Revista Acontece Sul

CULTURA

em Diversos - quarta, 04 de maro de 2015


Uma verdade nada absoluta 

 

Silvéro, Severino e Ribamar são nomes de origens muito diferentes de Rodrigo, Pedro e Ana. Ainda mais distantes de Pierina, Angelina e Dante ou Frederico, Vagner e Valesca ou, mais ainda, de Sara, Anico e Ariel. Continuando esta lista sem fim Kenia, Niara e Alika ou José, Airyon e Vasco. Num jogo de pega veretas dá pra juntá-los a Müller, Hermann e Schneider ou Amaral, Sampaio e Goulart ou Smith, Lewis ou Hill ou, quem sabe a Pereira, Santos e Silva. 

Conheci a Rita, a menos de dois meses, na casa de minha filha Priscilla onde ela trabalha como diarista. Como a maioria dos trabalhadores brasileiros, ela chega todos os dias bem cedinho, vinda da periferia da cidade. Uma mulher batalhadora, de sorriso farto e olhar atrevido. Com seu cabelo longo até a cintura e preso por milhares de trancinhas, a primeira impressão que tive é que ela bem poderia encarnar uma personagem de livro, filme ou novela, uma mistura de Ana Terra, com Maria Bonita, modelo de Di Cavalcante e musa do Sargentelli. Brasileiríssima, nascida em Goiás, Rita migrou para Brasília em busca de melhores condições de vida para si própria, filhos e filhas. Pois a jovem Rita, com seus não mais que trinta e poucos anos, já tem cinco filhos, alguns com idade de parecerem seus irmãos. Até aqui, nenhum espanto. Quantas mulheres por este Brasil a fora tem muito mais crianças que ela criando sozinha a sua prole. Então, por que me ponho a contar a história desta moça, para mim quase uma estranha, de vida e cotidiano tão iguais aos de tantas outras mulheres brasileiras? Simplesmente, porque me espantou a generosidade dela. 

Preste atenção! Dos cinco filhos e filhas da Rita, três são legítimos e dois são adotados. Fato, que dada às condições, já não é simples por si só. Mais ainda, as duas crianças adotadas são fruto da união do seu ex-marido com outra mulher. Um casal que, por força das circunstancias ou puro desleixo, as abandonou. Pois a Rita as tomou para si tornando-se responsável por elas e transformando-se na sua nova família. Então, se alguém ainda achar isto pouco, com sinceridade, quem seria capaz de um gesto tão desprendido como o dela? Eu, certamente, não. E nem seria por ciúmes, pois penso que um casamento que acaba deve ser, sim, mais um motivo para a vida que segue. Sem dúvida alguma, faço mea-culpa, eu não seria capaz de coisa semelhante por puro egoísmo, falta de consciência, mera preguiça ou poca voia, como diriam as minhas avós. Pois, para a Rita, este foi apenas mais um percalço na vida, que não se tornou um problema, mas a solução! Seguindo a sua lógica, alguém teria que cuidar daquelas crianças abandonadas. Simples assim, simples como ela, que me contou esta história, encostada na pia da cozinha, lavando a louça do café e com meia dúzia de palavras. Contou como se este fato fosse à coisa mais natural deste mundo e não deve ter entendido porque do meu olho arregalado e da minha cara de espanto. 

Uma Rita de alma e coração generosos, mais uma mulher de força, determinação e coragem. Um ser humano com todas as letras maiúsculas. Uma Rita, cujo nome vem do diminutivo do italiano Margherita, origem do nome português Margarida, que quer dizer literalmente “pérola”. Como nem tive tempo suficiente para encompridar a nossa conversa ou sequer saber todo o seu nome, para mim, ela será sempre a Rita do Brasil.

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