Revista Acontece Sul

Tarcísio Meira Mais intenso do que nunca

em Diversos - quinta, 20 de outubro de 2016

Próximo de completar 81 anos de idade, muito bem vividos, o ator que estreou em 1957, na peça “Chá e Simpatia”, é dono de uma carreira brilhante, tanto no cinema, como no teatro e especialmente na televisão. Com inúmeros personagens que inclusive marcaram uma época na teledramaturgia, o ator lembrou com carinho de João Coragem (Irmãos Coragem, 1970). Com vasta experiência, quando perguntado sobre o que tiraria dos anos de profissão, sua resposta vem com um sorriso no rosto, e uma pausa curta sobre o assunto. “Eu não tiro nada! Deixo tudo lá”, falou em meio às risadas. “Passaram-se muitos anos, e muitas histórias foram escritas. Acredito que tudo tenha valido à pena. O trabalho do ator, na verdade, não é muito simples. Qualquer personagem tem sua complexidade, porque o ator precisa buscar a verdade, para conseguir mostrá-la, especificamente, tudo o que ele realmente é”, disse. 
De volta ao trabalho, após viver o Coronel Jacinto na primeira fase de “Velho Chico”, Tarcísio mais uma vez surpreende o público, e interpreta Fausto na novela “A Lei do Amor”. Com personagem mais denso, o ator comentou que procura viver com verdade, e que os papéis românticos, ou chamados de galãs, são insípidos, inodoros e incolores. “Eles precisam carregar a verdade deles, para um número maior de pessoas. Eles não podem se comprometer muito, porque as pessoas que o acompanham, idealizam, sublimam demais. É um problema fazer marcadamente, esse tipo de personagem”, comentou 

Após ter feito o Coronel Jacinto, na primeira fase de “Velho Chico”, você está de volta em “A Lei do Amor”. Como você descreveria o seu personagem? 
O Fausto é um empresário do ramo de tecelagem, um homem muito ambicioso, que pretende dedicar a carreira à política. Para ele, os fins justificam os meios, em qualquer situação, seja nas relações pessoais ou profissionais. Passam-se 20 anos, e ele se vê esgotado pelo jogo político e empresarial. Nesse caminho, surge um amor entre ele e a Suzana (Gabriela Duarte/Regina Duarte). O que o fez refletir melhor sobre a vida. É quando ele se arrepende de ter armado contra o filho Pedro (Chay Suede/Reynaldo Gianecchini), para separá-lo do seu grande amor, a Helô (Isabelle Drummond/Claudia Abreu). 

Já que nós vivemos um momento político no Brasil, você chegou a se inspirar em alguém?
Não. Corrupção é uma só, e tem muitas pessoas que praticam. Não existe nenhum modelo, o corrupto, é corrupto. 
Ainda falando sobre política, o que você acha dos artistas se manifestarem sobre esse assunto nos dias de hoje?
Eu acho ótimo, que as pessoas se manifestem. Nós temos que encontrar o nosso próprio caminho, por nós mesmos. Não podemos seguir caminhos que vem de lá. Nós temos que construir um para nós. Eu não me manifesto, porque nós (artistas) temos um poder de persuasão, e podemos errar. É uma responsabilidade muito grande, um artista que tem um certo poder de persuasão, errar. É muito chato! As pessoas têm que procurar e encontrar os seus próprios caminhos. E trabalhar com a maior honestidade possível, com a limpeza de caráter. Reconhecer seus erros, mas serem elas próprias. 

O seu personagem passa por um processo para rejuvenescer, com a ajuda da maquiagem. Eu ouvi dizer que veio um profissional internacional para essa transformação. Como foi?
Nós temos dois profissionais para isso. Um deles, veio para nos dar algumas dicas, quer dizer, para os profissionais de maquiagem. Não é só a habilidade e talento, mas é saber o que fazer, e ter o profissional adequado para isso. Quais são os materiais e as técnicas necessárias. 

Você é um ator que vem acompanhando a evolução da tecnologia. Você gosta das redes sociais? 
Eu uso muito a internet, mas não converso com ninguém. Pra que?! Eu sou um homem muito ocupado. Eu tenho que conviver bem com os meus personagens. Preciso pensar neles, e nos meus colegas também. Eu tenho que trabalhar. Tenho muito o que fazer. Não digo que quem usa as redes sociais, não tenha o que fazer, mas talvez eles deem preferência, as coisas que eu não dou. Então, sou uma pessoa muito ocupada. Sou pai, avô, bisavô. Eu tenho um trabalho que me ocupa muito. 

Em outubro você irá completar 81 anos de vida. Você pretende comemorar essa data tão especial?
Não, eu gostaria de esquecer, mas não tem muito jeito (Risos). Não posso parar o tempo. É um dia como outro qualquer. Procuro não pensar muito nesse dia. Aniversário é bom quando somos jovens, como você. 

Você também irá completar 54 anos de casamento...  Mas a história de vocês é muito bonita, e poderia até ser retratada por algum escritor...
Nada especial. Todos os dias é uma comemoração. Nossa história é muito comum. Acredito que ninguém gostaria de escrevê-la. Somos pessoas comuns e muito simples. Não acredito que seja uma história interessante. É banal. Talvez, fosse interessante, do ponto de vista, dos momentos marcantes da nossa carreira, independente de nós dois. Nós temos alguns fatos ocorridos, como por exemplo, a primeira novela (2-5499 Ocupado, 1963) de Dulce Santucci, que foi importantíssima. Ou novelas que vieram a seguir, e que realmente transformaram a cabeça das pessoas deste país. 

São muitos anos de carreira, muitos personagens e histórias. Como é pra você pensar na sua trajetória e o que você tira de tudo isso?
Eu não tiro nada, de tudo isso! Deixo tudo lá (Risos). Passaram-se muitos anos, e muitas histórias foram escritas. Acredito que tudo tenha valido à pena, e valerá o que vier. O trabalho do ator, na verdade, não é muito simples. Pelo contrário, é muito difícil. Qualquer personagem tem sua complexidade, porque o ator precisa buscar a verdade, para conseguir mostrá-la, especificamente, tudo o que ele realmente é. Podemos até mostrar partes de um todo, mas ele precisa ser completo, bem compreendido, conhecido e verdadeiro. No meu caso, exijo e busco a verdade dos meus personagens, mas quando não encontro, fujo deles. Todos os trabalhos que fiz até hoje, nenhum foi fácil. Sou um ator de teatro, cinema e televisão. Um ator que sabe talvez, falar muito mais com os olhos do que através das expressões ou das palavras. Aliás, elas sempre foram menos importantes, mas não somente para mim. Lembro-me quando fiz “Grande Sertão: Veredas” (1985) com o Avancini (Walter, diretor) um trabalho muito bonito. Nós tínhamos uma professora de prosódia, para falar exatamente como Guimaraes Rosa escreveu, que era como as pessoas falavam no interior do norte de Minas. Era uma linguagem muito difícil de compreender. Havia uma maneira muito especial de falar. Perguntei para o Avancini como faríamos, porque percebi que ninguém entenderia nada. Ele disse que as pessoas entenderiam, sim. Mas a questão é que nem eu estava entendendo (Risos). 

Eu sei que é difícil, porque são muitos personagens, mas você consegue destacar os que mais tiveram impacto na sua trajetória? 
Realmente é um pouco difícil, mas tem muitos personagens que foram importantes. Juan Gallardo (Sangue e Areia, 1967) uma novela de Vicente Blasco Ibãnez, adaptado por Janet Clair. É claro, que “O Tempo e Vento” (1985) foi muito marcante, eu fiz o Capitão Rodrigo Cambará. “A Escalada” (1976, Antônio Dias). Fiz também uma série (Desejo, 1990) com a Vera Fisher em que eu interpretava o Euclides da Cunha. E claro, “Grande Sertão”, em que eu interpretei Guimarães Rosa. Essa foi uma história muito marcante para mim. Fiz, evidentemente “Irmãos Coragem” (1970, João Coragem). Outro personagem muito importante foi Don Jeronimo Taveira (A Muralha, 2000). 

Diria que “Irmãos Coragem” pode ter sido um divisor de águas na sua carreira?
Esse foi um momento muito marcante, porque foi a primeira novela que não era só romântica, mas de aventura também. Foi a partir daí que os homens começaram a assistir novela. “Irmãos Coragem” deu um ponto a mais de ibope, do que o jogo de decisão entre Brasil e Itália, numa Copa do Mundo. Incrível! 93% do ibope. Hoje em dia, quando assistimos uma novela, e alcançamos 39 pontos, batemos palmas. Outros tempos e outros públicos também, apesar de eu acreditar que as pessoas não mudam muito. 

Há pouco tempo você esteve em cartaz com a peça “O Camareiro” (2015). Já deu para sentir saudades dos palcos?
Nós somos egressos do teatro. Fazemos televisão, mas somos emprestados. Eu comecei a minha carreira no teatro. Houve uma época, evidentemente, que era muito mais difícil. Nós tínhamos que lutar para conseguir um dinheirinho. Lutávamos com muita dificuldade para conseguirmos seguir em frente. Hoje tudo anda mais facilmente, mas para voltar ao teatro, me faltava uma junção de coisas boas. Uma boa peça, um bom diretor, um bom produtor, bons colegas. A Glória fez muito mais teatro do que eu. Eu me dediquei mais ao cinema e a televisão, além de muitos seriados também. 

Essa é uma parceria que dura pela vida toda e as pessoas sempre ficam curiosas pra saber qual o segredo do casamento tão duradouro. 
A Glória costuma dizer, que não existe segredo, porque se houvesse ela ganharia muito dinheiro. É verdade! Essa história aconteceu de uma maneira impensada, indesejada. Quer dizer, você não deseja ter um casamento duradouro, mas ter um bom casamento. Se ele durar, é um passo circunstancial, mas não tem nada a ver com nada. Ninguém faz força para durar um casamento. Ele dura porque as pessoas se amam, se gostam de verdade, e não sabem viver de outra maneira se não, com. Nem consigo imaginar a hipótese. Mas eu já sei que vou morrer antes da Glória, porque não tenho a mesma saúde que ela. Não vou sofrer a ausência dela. Vou sofrer a minha, desde agora, desde hoje. Quando você chega numa certa idade, pensa: “Tantos amigos foram embora, eu tenho que ir também. Está chegando a minha hora”. Eu tenho certeza que vou antes da minha mulher, porque uma vez, nós fizemos um exame, e perguntei para o médico como a Glória estava. Ele disse que ela estava ótima, com uma saúde de ferro. Eu nunca a vi gripada. Ela vai longe. Não acho que eu esteja tão bem assim. Gostaria de estar melhor, mas é preciso seguir em frente. 

 

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