Revista Acontece Sul

No teatro e na TV

Por Editor Chefe e produtor do Caderno Carros & Cia - Paulo Rodrigues em Cidade - quinta, 07 de fevereiro de 2013

Marília Pêra divide-se entre o musical “Alô, Dolly!” e o riso mórbido de “Pé na Cova”, da Globo
Marília Pêra encara a chegada dos 70 anos com tranquilidade e trabalho. Sem dramas ou grandes doses de nostalgia, em “Pé na Cova”, que estreia em breve, ela dá vida à maquiadora de defuntos Darlene. Fora dos estúdios, canta e dança durante 140 minutos como protagonista de “Alô, Dolly!”, versão brasileira do musical da Broadway, em cartaz no Rio de Janeiro. Segundo a atriz, é a oportunidade de desenvolver bons personagens que a fazem olhar o presente e o passar dos anos sem reclamações. “A sensação de finitude existe. Nada impede que eu tenha um ‘treco’ amanhã. É claro que tenho medo da morte, mas aproveito o tempo que me resta para trabalhar e viver da melhor forma”, conta, com sua característica voz firme em tons baixos.

Ironicamente, o novo trabalho de Marília na tevê aborda justamente a morte. Só que pelo viés popular e caricato do texto de Miguel Falabella, que, além de assinar a produção, também dá vida a Ruço, dono da FUI – Funerária Unidos do Irajá, e ex-marido de Darlene, uma sessentona que embeleza cadáveres e vive sob os efeitos do gin. “Falar sobre morte a esta altura da minha vida não foi proposital. Achei a ideia do Miguel, e sobretudo a personagem que ele escreveu para mim, interessantíssima. O riso nasce a partir do drama”, analisa. A parceria com Miguel também se estende ao teatro. É dele a mente por trás de “Alô, Dolly!”. Sem pestanejar, a atriz assume suas vaidades ao ressaltar que, além da amizade com o autor, prefere trabalhar com Miguel pelas pequenas regalias que tem na lida diária, coerente com seu peso dentro de qualquer elenco e sua idade. “Ele me preserva. Me avisa quando terei de gravar fora do estúdio, me faz gravar apenas três vezes por semana. O trabalho fica mais leve e prazeroso”, explica a atriz, que fez com Falabella seus últimos trabalhos globais: a série “A Vida Alheia”, de 2010, e “Aquele Beijo”, folhetim exibido em 2011.

Acostumada a mudar de visual dependo da personagem, Marília não se assustou ao olhar no espelho e ver os fios bem louros, ideais para dar o tom exagerado de Darlene. Interpretar uma maquiadora também não foi nenhum problema para a atriz. Nos palcos desde os 14 anos de idade, Marília habituou-se a cuidar de sua própria maquiagem. “Fui bailarina durante alguns anos e naquela época não tinha maquiador, cabeleireiro, esse ‘staff’ todo. A produção era extremamente artesanal”, conta a atriz, revelando que, no meio de sua preparação, ficou surpresa ao receber e-mails de pessoas que trabalham como maquiadores de defuntos.
Na tevê desde “A Moreninha”, folhetim exibido pela Globo em 1965, Marília orgulha-se do leque variado de personagens já vividos em novelas clássicas como “Beto Rockfeller”, da Tupi, de 1972, e “Brega & Chique”, novela global de 1987, e em minisséries como “JK”, de 2006. Sem hipocrisias, ela assume que por conta de encarar o posto de protagonista desde o início da carreira, prefere dizer “não” a um trabalho a ter de interpretar uma personagem de importância menor dentro da trama. “Não me agrada trabalhar por trabalhar. Já me habituei a ter grandes personagens. Minha história é essa”, gaba-se.
Corpo em harmonia
Aos 70 anos, Marília Pêra credita sua boa forma ao período em que estudou balé clássico. No entanto, além dos cuidados óbvios, a atriz deixa escapar costumes pouco comuns que segue à risca: só sai da cama depois de oito horas de sono e, em jejum, toma quatro copos de água bem lentamente.
Atualmente, a atriz dispensa os exercícios físicos e a concentração do ioga em nome do teatro. Toda sua força física está direcionada para as quatro sessões semanais em que se apresenta como Dolly Levi em “Alô, Dolly!”, em cartaz no Leblon, Zona Sul do Rio de Janeiro.
 
Instantâneas
Embora esteja em produções da Globo desde 1965, Marília Pêra não mantém vínculo empregatício com a emissora. Seus contratos são sempre por obra.
lMesmo depois de tantos anos de carreira, Marília se considera extremamente autocrítica e admite que não gosta de assistir à reprise de seus trabalhos antigos. “Só fico vendo defeito”, explica.
lMarília já interpretou inúmeras mulheres famosas na tevê, no teatro e no cinema, figuras como as cantoras Carmem Miranda, Maria Callas e Dalva de Oliveira. Além da estilista Coco Chanel e da ex-primeira dama do Brasil, Sarah Kubitschek.
lCantora bissexta, Marília tem três álbuns gravados: “Feiticeira”, de 1975, “Elas por Elas”, de 1989, e “Estrela Tropical”, de 2000.
Está no ar em “Pé na Cova”, na Globo, nas quintas-feiras, às 23h.

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