Revista Acontece Sul

Professor Tite: Capacidade a Serviço do Futebol

Por Editor Chefe e produtor do Caderno Carros & Cia - Paulo Rodrigues em Cidade - sexta, 04 de junho de 2010

Adenor Bachi ou simplesmente Tite.
Natural de Fazenda Souza, terra de Caxias do Sul. Um verdadeiro e elegante amigo da bola. Elegante continua como sempre foi, em tudo. No falar, no vestir, no responder, enfim em todos seus contatos. Um estudioso das coisas do futebol. Um expert. Um entendido desse mundo futebolístico. Foi jogador. É treinador. Mas houve, no meio dessa brilhante carreira, um pequeno, pequenino espaço em que transpirou seus conhecimentos na área da comunicação, sendo um dos comentaristas esportivos da Rádio Caxias. Mas o espaço foi curto. Perdeu a comunicação um grande e entendido profissional. Mas o futebol ganhou graças a competência, o caráter, o profissionalismo e a dedicação do professor em todos os clubes que tem trabalhado.
Como Atleta
Tite começou sua carreira no Caxias, em 1978. Em 1984 foi vendido para o Esportivo de Bento Gonçalves. Em 1985 foi para Portuguesa de Desportos, de São Paulo. No ano seguinte foi para o Guarani de Campinas, interior de São Paulo, onde foi vice-campeão no Campeonato Brasileiro de 1986 e no Campeonato Brasileiro de 1987 (Copa União), além de também ter sido vice-campeão no Campeonato Paulista de 1988.
Como Técnico
Por uma série de problemas físicos, como as lesões que naturalmente acabam atrapalhando os jogadores, Tite deixou de jogar e tornou-se treinador em 1990, quando iniciou sua carreira dirigindo o time do Guarany de Garibaldi.
Treinou diversas equipes gaúchas como Ser-Caxias (1992) Veranópolis (1992-1993-1994-1995-1998), ganhando a segunda divisão gaúcha em 1993.
Esteve também no Ypiranga de Erechim (1996), e posteriormente no Juventude (1997). Tite foi o treinador que levou o Caxias a ser campeão do Campeonato Gaúcho de Futebol em 2000.
Foi contratado pelo Grêmio e ganhou o Campeonato Gaúcho de 2001 e a Copa do Brasil também de 2001. Dirigiu o São Caetano, na cidade do mesmo nome, no interior paulista por dois anos (2003 classificou a equipe para Libertadores da América e 2004).
Mais tarde, naquele ano, assumiu o Corinthians Paulista e levou o time (que beirava o rebaixamento na ocasião) ao quinto lugar no campeonato. No ano seguinte com a chegada do Grupo de Investimento MSI e de estrelas como o argentino Tévez, ele foi demitido mesmo com uma campanha razoá­vel no Campeonato Paulista.
Logo depois, foi contratado pelo Atlético Mineiro. Na sequência foi dirigir o Palmeiras, assumindo o time na zona do rebaixamento. Usou o período de intervalo da Copa do Mundo de 2006 para impor a sua filosofia no time e com uma recuperação fantástica começou o período pós-copa com sete vitórias, cinco empates e uma derrota. Mas após desavenças com Salvador Hugo Palaia, dirigente do clube, Tite seguiu o caminho natural que os técnicos sempre acabam seguindo: foi demitido.
No fim de 2007 foi contratado pelo Al Ain dos Emirados Árabes, mas ao fim de seis meses no comando da equipe foi demitido por não concordar com o pedido dos dirigentes para relacionar um jogador da seleção do país. Tite comandou a equipe em 25 jogos, vencendo 13, empatando seis e perdendo outras seis.
No dia 12 de junho de 2008 a direção do Internacional anunciou a contratação de Tite para o comando do clube. Desde então mesmo assumindo a equipe na zona de rebaixamento levou o Inter ao 6º lugar no Brasileirão de 2008 e conquistou a Copa Sul-Americana daquela temporada. Ainda conquistou o Campeonato Gaúcho de 2009, além de ter sido vice da Copa do Brasil de 2009 e vice na Recopa Sul-Americana de 2009. No mesmo ano, foi campeão da Copa SURUGA Bank, disputada no Japão.
No dia 5 de outubro de 2009 o Internacional rescindiu o contrato com Tite.
 
Conversamos com o Tite no espaço esportivo que a família mantém em Ana Rech e também pela internet. Abaixo o bate papo com o professor, claro sempre falando de futebol:
Revista Acontece: No futebol, vê-se que as demissões de treinadores acontecem muitas vezes absurdamente. Como é que você encara essa situação?
Tite: Por ser o futebol muito exposto (mídia constante) e mexer com paixão, além de ser um negócio, a pressão com que os dirigentes enfrentam é muito grande. A necessidade de conhecimentos mais aprofundados e uma constante atualização em relação aos profissionais do futebol, qualificação dos técnicos, preparadores físicos, atletas etc, são cada vez mais importantes no sucesso de um clube de futubel. Não tendo estas qualidades, afora um equilíbrio pessoal, a demissão do técnico passa a ser o caminho, a solução encontrada pelo dirigente. Redirecionar um trabalho, correção de rumos é segredo de sucesso, é competência.
Revista Acontece: Os dirigentes gostam de palpitar na área específica da escalação do time? Como trabalhar com isso?
Tite: Não há nenhum problema nisso, entendendo o “palpitar’’ como diálogo. O dirigente tem a responsabilidade de conhecer as ideias, avaliar, sugerir, ouvir, falar enfim, manter reuniões internas periódicas. A partir daí cada profissional em sua respectiva área com autonomia de decidir.
Revista Acontece: Atualmente o jogador brasileiro está mais “profissionalizado” do que quando você jogava ou a maioria ainda trata a profissão sem muito profissionalismo?
Tite: Sim, e a evolução é constante. Novamente colocando que o futebol é um grande “Business”, entende-se a necessidade de aprimoramento em toda as áreas; técnico, físico, tático, emocional, cognitivo (inteligência no que se refere ao jogar em si). Quando se fala em alto nível, excelência, estes fatores são cada vez mais importantes.
Revista Acontece: Existe muito interesse pessoal de dirigentes dentro das equipes?
Tite: Minha opinião é que sempre existe. O fundamental é que este interesse seja compatível com o objetivo final do clube e dentro de princípios. Todos nós sempre objetivamos algo, temos algum interesse; é hipocrisia não reconhecer... agora princípios morais e éticos, da sociedade e nossos, de conduta e caráter, devem ser respeitados.
Revista Acontece: Como você vê o papel e a participação dos empresários profissionais dentro de nosso futebol?
Tite: Constatação, ampliando-se cada vez mais. Hoje existem acompanhamento na formação dos atletas bem no seu início e os seus destaques, em equipes ou escolinhas, são buscados procedimentos legais junto aos pais ou responsáveis pelo empresário para representá-los.
Afora esta constatação vejo que, quando da representação por um profissional qualificado, benefício. Porém esta seleção fica difícil em se tratando de atletas jovens e familiares muitas vezes desinformados.
Revista Acontece: Se fala tanto em esquema: 3x6x1 – 4x4x2 - 3x5x2 – 4x3x3. Isso realmente influencia, ganha jogo, ou o que vale é uma boa organização, dedicação integral e muita vontade?
Tite: Quatro fatores são essenciais para alto rendimento: físico, técnico, tático e emocional e já há um quinto, a crença religiosa, fé (independentemente da religião) defendida por psicólogos e alguns estudiosos.Entendo que logo após o fator técnico, qualidade dos atletas, vem em grau de importância o fator tático que é na sua essência de organização equilibrada defensiva e ofensiva, e uma forma adequada de treinamento (metodologia).
Revista Acontece: Ainda somos um celeiro de craques?
Tite: Sim. Eu acredito que pela miscigenação, pela dimensão do Brasil e pela paixão que o futebol traz consigo. A grande mudança verificada no aparecimento do talento é no local; a substituição do “campinho de pelada” pelas escolinhas de futebol.
Revista Acontece: Os clubes brasileiros têm evoluído em matéria de infraestrutura, equipamentos necessários, centros de treinamento, enfim oferecendo condições ideais para o desenvolvimento de um bom trabalho?
Tite: Muito! Hoje a preocupação das grandes equipes ou das equipes que buscam crescimento é construir centros de treinamentos onde o atleta possa usufruir da qualidade dos gramados, alojamentos, materiais, alimentação, cuidados médicos e até de escolas de primeiro e segundo grau, dentro do próprio CT. O Cruzeiro é um exemplo. O Atlético MG foi considerado possuir a melhor infra-estrutura brasileira. O Atlético PR, a segunda melhor e o São Paulo é modelo. Inter e Grêmio vem logo a seguir.
 

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