Revista Acontece Sul

Cultura - O segredo das coisas

Por Cultura - Mara De Carli Santos em Diversos - quarta, 09 de maro de 2016

O caxiense é um povo esquisito. Com a mesma intensidade com que se orgulha das suas tradições, reclama constantemente da sua cidade. Especialmente, quando o assunto é cultura o que mais se ouve é que, por aqui, nada acontece. Desculpem amigos, mas quem eu não vejo nos eventos culturais são os próprios reclamantes. E não me refiro ao fato para justificar títulos culturais conquistados no passado, mas sim à existência de uma produção artística local que a cidade não percebe a importância, tanto quanto a dos espaços e mecanismos de incentivo disponíveis. Agora mesmo, saí de uma linda exposição, na galeria do Centro de Cultura Ordovás, das artistas caxienses Ana Vergamini e Neuza Zini, denominada Equivalências. Sem o menor constrangimento afirmo que elas são minhas grandes amigas, mas que o sentimento de fruição emanado das suas obras não foi influenciado por esta amizade. 
Conheci as duas há pouco mais de quinze anos, nas oficinas do Núcleo de Artes Visuais e mais intimamente nos cursos teóricos e orientação que passamos a fazer juntas. Desde logo entendi que estava frente a frente com artistas cujo trabalho sério as levou a conquistar seu espaço nas artes visuais. Pois, Aninha é alguém de poucas palavras e muitos silêncios. Daqueles seres iluminados que estão sempre próximos da gente, sem fazer alarde. Aqueles cujo caminhar se sabe, mas não se ouve. Pois, este jeito de ser transparece continuamente no seu trabalho, bem como na série de objetos expostos e cujo desenho da figura humana nos leva ao desejo de sair por aí explorando territórios e medindo como nômades o espaço percorrido. Já a Neuza se move entre a ânsia do experimento e uma constante inquietação. Fotografando, em preto e branco, objetos cotidianos e suas miniaturas a artista cria uma cenografia, onde um e outro se misturam e nos confundem. Uma relação de tensão, um exercício de assunto, tamanho e foco. Mais de uma vez brinquei com ela dizendo que os seus objetos devem mover-se, assim que todas as luzes se apaguem. 
Então, sendo uma equivalência caracterizada pela grandeza de proposições de mesma força ou de igual valor de intensidade nada mais apropriado que denominar assim uma exposição que une duas artistas cujas obras nos levam a pensar no significado de igualdade, equidade e proporção. Uma espécie de balança em que ao menor suspiro possa se estabelecer um desequilíbrio. Mas, como o caminho é longo e as artistas prezam o andar, suponho que já se descortinam outros projetos ou retornos que impulsionem os novos experimentos. Quanto à nossa cidade, melhor parar por aqui e aguardar o dia em que, crítica e culturalmente, possamos realmente acordar. 

 

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