Revista Acontece Sul

CULTURA

Por Cultura - Mara De Carli Santos em Diversos - sexta, 08 de maio de 2015


A árvore e o rio

 

Quem me conhece sabe o quanto gosto de viajar. Houve um tempo, em que quase uma fanática, chegava de uma viagem já pensando na data e no roteiro da próxima. Atualmente, seja pela idade ou conhecimento adquirido, prefiro selecionar muito bem os trajetos me reservando o direito de largar as mochilas viajando com um pouco mais de conforto e sem ansiedades. Mesmo assim, longe ou perto, penso que sair pelo mundo é a única forma real de se conhecer lugares, cidades, povos, culturas, costumes e novas paisagens. Um prazer compartilhado com meu marido, o melhor companheiro de viagem que alguém, como eu, poderia ter. Numa medida bem razoável, também ele gosta de poder andar sem rumo da mesma forma como aprendemos juntos o quanto pode ser fascinante uma visita a museus, galerias e estádios de futebol. Alguém que sabe rir das frias turísticas ou culinárias enfrentando sem grandes reclamações as intermináveis horas de vôo e aeroportos. 

Certamente existem muitas justificativas, ocasiões e pretextos para se viajar. Pegar a estrada e dar uma volta ao mundo é um desejo ancestral, mesmo sendo este, um sonho quase inatingível. Pois, teoria da viagem: poética da geografia, do filósofo francês Michel Onfray traz um olhar contemporâneo a este desejo nômade da humanidade. De forma direta e tendo como mote os personagens bíblicos Caim e Abel o autor faz um elogio à arte de viajar traduzindo na forma de pequenos ensaios o amor pelo movimento versus a paixão pelo imobilismo. Características, escolhas e opções as quais todos nós, de uma forma ou de outra, oscilamos. 

Então, quando e onde realmente se inicia uma viagem? Uma viagem, segundo Onfray, começa em uma biblioteca. Ou numa livraria. Misteriosamente, uma viagem tem lugar ali, nestes locais sedentários como as prateleiras e as salas de leitura, os antigos atlas, os poemas ou, até mesmo, as telas dos computadores. O desejo nômade resultará na escolha de um destino e o corpo do viajante dará início as suas experiências vindouras, nos primórdios da palavra. Toda esta documentação arrecadada tende a ativar as sensações do viajante e o ritual anterior a partida aumentará o desejo da viagem tornando-a mais refinada, singular e lúdica. A medida destas expectativas, muitas delas advindas de uma iconografia mental, peculiar e particular, também é algo feito a priori. Levado pelo impulso de sair cada viajante tende a se deslocar para além do seu território de conforto viajando primeiro na sua própria imaginação. Um aprendizado do mundo que se dá ao mesmo tempo que o aprendizado de nós mesmos. Como o movimento constante de um rio que corre sem descanso incorporando a paisagem a sua própria existência.

 

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