, Paulo Rodrigues, Vilnei Fioravanti, Eduardo Armando do Santos e dele, o incomparável Hilton Britto. O fato dele ser meu pai é mera coincidência.
Não demorou para eu me tornar vítima de um mosquito que atacava todos ou quase todos os colegas da época, que fazia a turma do microfone sonhar com as rádios de Porto Alegre e a turma das câmeras desejar mais do que tudo na vida, uma vaga nas TVs do centro do país! E assim, diante de uma daquelas oportunidades que caem do céu com uma frequência menor que a dos cometas, surgiu um convite da Globo e me mudei de mala e cuia para o interior de São Paulo. De 1984 à 1986, TV Globo Oeste Paulista. Em seguida, fui transferido para a capital, TV Globo de São Paulo. Em 1997, uma breve passagem pelo SBT, e em 1998 o retorno para a TV Globo.
Nesta fase da minha carreira, tive o privilégio de beber conhecimento em fontes preciosas, como Carlos Nascimento, Carlos Dornelles, Caco Barcellos, Isabela Assumpção, Neide Duarte, isso só para citar alguns dos mais conhecidos.
E nestes anos todos, cobri de tudo como repórter especial: o fim da ditadura, a agonia de Tancredo Neves, a era Sarney, os planos econômicos contra o monstro da inflação galopante, eleição e queda de Fernando Collor, a virada do Lula e, claro, aqueles assuntos que nunca saem de pauta, como crimes, catástrofes, enchentes, poluição, trânsito, etc... Também realizei coisas que nunca foram comuns no currículo de um repórter ou você já soube de um que tenha narrado o carnaval de São Paulo na Globo? E ter sido VJ de notícias no domingão do Faustão, conhece algum que não tenha sido eu? Aliás, primeiro e único. Até hoje.
Neste tempo todo, ao sabor das oportunidades, criei meu estilo informal e cresceu dentro de mim uma inquietação, um desejo de mudança, de experimentar novos desafios. Foi então, que em 2005 recebi a proposta da rede Record e mudei pra valer. Eu, Ana Hickmann e Edu Guedes, mais tarde Chris Flores e uma competente equipe comandada pelos diretores Vanderlei Villanova e Vildomar Batista, fizemos a revista eletrônica “Hoje em Dia” se tornar uma referência nas manhãs da TV brasileira. Ao mesmo tempo, apresentei um talk show na Record News, o “Entrevista Imprevista”. O programa só não continuou porque outros desafios foram surgindo na velocidade do crescimento da Record. Veio, então, o game “O Jogador” por duas temporadas. Tudo isso acontecendo em paralelo ao Hoje em Dia. Até que, em 2009, a Record me convidou para apresentar o reality show “A Fazenda”, que se tornou um sucesso instantâneo na TV brasileira. Já foram duas temporadas e a terceira está a caminho, prevista para o segundo semestre deste ano de 2010. No portal da Record, o R7, tenho o meu blog, pelo qual mantenho uma relação também com os internautas.
Eis ai os principais motivos que me fazem acreditar que vale a pena trabalhar em equipe, vale a pena o esforço e a dedicação para fazer sempre o melhor, e, acima de tudo, vale a pena dividir opiniões, idéias e pensamentos com você, leitor, telespectador, ouvinte, internauta ou simplesmente, meu amigo. Muito obrigado a todos os que torcem por mim e tem me ajudado nestes anos de trabalho.

Acontece: Britto, este é o teu melhor momento na TV Brasileira? Porque?
Britinho: Sim, é o meu melhor momento. A minha carreira vem num crescente desde que eu comecei como repórter de rádio, em Caxias do Sul. Aliás, com ótimos professores, entre os quais o Paulo Rodrigues. A questão é que houve uma mudança de rota, no momento em que deixei o jornalismo diá­rio para apresentar o “Hoje em Dia”. Atuar nesta fronteira, onde jornalismo e entretenimento se misturam, sem preconceito. Era exatamente isso que eu vinha pleiteando já há alguns anos. E, a partir daquele momento (2005), eu tive o meu, digamos, renascimento. Já andava bem cansado da rotina sempre igual do jornalismo e, nesta fase da carreira, estou aprendendo coisas totalmente diferentes, como ancorar um reality show, que é a fazenda. Esta independência do jornalismo formal faz com que eu me sinta no melhor momento da carreira. Sempre aprendendo e encarando novos desafios. Uma novidade, agora, é que a Record decidiu produzir uma revista eletrônica para as tardes, perío­do crítico na audiência. E eu fui convocado para ser um dos âncoras. Mas não posso dar maiores detalhes porque ainda estamos na fase embrionária. Pode ser para daqui dois meses, pode ser só para o ano que vem. Na tv, tudo acontece muito rápido e no ritmo das necessidades. Se tudo sair da intenção para a realização mesmo, será mais um passo importante para a Record e para mim. É hora de aguardar, até porque a Fazenda 3 vem ai, logo após a copa do mundo. E eu estarei novamente no comando.

Acontece: O que te traz mais boas recordações?
Britinho: No começo da carreira, o dia em que a então rádio independência precisou de um novo repórter esportivo e o Odilon Ramos, chefe de esportes na época, me promoveu ‘às pressas’. Eu era aprendiz de sonoplasta e, de repente, vi meu sonho se realizar. Virei Britto Jr. porque meu pai já era o comentarista. A rádio não poderia ter dois Hilton Britto!
Na RBS TV Caxias, batendo escanteio e cabeceando, mas, acima de tudo, aprendendo. Foi a minha verdadeira faculdade de jornalismo.
Na TV Globo, cobrindo a copa da Coréia/Japão, como repórter especial do jornal Nacional bem na época dos mirabolantes planos econômicos, depois apresentando as notícias no Domingão do Faustão. Algumas viagens interessantes, como a semana que passei em Nova Iorque, realizando uma série de reportagens comparativas entre SP e NY. Outra viagem maravilhosa foi para a Suécia, quando ganhei um prêmio de melhor reportagem na área de soluções para o trânsito. Na ocasião, passamos 10 dias lá, para mostrar no Fantástico como era o melhor trânsito do mundo, em comparação com o de SP, um dos piores. Já pela Record, tive a oportunidade de ancorar o “Hoje em Dia’ direto da Alemanha por 15 dias. Foi durante a Copa do Mundo de 2006. Aliás, como apresentador tenho tantos momentos maravilhosos para recordar que já não há mais lugar nas paredes do meu apartamento para pendurar fotos. No convívio com Ana Hickmann, Edu Guedes e Cris Flores, nós fizemos tanta coisa diferente, inédita na TV, que é impossível recordar tudo numa só entrevista. Outro grande momento foi a apresentação de “O Jogador”, um game de perguntas e respostas que eu e a Ana ancoramos por duas temporadas. A cada rodada, um dos participantes ganhava 50 mil reais. Foi incrível e divertido demais, com aquele cenário cheio de luzes, tecnologia, e a tensão e o suspense do jogo. Agora, apresentando “A fazenda”, tenho sido obrigado a criar pastas e mais pastas novas no meu computador para guardar momentos especiais do programa e da repercussão dele na mídia. É incrível como um reality show tem a capacidade de mobilizar as pessoas, criar polêmicas e virar assunto em qualquer roda. Todos os jornais, todos os sites dedicam espaço cativo “A Fazenda”, quando estamos no ar, evidentemente. A apresentação deste programa, que só teve duas edições até agora (a terceira vem ai) me tornou muito mais popular do que qualquer outro programa. E eu só posso agradecer ao público.
Mas, quero também lembrar de momentos vividos aí em Caxias do Sul, onde tudo começou. São momentos que, infelizmente, não tenho registro em foto ou vídeo, afinal, naquela época (fim dos anos 70) a tecnologia era muito mais modesta do que agora. Mas são coisas que estão vivas na minha memória: tenho saudade daqueles jantares que a gente tinha, com todo o pessoal da TV Caxias. Eu gostava muito de imitar os narradores e apresentadores que faziam sucesso na época (a Loreny morria de rir comigo!). Eu imitava o Paulo Santana, o falecido e saudoso Dante Andreis e outras figuras emblemáticas do jornalismo gaúcho. Eu adorava imitar o Paulo Rodrigues e eu lembro que o Dudu, o Armando Eduardo dos Santos (um dos maiores repórteres do rádio caxiense), que era nosso amigo em comum, dava muita risada com isso... E ter trabalhado de verdade com toda essa gente é um grande orgulho que tenho.
 
Acontece: Qual o fato mais marcante da tua carreira ? Ou fatos?
Britinho: São muitos, e um dos mais relevantes foi o sucesso do “Hoje em Dia”. Quando estreamos o programa, em agosto de 2005, não passávamos de uma aposta, um ponto de interrogação: será que isso vai dar certo? E graças ao espírito de equipe, a boa convivência e a humildade dos apresentadores (Britto, Ana e Edu, mais tarde Cris), o programa se transformou numa revista eletrônica, virou referência nas manhãs da tv brasileira. A ponto de nós obrigarmos a TV Globo a reagir como nunca havia acontecido antes. Eles tiveram que convocar até o Boninho para dar um jeito no programa da Ana Maria Braga, que, por sinal, teve que mudar de SP para o RJ para fazer o programa direto do Projac. O “Hoje em Dia” revolucionou tanto as manhãs da tv brasileira que as outras emissoras começaram a nos imitar descaradamente: SBT, Band, Rede TV. E nenhum destes programas criados para nos enfrentar, sequer fez cócegas no “Hoje em Dia”. Mas a televisão é dinâmica. A Record precisou mexer no time para realizar outros projetos de sucesso. Veio “A Fazenda” e eu fui escalado. A Ana acabou substituindo a Eliana, que foi para o SBT, aos domingos. E, no nosso currículo, este sucesso, esta revolução, vai ficar para sempre.
Acontece: Te arrependes de alguma coisa que fez (na carreira)? E do que não fez?
Britinho: Para ser sincero, me arrependo de não ter tido a chance de ser correspondente internacional na época da Globo. Eu sempre fui muito ético, nunca quis fazer marketing pessoal, preferindo mostrar o meu trabalho apenas e tão somente exercendo a minha função de repórter. E acho que eu devia ter sido um pouco mais político, comunicar mais a emissora o meu desejo de morar no exterior. Deveria ter usado algumas armas que outras pessoas usaram, mas, o destino acabou oferecendo algo ainda melhor para mim, já que pulei esta fase para me tornar o que sou hoje, um apresentador.

Acontece: Como é a vida em uma Rede de TV Nacional, grande e vivendo em uma cidade grande, longe da família.
Britinho: Quando você é muito jovem, como eu era quando cheguei em São Paulo, aos 20 anos de idade, tudo é muito divertido, e todo dia é dia de descobertas novas. Dentro da maior emissora do Brasil, você se depara a todo momento com seus ídolos, tanto do jornalismo quanto no meio artístico, dá vontade de pedir autógrafo e a gente acaba ficando acanhado. Afinal, são colegas, não é mesmo? No trabalho propriamente dito, a maneira como os grandes jornalistas (os que atuam na redação), pensam é muito centrada, focada na seriedade das informações e no impacto que as notícias vão causar na sociedade. O cuidado com as reportagens é algo assustador para quem chega como eu cheguei, vindo do rádio. Mas você vai se acostumando e, o principal, vai aprendendo. Isso na fase de repórter. Hoje, como apresentador, tenho a liberdade não só de informar, mas também de emitir opiniões. A gente passa a vida inteira contando as histórias dos outros e, inevitavelmente, chega a hora de encaixar as peças e formar uma opinião própria. A responsabilidade de transmitir essas opiniões de uma forma construtiva, plantando em quem nos assiste a idéia de que nem tudo está perdido e que é possível construir um país melhor, é muito grande. Por outro lado, apresentar um reality show é uma missão bem mais complexa do que a maioria pensa. No meu papel de ancoragem, preciso entender todos os detalhes, que são muitos, para transmitir aos participantes e ao público. O melhor exemplo disso são as provas, todas elas únicas e com regras próprias. Mas também existe o momento da votação, em que tenho que cutucar, porém, sem prejudicar nem favorecer ninguém. E a eliminação, quando falo muito sério com eles e procuro puxar a orelha, tendo o máximo cuidado de não inibir o jogo e não entregar aos participantes como está sendo a repercussão lá fora. É um trabalho envolvente e desgastante, principalmente pela super-exposição naqueles 3 meses do jogo. Isso tudo mexe com a cabeça da gente, com a família. Você anda na rua e todos tem uma opinião para dar, uma preferência. São emoções fortes e distintas que eu venho vivenciando na atual fase da minha carreira.

Acontece: Fala o que tu quiseres aqui. De bem ou de mal...
Britinho: Para concluir, quero agradecer a todos aqueles colegas e ex-colegas do rádio caxiense e da tv que me deram oportunidades no começo da carreira. São pessoas que moram no meu coração e fazem parte da minha memória. Acima de tudo, a gente tem que saber das nossas origens e reconhecer a importância que todos tiveram e tem na nossa construção pessoal e profissional. Adoro voltar a Caxias do Sul para ver minha família e meus melhores amigos. E devo a estas pessoas tudo o que sou e que conquistei até agora. Mas a vida é uma sequência infindável e dinâmica de desafios e eu sigo olhando para a frente. Vem ai mais um programa, como já relatei anteriormente é a terceira edição da “Fazenda”, lá pelo meio do ano. Sei que, logo, logo, as minhas férias vão acabar, e não vejo a hora de começar tudo de novo.
Nota do Editor: Toda matéria foi escrita pelo meu amigo Britinho. Eu formulei as perguntas e o pessoal editou o material. O Britinho continua o mesmo, fala, fala, mas sempre com aquele jeito gostoso, simples e muito camarada. De minha parte, como editor da Revista Acontece, só resta agradecer a ele pelo trabalho realizado. Não é qualquer Revista que tem um entrevistado/repórter.
Valeu Britto...Abraços.
(Paulo Rodrigues)
 

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