Revista Acontece Sul

Cultura

Por Cultura - Mara De Carli Santos em Diversos - sexta, 10 de abril de 2015


Frente e Verso

 

Na minha família, de um minuto para o outro, qualquer assunto pode virar discussão. Indiscriminadamente, tudo pode gerar polêmica. Em parte, isto ensina a ter coragem para enfrentar opiniões diferentes das nossas, buscar argumentos às contestações e, querendo ou não, aceitar que não se é dono absoluto da verdade. Atitude sistemática na casa dos meus pais e que parece se transmite pelos gens e é, certamente, contagioso. Uns mais outros menos, todos nós somos extremadamente geniosos. Por conta deste jeito de ser e um know-how adquirido na prática, penso que esta forma ofensiva e grosseira que se observa, especialmente nas redes sociais, só acontece pelo vazio de argumentações, sem falar da falta de educação e respeito. Algo que só se traduz como intolerância às diferenças.  Pois o meu pai foi um homem falante e extrovertido, politicamente de esquerda e torcedor do Juventude. Já meu sogro, homem quieto e de poucas palavras era politicamente de direita e torcedor do Caxias. Sendo assim, quantas e quantas vezes suas posições extremadas poderiam ter sido motivo para brigas familiares intermináveis e, especialmente, destruidoras. Guardadas as diferenças de opinião e visto agora à distância, como aqueles dois senhores se respeitaram até o final da vida. De que forma elegante os dois tratavam das suas verdades particulares, especialmente, quando fatos e situações lhes exigiram determinados confrontos. Uma lição de postura para quem destila fel gratuitamente. Só agora e com imensa saudade percebo que os dois foram, na minha casa, as duas faces de uma mesma moeda. Cara à informalidade barulhenta do Sady e coroa para o silêncio formal do Seu Zélio. 

Mas, pensando bem, toda esta história só me fez lembrar as obras de duas artistas, também elas passíveis de serem as faces de uma mesma moeda. Duas amigas especiais! Duas artistas com poéticas próprias e conhecedoras do seu ofício. Maravilhosas contadoras de histórias que observam o mundo com seus olhares particulares e traços independentes de modismos. Trabalhando de forma compulsiva, seus personagens são o resultado de construções mentais bastante elaboradas e narrativas visuais que ativam a nossa memória e cuja interpretação particular os fazem geradores de conversa. Cara às obras perturbadoras da Viviane Pasqual e coroa para a sutileza das aquarelas da Rita Brugger.  Então, seja na vida ou na arte, pelo sim ou pelo não, palmas para quem tem jogo de cintura suficiente para deixar de pé as suas próprias moedas, mesmo que isto ocorra apenas por meros instantes e sem nenhum expectador.

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