Revista Acontece Sul

COMER E CHORAR POR MAIS

Por Cultura - Mara De Carli Santos em Diversos - quarta, 13 de julho de 2016

Retornei de Portugal. Amo a terrinha! Sinto-me como se estivesse em casa, porém sem os problemas que o nosso Brasil nos apresenta, cada vez mais e no dia a dia. Se a Itália me deslumbra pela beleza e o reconhecimento das minhas raízes, se a Alemanha me espanta pela eficiência, se a Espanha transporta a minha imaginação e a Argentina e o Uruguai são os visinhos mais a mão, Portugal me aconchega e me acarinha. Isto mesmo, em que outro lugar do mundo você poderia encontrar um botequim que se chama Comer e chorar por mais. Uma identidade poética que fez nascer o fado, um Fernando Pessoa e a palavra saudade.
Certo que sou fascinada pelos azulejos das fachadas dos seus prédios e igrejas e também pelas suas infinitas calçadas de pedra portuguesa. Entretanto, não retornaria para lá todos os anos, se pudesse, apenas por motivos estéticos. Também gosto de andar a esmo pelas suas ruelas e avenidas, de ouvir o som das conversas dos nossos irmãos portugueses, quase incompreensíveis apesar de teoricamente falarmos a mesma língua, de beber os seus vinhos, dos seus bacalhaus e das suas confeitarias. 
Por falar em bacalhau achamos um restaurante, na Baixa, chamado João do Grão. Entramos uma vez e retornamos mais duas. Por que motivo? Num primeiro momento, simples curiosidade. O descobri lendo, em um jornal lisboeta, a opinião de uma gourmet portuguesa, já com seus noventa anos, que o citava dizendo ser este o restaurante da sua infância e da suas melhores memórias gustativas. Posteriormente retornamos para fugir dos locais que abrigam basicamente os turistas, pela fama local do seu bacalhau na brasa e a lagareiro, pelo preço honesto, cordialidade e a sinceridade de nos apontar que a quantidade do prato para uma pessoa serve tranquilamente para duas. Em euro, isto faz diferença. Pois foi por intermédio de Seu Luís, o garçom que nos atendeu, que fiquei sabendo que o tal restaurante foi aberto em mil oitocentos e dez, isto mesmo, doze anos antes da nossa Proclamação de República. Que ainda permanece no mesmo local e com a mesma família, os Nunes e Touceiros, na sua sétima geração. Que tem clientes tão fiéis que são chamados pelo nome e que sentam para ler o jornal e só, posteriormente e se quiserem, venham a pedir um ou dois bolinhos de bacalhau acompanhados de um copo de vinho.
Gosto deste tipo de lugar, onde o dono sorri e lhe estende a mão. Restaurantes em que ao atravessar a rua, de mão dada com os netos, o pedido de um prato de batata frita é enviado à cozinha, antes mesmo de você chegar. Daqueles locais em que você tem a sua disposição a regularidade de uma comida simples e boa, o melhor azeite da casa, uma pimenta especial, uma posta de peixe ou filé sempre no ponto da sua preferência. Obviamente, isto não anula um jantar em um excepcional restaurante de chef, especialmente se a arquitetura do lugar for daquelas tão especiais que se guarda na memória ou se tem vontade de sair fotografando tudo. Mas, daí o ritual será outro e as expectativas também. Voltando ao João do Grão, espero um dia poder retornar com a certeza que se eu morasse em Lisboa me tornaria mais um dos seus clientes habituais. O meu Restaurante do Bueno, na capital portuguesa.

 

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