Revista Acontece Sul

CULTURA - Devo isto à Vida

Por Cultura - Mara De Carli Santos em Diversos - quarta, 01 de julho de 2015


Somente me dei conta de que a velhice realmente existe e o poder arrasador das doenças ligadas a ela, quando em menos de dez anos fui perdendo a minha sogra, meu sogro, meu pai e minha mãe. Sorte das minhas filhas que os tiveram presente nas suas vidas até a idade adulta. Um fato não tão corriqueiro assim e que talvez elas possam mensurar só mais tarde, quando também ficarem velhas. Porém e antes disto, se o destino assim quiser, serei eu a velha da família. Para tanto, preciso me preparar física e emocionalmente desde agora, enquanto ainda tenho a lucidez para determinar as minhas vontades. Mas, creiam este texto não tem o teor de um testamento, apenas de uma leve intenção de flertar com o futuro.

Mas, qual futuro? O dos velhos atléticos que se orgulham de correm maratonas até os noventa anos? Das velhas siliconadas que continuam a vestir calças de lycra compradas em lojas de departamento juvenil? Ou daqueles que conseguem economicamente viajar o mundo tendo que aguardar na companhia de motoristas até que os demais retornem das visitas? Pois, morar sozinha, fazer as compras ou cuidar do próprio dinheiro, passar horas na internet, criar e até sustentar filhos e netos, atualmente, se tornou algo quase normal entre os que já passaram dos setenta. Difícil mesmo é entender à hora de aposentar o carro, deixar de percorrer as ruas depois do anoitecer ou ser sensato a ponto de chamar o eletricista para trocar as lâmpadas queimadas.  E, especialmente, entender quando é chegado o momento de se desvencilhar dos pertences, de mudar de casa, de rumo ou de rota deixando de se lamentar com as perdas ao vislumbrar os ganhos que esta nova situação possa vir a oferecer ou o quanto a nova forma de viver pode trazer alívio e paz se encarada como parte da felicidade. 

No último dia vinte de maio, em plena quarta feira à tarde, idealizada ou não, conheci a velha que eu gostaria de me tornar. Seu nome, Swetlana Geier. Uma russa nascida na Ucrânia que na época da segunda guerra mundial foi parar em um campo de concentração. Mulher franzina, de olhar azul sereno e penetrante sobreviveu aos horrores da guerra apenas por saber a língua alemã. Falecida em dois mil e dez, aos oitenta e sete anos foi casada, separada, teve uma filha e um filho. Formou sua família e uma carreira de cátedra universitária na Alemanha. Extremamente rigorosa no seu ofício tornou-se a maior tradutora mundial, do russo para o alemão, dos romances de Dostoiévski. Como a conheci? Através do documentário Uma mulher com cinco elefantes, do cineasta Vadim Jendreyko. Simplesmente brilhantes! O documentário e ela. Com poucos diálogos e muitos silêncios o filme nos conta a vida desta mulher cuja história dramática foi perpassada por alguns dos eventos mais violentos na história européia do século passado, desde a morte do seu pai como conseqüência da repressão de Stalin aos Kulaks a ocupação nazista. 

Em determinado momento, porém, mudando totalmente o rumo do documentário a personagem nos conta com grande lucidez sobre a morte prematura do seu filho após um acidente que o deixou inválido por um ano e meio. Mais uma tragédia que a levou a interromper suas traduções e com uma neta retornar pela primeira e última vez, a sua distante Kiev. Viajando de trem, alquebrada pela idade e buscando eco nas suas lembranças não encontrou a sua terra natal da forma com imaginava. Então, sem grandes lamentos e numa espécie de redenção, Swetlana retornou ao seu cotidiano com a sabedoria de quem aprendeu que ninguém mais poderia lhe roubar mais nada. Certamente e naquelas alturas, as suas contas com a vida já estavam todas acertadas. Então, simplesmente, se deixou viver.

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