Revista Acontece Sul

Cultura

em Diversos - quarta, 10 de setembro de 2014


Asas de fumaça

 

As tragédias gregas são denominadas tragédias, justamente, por colocarem em cheque as questões éticas e morais da humanidade. Com escrita em forma de drama e rica poética se caracterizam pela seriedade e a dignidade com que as suas histórias envolvem os deuses, o destino e a sociedade. E tal qual nas tragédias também a mitologia toca em profundos recantos da alma humana. Com suas narrativas estabelecem limites à vaidade, a arrogância e aos egos. Exemplo é a história do personagem Dédalo, que para escapar da ilha de Creta construiu, para si e seu filho Ícaro, asas artificiais a partir da cera do mel das abelhas e penas de gaivota. Antes da empreitada, como um pai zeloso e preocupado alertou seu filho para que não voasse muito próximo do sol e nem muito perto do mar, pois as asas poderiam derreter ou os respingos das ondas as deixariam pesadas demais. Sem dar ouvidos aos conselhos do pai e tomado pelo desejo irresistível de chegar ao sol, Ícaro acabou por ter as suas asas destruídas morrendo no mar Egeu. Triste fim para ele e para a vida futura do seu pai.

Pois, nos dias que antecederam o final da Copa do Mundo, em função dos famigerados 7x1 contra a Alemanha e 3x0 contra a Holanda, a palavra tragédia foi usada por todos e a exaustão. Em qualquer canto desta terra verde e amarela o vocábulo permeou a única definição possível para o fato mais arrasador e infeliz destes cem anos de uma história futebolística vitoriosa. Uma tragédia anunciada, diga-se de passagem. Visível, até mesmo por quem, como eu, futebol não é o assunto. Considerados mitos, os nossos pequenos semideuses se deixaram estatelar nos gramados. E, tal como Ícaro, eles deveriam ter sido avisados por aqueles que tanto apregoam os seus esforços e conquistas, em entrevistas a poderosos canais televisivos. Claro, que sempre de posse de marcas e mídias bem visíveis em camisetas e bonés. 

 

Mas, como agora é vida que segue e este é o país da esperança, lá vai o crente torcedor brasileiro achando que, agora sim, as coisas deverão ir para os seus devidos lugares. Certamente, outro engano, um novo embuste repaginado que usa das mesmas armadilhas de outrora. Se alguns responsáveis se foram, se outros estão chegando por que, então, esta desrespeitosa descrença? Unicamente, porque entendo que o discurso corroído feito posteriormente à tragédia deveria ter sido substituí­do por outro cercado de respeito à inteligência dos demais e ao sofrimento de uma nação. Então, se por comodidade ou falta de atenção, passivamente aceitarmos as tais desculpas que beiraram ao ridículo, deixaremos todos de finalmente aprender que sensibilidade não se mede pela quantidade de lágrimas derramadas ou por palavras e gestos teatrais fúteis, ensaiados e sem conteúdo. Que eficiência, então, só é possível demonstrá-la agregada ao trabalho e que o talento nato não poderá jamais suprir a falta de empenho, que neste caso, levou ao despreparo emocional e físico. Que líderes forjados não se sustentarão por muito tempo, pois em algum momento acabarão soando falso. Então, de mais esta novela de ocasião e se nada significante acontecer, sobrarão apenas inúmeras e belas imagens da chamada Copa das Copas e a voz do nobre povo brasileiro cantando o nosso hino à capela. 

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