Revista Acontece Sul

Jimmy Rodrigues, um Pensador

Por Editor Chefe e produtor do Caderno Carros & Cia - Paulo Rodrigues em Cidade - quinta, 07 de outubro de 2010

Marcelo Fabris Rodrigues - De neto para avô
O almoço transcorria normalmente. Mais uma daquelas refeições de família no domingo. Conversávamos assuntos gerais. De repente, Paulo, meu pai, com aquela sua voz peculiar faz a indagação: “e se a gente fizesse a capa desse mês com o vô???” Fiquei parado, olhando, pensando.... Pois é, esse ano ele completou oitenta e cinco anos de vida, sessenta e cinco de escritor. Parece uma boa ideia. Achei genial. Respondi que, por mim, estava decidido. Seu Jimmy capa da Acontece. Como um raio veio a segunda parte da conversa. Mesma entonação de voz: “pois é Marcelo, mas só que você vai escrever sobre o seu vô!!!” Sabe aqueles cinco segundos de total paralisia??? Então.... Passados os segundos eu só falei o seguinte: 80 ou 100 linhas??!!
Magistério. Assim eu diria que começou a carreira – deixando a modéstia bem para trás – do melhor escritor que Caxias já teve. Perguntei se naquela época, década de 40, havia muitos homens com o objetivo de dar aulas para o então chamado “primário”. Respondeu-me: “Claro que não. Éramos em dois homens e o resto só mulheres”. Pois o Seu Jimmy formou-se no magistério com 18 anos, mas não chegou a exercer. Quando foi pedir emprego pra lecionar e verificou que havia uma fila gigantesca na sua frente, desistiu. Família grande, humilde, vários irmãos. Não podia ficar parado. Tinha que trabalhar.
Obrigado a desistir das aulas, conseguiu emprego no Primeiro Tabelionato Abelardo Cavalcanti, através de um amigo. Através de grandes livros da época, fazia serviços gerais de um cartório. Reconhecia firma, fazia escrituras de compra e venda, procurações. Tudo isso escrito manualmente. Enfim, trabalho de cartório. Chegou a ser “Ajudante Juramentado do Tabelião”.
Vale retroagir e adicionar um fato interessantíssimo. Na época de escola, a média para passar de ano era 5. A redação valia 5 pontos e as outras disciplinas completavam os outros cinco pontos restantes. Durante a prova, meu avô somente escrevia a redação. Entregava o resto em branco. Nunca foi reprovado. Passava de ano sempre com os “míseros” cinco pontinhos necessários graças à sua prática e facilidade na escrita.
Mas como nem tudo são rosas, a facilidade de escrever também trouxe-lhe algumas situações, no mínimo, engraçadas. Durante o período de escola, três professores notaram a facilidade de escrever do rapaz pobre. Gostavam dele e queriam ajudá-lo. Não tiveram dúvida. O aluno Jimmy era o responsável pelos textos lidos para toda a escola nas datas mais “importantes” do ano: Dia da Árvore, Dia do Índio, Semana da Pátria... Na sua formatura, foi o orador da turma. Infelizmente o único sem condições de comprar o “anel de formando”... Nunca mais usou esse tipo de adereço durante sua vida. Ele “acha” que é um trauma. Eu tenho certeza. Mas, conforme ele mesmo diz, a aliança tá na mão da Dona Janda, minha avó.
Aquele mesmo amigo (diga-se de passagem um belo amigo) que havia arrumado o emprego no Cartório, era locutor da Rádio Caxias. Deu emprego para o “vô” na Rádio também. Brevemente vou citar as poucas funções exercidas por ele na Caxias: redator, locutor de programas – entre eles contando piadas de português - fez rádio novela, interpretava personagens e muito mais. Contou que, apesar de tudo isso, sua voz não era boa.... Modéstia...
 
Lembram-se do amigo que conseguiu os empregos para o Jimmy? Pois então. Além destas virtudes, ele tem a maior delas. Num belíssimo dia ensolarado, convidou meu vô para aquilo que – até hoje – é uma de suas grandes paixões. Foram ao Estádio assistir o glorioso Juventude. Ernani Falcão, além dos dois empregos, inoculou sangue verde no Seu Jimmy. E não pára por aí... Graças a este grande amigo, os dois viveram memoráveis anos de boemia.
Numa dessas noitadas, viveu sua fracassada estreia como gaúcho. Havia um dos integrantes do seu grupo de “festas noturnas”, que ia para o bar à cavalo. Depois de tomar “pouquíssimas” doses de uísque. Opa, nesse momento sou interrompido pela minha avó. Ela, até então, estava totalmente calada. Seu manifesto foi: “e como gostava de tomar uísque....”!!! Continuando: o vô solicitou ao proprietário do cavalo se poderia montar e dar uma volta no animal. Nunca havia feito isto antes. O proprietário atendeu ao pedido. O fato é que ele até conseguiu sair com o quadrúpede e chegar na praça. Mas voltou com as rédeas na mão. Ambos caminhando. Seu Jimmy não conseguiu fazer o cavalo dar a volta. Ele puxava somente uma rédea. O animal ficava girando em torno do seu próprio eixo. Depois que voltou ao bar caminhando com o cavalo, avisaram-no que era só puxar as duas rédeas juntas que o bicho seguiria para frente. As gargalhadas ecoaram pelo quarteirão.
O vô trabalhou em vários jornais da cidade. Normalmente ocupava o cargo de editor chefe. Todas as notícias que eram publicadas passavam pelas suas mãos. Certa feita, um repórter chegou com a notícia que os presidiários de caxias estavam dormindo de óculos de sol. Óculos de sol? Era porque os carcereiros deixavam as luzes acesas, aumentando o controle sobre os detentos. Imediatamente no outro dia, o Diretor do Presídio ligou para o Editor Chefe do jornal, no caso Jimmy Rodrigues, informando-lhe que tal notícia não tinha cabimento algum. Questionado, o repórter informou que havia, simplesmente, inventado a notícia, uma vez que estava sem assunto. Vamos combinar uma coisa: mau repórter.... mas que criatividade!!! Foi o único funcionário, em toda sua longa carreira, que meu vô obrigou-se a demitir.
Sempre envolvido com política, foi vereador e Presidente da Câmara Municipal na década de???, durante a administração do amigo Mario Vanin. Ocupou durante 12 anos cargo de Secretário Geral. Até aí tudo muito bem. Interessante mesmo é que, Caxias do Sul durante nove dias foi administrado pelo Prefeito Jimmy Rodrigues. Isso mesmo. Meu avô foi prefeito. O Prefeito estava viajando, o vice e o Presidente da Câmara estavam concorrendo e não existia juiz municipal em Caxias. Conforme a lei e somando esses fatos, Jimmy tomou posse. Perguntei-lhe com toda minha seriedade:
- O que o senhor fez durante esses nove dias como prefeito??!!
Lá veio a resposta, em alto e bom som:
- NADA!!!
Cumpriu o expediente como devia, porém achava antiético tomar certas decisões que não eram de sua alçada. Perguntaram-lhe, então, porque durante esses poderosos nove dias, o Prefeito Jimmy não usava a cadeira do Prefeito para trabalhar. Utilizava o gabinete, mas não utilizava nem a cadeira e nem o birô. A resposta veio de imediato: “imagina se eu gosto de verdade do cargo e pretendo competir com eles...”
E faço valer aquela velha frase que diz que tudo que é bom dura pouco. Temos que terminar esta pequena história de um grande homem. Como achamos – meu vô e eu - que tem muita (mas muita mesmo!!!) coisa invertida nesse mundo, nada melhor que finalizar esta matéria partindo desta premissa. Logo no início deste material, o fotógrafo estava arrumando o “cenário” para algumas fotos. Pegamos a velha máquina de escrever e lá sentou-se o vô. Imediatamente ele levantou e sussurrou no meu ouvido: tirar foto com a máquina sem papel fica estranho. Ele e eu (como de costume) rimos da situação. Ninguém entendeu. Pegou o papel, colocou na máquina. Meu avô tem um sério problema de visão, que infelizmente o impede de ler e escrever com a facilidade de costume. Solicitei, então, que ele escrevesse uma frase naquela máquina. Ele escreveu. Poucas palavras. Naquele instante, enquanto via-o escrever na máquina, meu coração disparou. Voltei à infância, quando ficava atentamente observando-o escrever suas “laudas”. Muito emocionante! Mas o importante disso tudo mesmo é que o vô continuava exatamente com o mesmo jeito. Escreveu como sempre o fez. Aquilo que sempre fez com maestria e, principalmente, amor...

Comentários