Revista Acontece Sul

CULTURA

em Diversos - segunda, 09 de junho de 2014


No último mês de fevereiro, meu marido e eu, viajamos à Patagônia chilena, com Punta Arenas, Puerto Natales e Parque Torres del Paine. A primeira vez que por lá estivemos, também no mês de fevereiro, visitamos o lado argentino do Ushuaia a Calafate com Glacial Perito Moreno até a Peninsula de Valdez. Pois, lembro muito bem do deslumbramento que sentimos quando chegamos à cidade do Ushuaia. Um mistério nos envolveu, era a conquista simbólica da Tierra del fin del mundo. Certamente, passado o tempo e após conhecermos tantos outros lugares, desta vez, a sensação não foi tão arrebatadora e nada comparável a primeira impressão, mesmo assim, suficientemente empolgante para não nos arrependermos de ter retornado.

No início dos anos noventa, este era um roteiro ainda pouco atraente para os brasileiros que, sem as facilidades da internet, envolveu a busca de informações em guias e revistas de turismo alternativo e até na National Geográfic. Naquela época, visitar a Patagônia aliou o enorme desejo de conhecer o lugar e a disponibilidade para vencer o que nos esperava, desde as enormes distâncias em estradas de chão, os horários de vôos reduzidos até a comunicação difícil, mesmo por telefone. Tão complicada que ficamos uma semana sem saber notícias da família e eles de nós. Imaginem a pobre da minha mãe, em pleno verão, cuidando sozinha de três adolescentes e não sabendo por onde andava a própria filha. Vinte anos depois algo quase inconcebível. Porém, nada comparável a quem faz viagens, ainda hoje complicadas, que vão do Turquistão ao Urbequistão margeando a divisa com o Afeganistão. Acredite, eu conheço quem, recentemente, se aventurou por aquelas bandas e por um mero descuido burocrático quase precisou ser deportado. 

Porém, não é sobre viagens esta minha conversa, mas sobre rosas. Isto mesmo, sobre a lembrança das roseiras da minha infância. Aquelas tão antigas e de caules rugosos e retorcidos que adornavam o pátio das casas e, também, os canteiros da Praça Dante. As mesmas que foram brutalmente arrancadas em nome da modernização e de um suposto embelezamento do centro da nossa cidade. Que, aliás, não ocorreu. Mas, por que lembrar-me delas agora? Simplesmente, por que as reencontrei nos jardins e praça da pequena cidadezinha de Puerto Natales. Belas, intocadas e soberanas embelezando a entradas das residências e a vida dos passantes. Então, por que cargas d’água, alguém, se deu ao direito de substituir as nossas rosas por pequenas florzinhas sem personalidade e nenhuma história? Por que, mesmo moribundas, eu não as recolhi e as plantei na porta da minha casa? Ou na porta de tantas outras casas desta cidade? Por acomodação, falta de iniciativa ou por, coletivamente, não termos entendido qual era a importância delas para a preservação do nosso patrimônio imaterial. Hoje, elas estariam salvas, e nós estaríamos de posse da memória permanente de tantas Angelinas, Adelinas, Marietas, Pierinas e Carolinas que adormeceriam, lentamente, em todos os invernos ressurgindo coloridas, perfumadas e, eternamente, vivas em cada primavera. 

 

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