Revista Acontece Sul

CULTURA

Por Cultura - Mara De Carli Santos em Diversos - quarta, 05 de agosto de 2015


Cem anos e muitos outros dias

 

Noite de verão do dia dezoito de fevereiro de mil novecentos e noventa e dois. Pela voz do rádio chega até nós, veranistas do litoral norte, a triste notícia de que o prédio da prefeitura municipal de Caxias do Sul estava sendo destruído pelo fogo. Nenhuma imagem, só aquelas formadas mentalmente pela descrição dos radialistas. Em época de difícil comunicação telefônica, em que as intervenções jornalísticas ao vivo eram bastante precárias, uma comoção geral se instalou. Felizmente, as notícias diziam da inexistência de vítimas fatais. 

A partir de então lembro que, enquanto a grande maioria dos veranistas só pensava na documentação perdida, comentando preocupados sobre os próximos passos da administração municipal, eu pensava no painel do Aldo Locatelli, na tragédia que seria para o patrimônio cultural da cidade se ele tivesse sido destruído. Foi assim, neste clima de apreensão, que nos dias que se seguiram ficamos sabendo que uma força tarefa estava sendo acionada e que os procedimentos burocráticos estavam sendo realizados. Mas, do painel nada. Neste contexto e até meio constrangida por ter um pensamento aparentemente tão fútil numa hora destas, lembro que não ousava fazer qualquer comentário a respeito. Então, veraneio que segue.

Sinceramente, voltei a pensar no painel do Aldo Locatelli apenas quando retornei de Rainha do Mar e fui dar uma espiada no que havia ocorrido durante o incêndio. Mas não foi assim com todos os caxienses, e somente em mil novecentos e noventa e nove, ao assumir a presidência do Navi, é que soube de acontecimentos deveras importantes relacionados à sua preservação. Pois, no dia seguinte ao sinistro, ainda com os bombeiros fazendo o rescaldo do prédio, um grupo de artistas do Navi realizou a busca dos pedaços do painel, em parte danificado. Coordenados pela sua então presidente, Maria Teresa Stédile, e sua sócia fundadora, Odete Garbin, cada pedaço encontrado foi limpo, embalado e acondicionado em caixas de papelão. 

Levados à sede do núcleo, ali permaneceram adormecidos durante anos, até que a cidade decidisse sobre o seu destino. Então, em mil novecentos e noventa e sete, mais um fato ocorreu ligando o Navi à pintura. Por se tratar de um restauro cujos valores não seriam pequenos, um projeto de lei de incentivo foi elaborado. Novamente foi o Navi, representado por sua então presidente Teresinha Tregansin, que em nome da cidade assinou o convênio estadual. Iniciado os trabalhos, foram os artistas do núcleo que acompanharam a restauradora Leila Sudbak nos procedimentos técnicos de restauro. Agora, no ano do centenário de Aldo Locatelli, histórias como esta necessitam ser contadas para que se possa agradecer e mensurar a importância de certas tarefas silenciosas, que eu e tantos outros cidadãos caxienses nem sequer pensamos em realizar. Núcleo de Artes Visuais de Caxias do Sul, cada vez mais, um NAVI de todas as letras maiúsculas. 

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