Revista Acontece Sul

Capa - Rogério Ceni

em Diversos - segunda, 07 de dezembro de 2015

Ídolo da torcida do São Paulo, o goleiro Rogério Ceni confirmou que deixa os gramados em dezembro. “Acredito que a maior vitória, na minha carreira, foi eu conseguir jogar por este clube durante todos esses anos”, disse o goleiro, que foi categórico quando questionado se pensa sobre o assunto. “Eu tenho 42 anos de idade e 25 percorrendo o mesmo caminho. Deve ser muito difícil! Por isso, procuro não pensar, nem quando estou sozinho. Sei que esse dia vai chegar, portanto, vamos deixar para que ele seja difícil para ser vivido num menor espaço de tempo possível”. 

A Revista Acontece conversou com o atleta.

 

 

Revista Acontece - Em homenagem aos seus 25 anos de carreira, você está lançando uma linha de relógios, para comemorar. Já que estamos falando de tempo, existe a possibilidade de você atrasar o seu relógio quanto a sua aposentadoria? O São Paulo já lhe ofereceu alguma possibilidade para a próxima temporada?  

Rogério Ceni - Eles me ofereceram uma renovação de mais cinco anos (risos). Não, e eles não tem nenhuma obrigação! Sou muito agradecido por todos esses anos de convivência com a instituição São Paulo Futebol Clube. Quem sabe no futuro eu possa, de alguma maneira, estar presente nesta instituição, mas não existe nenhuma obrigação e não há ressentimento em ter o nome desligado do clube, momentaneamente, apesar de que ao menos ficará, pelo menos pra mim, na eternidade. Acredito nos ídolos como os que eu vi jogar, como o Raí, Careca e alguns que não vi, mas que fazem parte da história, como o Leônidas, como tantos outros ídolos que passaram pelo São Paulo e ficaram presentes na história. Eu só tenho que agradecer! Não tenho nenhuma preocupação, como futuro, ou em me oferecer um cargo. Até mesmo porque é preciso ter méritos para ocupar dentro de um clube do tamanho do São Paulo. O tempo continua através do relógio, mas dentro de campo está chegando a hora de sair de cena e ocupar outro espaço em algo diferente que eu vou pensar somente no próximo ano. 

 

RA - O fato de você não querer pensar neste momento pode ser considerado uma defesa? Você está mudando algo na sua rotina pra não ficar pensando? Como está o Rogério Ceni por dentro?

RC - Honestamente, tenho treinado muito mais do que o normal. Não é pelo fato de que há 60 dias vou encerrar a minha carreira. Não desacelerei o meu trabalho em nenhum momento. Há pouco tempo, tive uma lesão que me atrapalhou um pouco, mas procuro chegar cedo todos os dias, uma hora e meia antes de cada treino. Saio mais tarde, pela necessidade de fazer fisioterapia, de recuperação diária. Gelo, enfim, tudo que é necessário! Não sou mais um garoto de 20 anos que pode chegar, colocar a meia, chuteira e ir pro campo de treinamento, sair e ir embora pra casa. Eu preciso de um tempo maior de trabalho diário, para me colocar em condições de jogo, mas não penso! Juro mesmo! Até hoje, não parei uma noite pra dormir e pensar que seria a última semana, mas acredito que será muito sofrido, muito doloroso encerrar uma carreira. Eu tenho 42 anos de idade e 25 percorrendo o mesmo caminho. Deve ser muito difícil! Por isso, procuro não pensar, nem quando estou sozinho. Sei que esse dia vai chegar, portanto vamos deixar para que ele seja difícil para ser vivido num menor espaço de tempo possível.

 

RA - Você é um supercampeão, com mais de mil jogos, mais de cem gols, e outro dia o jogador Chilavert comentou que você é uma lenda vida. Com tantos títulos, qual o sonho que ainda falta para o Rogério Ceni?

RC - Sou uma pessoa que não faz planos a longo prazo. Procuro viver o presente, porque o passado nós não conseguimos mudar. O futuro acaba sendo incerto, mas o presente é algo muito bacana de viver, porque é uma oportunidade de cada dia você escrever sua história. Penso muito no próximo jogo, na próxima oportunidade de vencer, na próxima chance de ser campeão. Não faço planos há longo prazos, e aprendi que na vida você pode pensar em coisas muito distantes, mas acaba fugindo de metas. Meu tempo é o de hoje, é o espaço curto. Enfim, é tentar fechar o ano da melhor maneira possível, porque acredito que a maior vitória, na minha carreira, foi eu conseguir jogar por este clube, durante todos esses anos. Essa é a minha maior vitória, o meu maior sonho que realizei em toda a minha vida. As pessoas acham que o fato de eu receber para jogar no São Paulo muda, mas tenho muito orgulho, porque eu não trato como meu emprego. Trato como se fosse a minha casa! Eu durmo no mesmo quarto no CT (Centro de Treinamento) há 23 anos. Você imagina o tamanho do impacto que existe numa saída do clube. Por isso eu evito pensar, mas os meus sonhos como profissional acredito que eu tenha realizado, fazendo com que a minha carreira, paralela ao São Paulo Futebol Clube, durasse tanto. 

 

RA - Referente aos seus 131 gols, você pretende, nos próximos dois meses, fazer mais gols para fechar com chave de ouro?

RC - Honestamente eu não sei, mas pela média histórica, se tudo correr bem, quem sabe mais um ou dois gols. Essa é a média de toda a minha carreira. Esse ano foram oito gols, no ano passado, seu eu não estou enganado, foram 10. Se acontecerem serão importantes, mas também se não for possível acredito que 131 já estão bem representados. 

 

RA - Com a saída do Osório e a chegada do Doriva quais são os prejuízos que podem atrapalhar o time?

RC - Claro que todo trabalho que é interrompido gera uma situação um pouco mais difícil pra suprir a ausência, principalmente se é um grande profissional. Mas vejo muito mais pelo lado positivo do que qualquer problema que isso possa trazer. Mas fico muito feliz do que o Osório agregou ao time. Principalmente em sistema de treinamento. No dia a dia, ele trouxe muita coisa para o futebol brasileiro, em especial para o São Paulo. Nós só temos que agradecê-lo por tudo que ele fez durante estes quatro meses. Ficamos contentes quando um profissional, que sai do São Paulo, seja ele atleta, treinador, qualquer função, saia para algo muito especial. Sabemos que uma seleção é algo muito importante. Cada um tem um sonho, eu por exemplo, realizei o meu. Fiquei no clube durante 25 anos e cada um tem o direito de ir atrás dos seus sonhos. 

 

RA - Em outras entrevistas você comentou que o Osório é um técnico diferente de todos que passou pelo São Paulo. O que você acredita que ele tenha agregado ao futebol, em especial ao seu clube?

RC - Percebo nele características diferentes, em especial são duas principais. A diversidade do trabalho diário intenso e a visão tática do jogo. Mesmo com todas as dificuldades da língua, porque ele não tem o domínio do português, mas conseguiu motivar, fazer entender através de mesuras, da palavra do espanhol com o português, e do gestual. Ele é um cara que tem certa influência motivacional na equipe. Essas são as principais características: o trabalho diário no campo e a parte motivacional. É um técnico com seu diferencial, assim como outros que passaram pelo clube. Em relação ao Osório, foi uma proposta ousada sim, no sentido de jogo, mas em estilo e característica de jogo, acredito que pelo menos as pessoas que comentam sobre futebol na televisão ficaram felizes em ver o estilo que o São Paulo estava jogando. Foi um acerto. 

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