Revista Acontece Sul

Cultura - Templo às borboletas

em Diversos - segunda, 09 de dezembro de 2013


Neste ano, nós brasileiros, vivenciamos o verdadeiro espírito natalino seis meses antes da chegada do Natal. Refiro-me, aqueles poucos dias da visita do Papa Francisco ao Rio de Janeiro. Certamente, eu que nasci em família católica, apesar de ter sido batizada e tudo o mais, em nenhum momento pude sentir a força da fé com tamanha intensidade. E pouco importa se todas aquelas manifestações foram de origem religiosa ou apenas da ordem da curiosidade humana, já que a fé mostrou-se plena e no seu estado mais puro, desvinculada de onde veio ou dos reais motivos de cada um. Independentemente dos credos ou mesmo na ausência deles, o que marcou aqueles dias foram atitudes coletivas de generosidade e a certeza de que é possível conviver com o outro. Se foi o Papa Francisco com o seu carisma, seu jeitão extrovertido ou seu olhar protetor e paterno o responsável por tudo isto, realmente, ninguém sabe. O que todos viram e sentiram, mesmo que tenha sido apenas pela televisão, foi o fato de que milhões de pessoas se determinaram a seguir, pacificamente, a voz de um homem que, certamente, não resolverá todos os problemas advindos de uma igreja secular, mas se mostrou lúcido, honesto e sensível a eles. Um líder criado na vivência com o seu povo que demonstrou com total clareza que, ao atingir o topo, não se deixará contaminar pelo poder, o orgulho ou as políticas que envolvem a instituição que conduz. Um pastor para ser seguido não pelo cargo religioso que ocupa, mas pela sua inteligência, autenticidade, ética e moral.

E por falar em fé, quem nunca precisou dela. Não da fé cantada aos quatro ventos através de rezas, velas acessas ou algum ato ritualístico, mas aquela interna que suscita nos seres humanos a força da não desistência, da determinação, da paciência e da sabedoria. Pois, nossa mãe, do alto dos seus oitenta e três anos, tomara transformem-se em muitos mais, vive o drama das quimioterapias. Um tratamento duro e desgastante para ela e para todos ao seu redor. Tendo ela vivido até aqui de forma independente e almejando continuar assim, neste momento, se agarra as coisas tal como o faz com as suas lembranças. Certamente, um conceito de felicidade muito particular. Se para nós familiares é até difícil entender todo este apego, por outro lado, ficar ao seu lado suprindo as suas necessidades e, ao mesmo tempo, deixá-la livre para vagar entre seus pertences ou no silêncio dos seus pensamentos talvez seja a única forma sensata de ajudá-la a transpor esta fase. Se esta decisão será a mais acertada, se acontece por lucidez ou mera intuição, quem pode afirmar. O fato é bem mais complexo do que as suas explicações, o ato bem maior que a consciência dele e o resultado totalmente indefinido. Como o tempo de cada um será sempre uma incógnita e, para quem é de fé a vida a Deus pertence, tenho a certeza que todas as noites a Nossa Senhora da Salete ouve as nossas preces e zela pela vó Zóla. Então, seja por muito tempo ainda ou por alguns poucos instantes, toda a sua eternidade está garantida na memória dos seus ou redesenhada no traçado do vôo de borboletas que beijam, carinhosamente, as flores de um jardim de nome Saudade.

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