Revista Acontece Sul

Leia sem moderação

em Diversos - quinta, 08 de outubro de 2015


O escritor caxiense Fabrício Carpinejar tinha 17 anos quando leu o livro mais incrível da sua vida: Em Busca do Tempo Perdido. As mais de 3 mil páginas da obra de Marcel Proust foram encaradas como um desafio e, talvez justamente por isso, fizeram com que o futuro escritor se apaixonasse tanto pelo livro. 

Para Carpinejar, a pessoa que lê é mais articulada, sabe escutar melhor, consegue controlar a ansiedade e lidar bem com a solidão. Mas você não precisa se afundar em um livro de 3 mil páginas para usufruir dos benefícios da leitura: “Nunca se leu tanto quanto hoje,” diz o escritor. A diferença é que, atualmente, lemos de formas (e em formatos) diferentes. O importante é saber que “toda a leitura é benéfica”. Leia a entrevista completa com o escritor, autor de mais de 30 livros, e entenda o porquê. 

 

 


Revista Acontece: Os hábitos de leitura parecem ter mudado muito. Isso aconteceu com você também? Ainda lê livros de papel ou lê e-books?

Carpinejar: Eu leio das duas formas. Mas acho que o livro de papel ainda tem todo aquele fetiche. O livro de papel não perdeu o seu ritual: ir à livraria, escolher, comprar e levar para casa; isso não tem com os e-books. Embora eu leia no Ipad também, ainda sou aquele cara que carrega uma mochila cheia de livros quando vai viajar.

 

RA: O que deve acontecer com os livros nos próximos anos? 

Carpinejar: A gente pensou que o rádio ia desaparecer com a TV, depois que a TV ia desaparecer com o computador, mas, pelo contrário: esses meios coexistem e um melhora o outro. Quem imaginava que, com a Web, o rádio teria sobrevida? Então eu acho que o livro continua perfeitamente existindo. Livro tem tecnologia como extensão das mãos. No e-book dá até para destacar e sublinhar, mas não dá para dobrar página, colocar um recadinho dentro, emprestar... Além de que o livro tem cheiro. O livro é quase um travesseiro, é como se fosse parte do enxoval. 

 

RA: A tecnologia contribui para aumentar o número de leitores?

Carpinejar: As pessoas estão lendo muito mais hoje em dia. Não houve redução de leitura. Nunca se leu tanta notícia, tanto jornal. Só que hoje a gente está treinado para ler com mais rapidez, em mais janelas do computador. As pessoas leem com muito mais intensidade. Então tudo bem se elas não estão lendo livros de papel, porque elas estão lendo. 

 

RA: Por que ler, especialmente nos dias de hoje, é importante?

Carpinejar: A leitura cultiva a solidão, o suportar da ansiedade do teu tempo contigo. Quem lê mais escuta melhor. Quem lê dedica um tempo, uma ou duas horas por dia, para articular memórias, orquestrar imaginação. Eu sou hiperativo, mas na hora em que leio, consigo ficar concentrado. 

 

RA: Você percebe diferenças nos hábitos e gostos de leitura entre homens e mulheres? 

Carpinejar: Acho que a diferença é muito mais uma criação do mercado, não sei se ela realmente existe. Mas a mulher gosta de    emprestar livro muito mais do que o homem, gosta muito mais de falar, de discutir o livro, além de dar muito mais livros de presente – isso é bem mais feminino. 

 

RA: Qual o melhor livro que você já leu?

Carpinejar: Em Busca do Tempo Perdido, do (Marcel) Proust. Foi o melhor que eu já li – primeiro, pela odisseia, depois pela quantidade de detalhes e pela continuidade. Aquilo que te dá mais trabalho é aquilo que tu mais vai amar (Em Busca do Tempo Perdido tem mais de 3 mil páginas). Por isso os jovens gostam de livros longos, grossos; é balela pensar que eles gostam dos livros fininhos. Eles gostam da aventura, da ficção, da continuidade.

 

RA: É possível diferenciar um leitor de um não-leitor?

Carpinejar: Sim, o vocabulário. A pessoa se entrega pelo modo de falar. Você sabe pelo vocabulário se a pessoa lê muito ou pouco. A pessoa com dificuldade de articulação é a que lê pouco. 

 

RA: Qualquer leitura é benéfica? Ou há livros que é melhor que nem sejam lidos?

Carpinejar: Sim, qualquer leitura é extremamente benéfica. Porque mesmo que o livro seja ruim, tu faz todo um esforço para descobrir que ele é ruim. A crítica faz com que tu cries um livro imaginário que não foi lido, tu ficas pensando que poderia ter sido de outro jeito, encontra uma solução. O que já não acontece com os livros de autoajuda, que é aquele livro que te diz o que fazer. A autoajuda tenta te convencer de algo, não tem descoberta. Isso não é literatura, é hipnose. 

 

RA: Os best sellers sofrem preconceito, especialmente de quem tem o hábito da leitura. O que tem (se tem) de errado em estar entre os mais vendidos?

Carpinejar: Não vejo nada de errado. Até porque eu não leio só livros extensos e profundos. Tem momentos que eu preciso apenas de entretenimento, igual a ir ao cinema: imagine só ver filmes do (Ingmar) Bergman, não dá. Tem alguns momentos em que a gente precisa não pensar, apenas se distrair.

 

RA: O que influencia mais um escritor: suprir a necessidade de as pessoas lerem ou a necessidade de ser lido? É mais altruísmo ou egoísmo?

Carpinejar: Eu acho que quando a pessoa lê um livro, ela faz isso para se encontrar e, na hora que tu escreves, tu queres se perder. Quando se escreve, se faz um esforço para ser o outro, e, quando se lê, é esforço para se ser. Ser lido é pouco para um escritor. Ele quer ser amado pelas palavras. 

 


Os mais vendidos em Caxias - *Dados do mês de setembro da Livraria do Maneco.


1) Grey (E.L. James)

2) Cazuza Ferreira tem Histórias para Contar (Batista Bossle) 

3) Muito Mais que 5 Minutos (Kéfera Buchmann)

4) Diário de um Banana Vol.9 (Jeff Kinney)

5) Simples Assim (Martha Medeiros)

6) Eu fico loko Vol.2 (Christian Figueiredo)

7) Sapiens - Uma Breve História da Humanidade (Yuval Noah Harari)

8) O Poder do Hábito (Charles Duhigg)

9) A Nova Lógica do Sucesso (Roberto Shinyashiki)

10) Diário de um Zumbi do Minecraft (Herobrine Books) 


Para gostar de ler 


Dê uma chance aos best sellers (há um motivo para eles serem os mais vendidos);

Tente ler uma série (o final de um livro instiga o início do próximo);

Descubra o seu gênero favorito;

Se gostou do livro, procure outras obras escritas pelo mesmo autor;

Não desista tão rápido de um livro com início difícil. Mas, se continuar não gostando, não insista além do seu limite;

Crie uma rotina (reserve um tempo do dia ou da semana para a leitura);

Fique longe das distrações enquanto lê (evite ficar próximo à TV ou celular);

Leia em momentos favoráveis (de preferência, quando estiver descansado);

Respeite o seu ritmo de leitura (ler não precisa ser uma maratona). 

Paradas de ônibus, salas de espera, intervalos e banheiro… Aproveite o tempo inútil lendo. 

Se você realmente não conseguir sentir prazer ao ler livros tradicionais, não se preocupe. Leia textos em jornais, revistas, sites, blogs, redes sociais. Qualquer forma de leitura traz benefícios. 



A Feira do Livro de Caxias do sul

Sediada há mais de 30 anos na Praça Dante Alighieri, a Feira do Livro de Caxias ocorre de 2 a 18 outubro, e é o evento ideal para adquirir livros com descontos. O escritor e membro da Academia Caxiense de Letras Uili Bergamin é o patrono da 31ª edição. Entre os escritores convidados para a feira deste ano está o gaúcho Luís Fernando Verissimo. 

 


 

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