Revista Acontece Sul

O Silêncio dos Inocentes

Por Opinião - Marcelo F. Rodrigues em Cidade - quinta, 31 de janeiro de 2013

Escrito por Wanderlei Gonzatto - Empresário
As vítimas do trágico acidente, fruto, entre tantos fatores, do descaso coletivo com o cuidado, com o amparo e proteção da coisa pública, silenciaram. Como os náufragos do Titanic, aos poucos o silêncio e desespero de seus entes mais próximos, vai dispersando, se ainda não, certamente tendendo a dispersar, até perderem a voz que ainda resta como esperança daqueles que ficaram. Na condição de seus porta-vozes, essas vozes nos dizem de muitas dores, certamente a maior delas: a dor da perda de filhos, irmãos, pais, esposas, amigos, entre outras relações que oportunizavam o compartilhamento do mesmo espaço-tempo, do mesmo lar, da mesma sala de aula. Compartilhar até mesmo do convívio que permitia conhecer e dividir planos, sonhos, vitórias, derrotas, realizações e, lamentavelmente, compartilhar também a mesma casa onde, em grupo, combinaram fazer o que mais fazem os jovens: comemorar um dos mais mágicos e passageiros momentos de uma vida, que é a juventude. Mais ainda, a juventude universitária, pois ali estão vencedores de uma competição ainda recente. Além de dores, essas vozes nos dizem de muitos sentimentos: sentimentos de perda, de indignação, de dúvidas, de certezas e talvez até de resignação, dada à nossa natureza de aceitação muitas vezes até mesmo do inaceitável.
Se como indivíduos agimos e respondemos individualmente, como massa, como grupo, como seres coletivos, estamos, ou deveríamos estar, sob os olhos e cuidados da coisa pública. Individualmente, como fragmentos do público, nos é subtraída a capacidade de decisão pelo coletivo. Por essa hipo-suficiência individual, existe o estado de direito. Nele, no estado de direito, trocamos a nossa liberdade, aquela que tínhamos na origem do homem como ser social, onde tudo podia e o mais forte dominava o mais fraco, por um estado de direito, um estado onde cedemos parte de nossa liberdade individual recebendo em troca regras a serem cumpridas e a proteção do estado, vigilante e regente supremo da ordem pública. Esse é o núcleo, e, portanto, umas das razões magnas da existência do ente público chamado estado.
Ao estado, contrariamente ao indivíduo, são outorgados poderes exclusivos do ente público. Amparado por Leis, o poder público tem o poder. Como poder público, ele pode! Infinitamente maior do que o poder individual, em situações extremas, tem inclusive o poder de polícia. O poder de coerção, entre tantos outros que do poder do estado emanam. Portanto, há coisas, ações e razões, que só o poder público pode.
Exercer o que pode, de forma a realizar o que deve, é o exercício e desafio desejado para o gestor público. Desafio do mandatário a quem outorgamos do poder da caneta ao poder de polícia. Certamente não são poderes insuficientes. Insuficientes, tem se mostrado muitas vezes a capacidade de bom uso desse poder. Não raras vezes esse poder é desviado para voltar-se contra o próprio cidadão que o mantém. E é desviado toda vez que o estado executa o acessório em detrimento do essencial. É desviado quando pune os pequenos delitos e ignora os grandes. Ambos devem ser punidos. Não sendo possível a onipresença, priorizar os maiores é regra até mesmo intuitiva. Há um hiato entre o que pode, o que deve e o que se faz. Pelo tamanho desse hiato, nele cabem tragédias. Nele cabem dores impensáveis. Nele cabem verdades e inverdades que precipitadamente tentam, certamente em vão, preencher o vazio. Em vão, por que esses vazios não se preenchem com promessas. Esses vazios não se preenchem com exposição em mídia. Esses vazios se preenchem com ações, muitas ações. Ações como educação, muita educação, onde, ao nascer, se ensine, por exemplo, o verdadeiro sentido e missão da função pública. Se ensine do tamanho da responsabilidade que resulta da decisão individual em ser um gestor da coisa, da complexa coisa pública. Essa pressão que resulta da inominável e irreparável dor deveria e deve colocar o gestor da coisa pública na condição sempre treinada pelos centenário e exemplar escotismo: na condição de sempre alertas!
Os inocentes, jovens, em sua grande maioria que um dia estiveram na lista dos aprovados na porta estreita do vestibular em uma universidade federal, agora silenciam, com seus nomes em uma lista onde certamente não gostaríamos de ver o nome de nossos filhos. Nessa lista, as lágrimas não mais expressam a euforia incontida. Temos netos, temos amigos, temos pessoas com as quais nem sonhamos perdê-las, menos ainda dessa forma, então, que sejamos a voz capaz de dar vozes ao silêncio dos inocentes. Que não deixemos, como sociedade, atribuir-se à fatalidade, à obra do destino, aquilo que é fruto e conseqüência exclusivamente da ação humana, onde, na falta dela, da ação humana, se esconde também a omissão. Que o silêncio dos inocentes, não encoraje a voz dos culpados.
 

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