Revista Acontece Sul

A Genialidade de Paulo Sant’Ana

Por Editor Chefe e produtor do Caderno Carros & Cia - Paulo Rodrigues em Cidade - sexta, 13 de agosto de 2010

O mais lido cronista gaúcho e um dos mais assistidos e ouvidos profissionais do Estado, está lançando seu terceiro livro e mantendo a sua espontaneidade, mesmo enfrentando alguns problemas de saúde. Sant’Ana é direto, atento e muito bem informado. Conheça um pouco da vida deste sucesso do jornalismo gaúcho
Ele é super conhecido. Admirado, copiado, plagiado. Tem momentos que também é criticado. Isso faz parte do seu dia a dia. Falamos de Paulo Santana, o jornalista, o cronista mais famoso deste estado. Pai de dois filhos e avô de três netos, ele encarna, também, volta e meia, um outro personagem, conhecido como Pablo, talvez maior que o seu criador. Mas essa é outra conversa.
Francisco Paulo Sant’Ana nasceu em Porto Alegre em 15 de junho de 1939, na antiga Rua da Margem (hoje João Alfredo), no bairro Cidade Baixa, antigamente apenas um arrabalde da capital. Era uma cidade que nem existe mais: uma cidade com subúrbios líricos, com natureza exuberante, com liberdade total de movimentos, rio e arroios. Por falar em ano de nascimento, vale a pena comentar que Paulo Sant’Ana não tem particular predileção por explicitar sua idade. Perguntado, tempos passados, se havia qualquer problema nisso, ele respondeu, com o misto de irreverência e a eterna ponta de amargura, que parece sempre atravessar seus textos e falas, mesmo em momentos do mais explícito humor: – “Não tenho mais esse problema da idade faz tempo. Ela ficou pública. O desgraçado do Lauro Quadros tem a mesma idade que eu e ficava todos os dias dizendo no Sala de Redação que idade ele tem, aí as pessoas souberam qual é a que eu tenho”. Mas isso não o incomoda mais.
De origem humilde, desde muito cedo começou a trabalhar (foi vendedor de feira livre, entre outras ocupações), o que não o impediu de seguir seus estudos. Formou-se em Direito em 1980. Trabalhou como inspetor e delegado de Polícia entre 1973 e 1988, nas cidades de Arroio dos Ratos, Tapes e São Jerônimo, além de Porto Alegre.
O cronista Paulo Sant’Ana surgiu de uma forma peculiar. Pelas mãos dos jornalistas Cândido Norberto e Lauro Schirmer, começou a participar do programa Sala de Redação, na Rádio Gaúcha, em 1971. No mesmo ano, passou a escrever em Zero Hora. Eram crônicas diárias na editoria de Esportes, nas quais se dedicava a discorrer sobre futebol e, especialmente, sobre sua paixão: o Grêmio. Logo em seguida, tornou-se um jornalista multimídia, com espaços de comentários na Rádio Gaúcha e na RBS TV. Aos poucos, devido ao imenso sucesso que alcançava, Santana foi extrapolando do futebol e passando a ter um olhar geral, surgindo aí o cronista completo que é.
Falando, escrevendo, sendo visto e ouvido, Sant’Ana representa hoje uma nobre e imprecisa estirpe de cronistas – a dos excessivos, dos temperamentais, dos apaixonados, que de vez em quando as mentes mais conservadoras consideram excêntrico, megalomaníaco, egóico. Os que têm mais de 30 anos lembrarão sua defesa ensandecida do então jovem e ainda não provado jogador Renato Portaluppi, depois chamado Renato Gaúcho. Naquele episódio, como em vários outros, Sant’Ana enfrentava qualquer vento e toda maré para defender o que sua intuição gritava: que ali estava um craque, um sujeito diferente, um jogador de quem não se podia cobrar uma trivialidade como voltar para marcar.
 
Manias da infância

Não cumprimento as pessoas com a mão. Quando eu era pequeno, andava muito de bonde. Naquele tempo não havia assalto. O único atentado à propriedade era dos punguistas, dos batedores de carteira. Às vezes, chegava a ficar com medo – porque os bondes andavam superlotados, nas plataformas, nos estribos – que um deles roubasse uma carteira, e como eles eram extremamente ágeis, que a vítima fosse me acusar. O bonde era um caminho sociológico aqui em Porto Alegre. Era uma coisa fantástica. Não sei por que não tem bonde até hoje! E um dos cartazes dos bondes dizia: “Evite o aperto de mão. Um conselho do Departamento Estadual de Saúde”. E aquilo gravou na minha cabeça. Médicos me disseram que realmente o aperto de mão transmite bactérias. Então eu evito o aperto de mão. Tento escafeder, tergiversar, mas, às vezes, é impossível evitar. Mas aperto cheio de dedos. É uma mania que eu tenho da infância, de onde deriva tudo o que faço. A importância da infância na minha vida é muito grande. A melhor comida é aquela que você saboreava quando era criança. A comida que eu gosto é a comida caseira, a comida que a minha madrasta fazia para mim. Eu gostaria que tivesse um restaurante assim: o restaurante da infância. Tenho certeza que faria sucesso em Porto Alegre. Era, talvez, a defesa feroz, desmedida, irracional da individualidade, do valor do sujeito talentoso que se vê no risco de ser tolhido pelas convenções das maiorias. Renato, quem sabe, representava para Sant’Ana uma espécie de espelho. Também o cronista porto-alegrense, testemunha viva de uma experiência social rara – o menino pobre e suburbano que conquista destaque no mundo culto –, é um talento especial que não se pode medir pelas réguas banais.
Na segunda metade da década de 1980, os temas de suas crônicas no jornal transpuseram os limites do futebol, o que fez surgir o cronista que, conforme já registrou o crítico e professor Sergius Gonzaga, “trata de temas que traduzem uma percepção irredutivelmente pessoal e brilhante dos costumes sociais, afetivos e eróticos... deles extraem o humor, a dimensão patética e a carga lírica”. A partir de então, sua coluna passa a ser publicada na penúltima página do jornal Zero Hora, o que a tornou o início do jornal para muitos leitores. E lá continua até hoje, com o sucesso que todos sabem.
Paulo Sant’Ana é autor de três livros, o último lançado recentemente. São eles:
Eis o Homem (2010)
O Melhor de Mim (2003)
Gênio Idiota (1992)
 
Inspiração
Eu já escrevi quatorze mil e quinhentas colunas em Zero Hora! Eu fiz doze mil programas no Jornal do Almoço, fiz doze mil Sala de Redação. Fiz dez ou onze mil programas de comentários pela manhã na Rádio Gaúcha. Então são sessenta ou setenta mil espaços, e não sou jornalista. Eu chego às duas horas da tarde na ZH, vindo do almoço, e a minha coluna só vai sair às sete e meia, oito, nove horas da noite. É uma agonia para eu achar assunto para a minha coluna. Não sou como o Moacyr Scliar que escreve uma coluna em dez minutos, e sobre qualquer assunto. O Scliar é um escritor nato. Eu não! Eu era inspetor de polícia, funcionário público. De repente, a vida me colocou como jornalista. Então eu fico lá, sem saber como fazer a minha coluna. Cadê a inspiração? Como dizia o grande sambista João Nogueira, “ela é uma luz que chega de repente, com a rapidez de uma estrela cadente e acende a mente e o coração. Ah, faz pensar que existe uma coisa maior do que o dia, que o clarão do dia”. E lá pelas tantas ele diz assim: “Chega a nos angustiar”.
E é verdade. Quando você alcança a inspiração e tem a sacada de uma grande coluna ou de um grande comentário, você chega a se angustiar, você se incendeia de prazer, ébrio de gozo. Mas para chegar até a inspiração é muito duro. Sete colunas por semana, sábados, domingos, feriados e nas férias é brutal, é desumano.
 
Por e-mail e através de sua assessoria, a Revista Acontece Sul conseguiu respostas a algumas perguntas exclusivas enviadas ao cronista. Abaixo você acompanha as respostas do jornalistas, bem sucinta, mas precisas:
Revista Acontece: Atualmente o trabalho para o senhor é diversão ou é mais incomodação?
Paulo Sant’Ana: Olha, falando sério é uma mistura dos dois. Me extenua e me dá um certo gozo orgástico.
Revista Acontece: Porque o Brasil, no seu entender, não deve sediar uma Copa do Mundo, como deverá ser a de 2014?
Paulo Sant’Ana: Porque é um país miserável. Precisa antes construir hospitais, metrôs e presídios. Cuidar melhor de sua população que mais necessita.
Revista Acontece: O assédio das pessoas por onde anda lhe satisfaz ou pelo contrário, lhe atrapalha?
Paulo Sant’Ana: Olha, na verdade o assédio das pessoas agradáveis, que são 90% delas, me delicia muito, mas o assédio dos chatos, que existem espalhados por aí e que são 10%, me apavora.
Revista Acontece: Se não fosse jornalista, seria o que?
Paulo Sant’Ana: Eu seria um Jogador de sinuca.
Revista Acontece: E a política atual, como analisas? Estão melhorando os nossos políticos ou não?
Paulo Sant’Ana: Sinceramente analiso com muita descrença. Em tudo e em todos.
E fechando o contato, o eloquaz na rádio e na TV, mas o sucinto para dar entrevistas, o grande jornalista Paulo Sant’Ana, deixou um breve recado:
Agradeço a lembrança de meu nome para ser o entrevistado. Fico muito honrado em ser o escolhido entre muitos colegas de profissão.
Um grande abraço.
Este é Paulo Sant’Ana, o mais lido cronista do Sul do Brasil e um dos mais vistos e ouvidos comentarista de rádio e TV, exercendo atualmente suas atividades no jornal Zero Hora, na Rádio Gaucha e na RBS TV. Ele é polêmico, ele é antenado. Ele é demais....
 

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