Revista Acontece Sul

50 ANOS DE ARTE: Beatriz Balen Susin

Por Arte - Silvana Boone em Diversos - sexta, 18 de novembro de 2016

Émuito difícil saber quando inicia o processo criativo de um artista. Geralmente vamos tentar situá-lo no tempo, a partir do que a história registrou. E muitas vezes, a história tem muitas coisas para contar. É o caso de Beatriz Balen Susin, artista caxiense nascida em novembro de 1946, que contabiliza agora, exatos 70 anos. 
De sete décadas, cinco delas foram vividas intensamente no universo da arte. Metaforicamente, o processo criativo da artista pode ser visto como um mergulho intenso ou uma imersão em águas profundas, por vezes agitadas, por vezes serenas; pinceladas vigorosas de cores expressivas construíram inúmeras séries de um mundo percebido e inventado pela artista. Diferentes materiais de criação como lápis, papel, pinceis, tinta e tela, instrumentos-próteses inseparáveis de suas vigorosas mãos, aliam-se ao pensamento criativo formado por uma vida plena de estudo. E nesse processo, surgiu uma das maiores artistas gaúchas, dona de uma obra expressionista inconfundível.
A artista tem no seu currículo a produção em diferentes linguagens artísticas manifestadas em painéis históricos pintados no Brasil e Argentina, é autora de dezenas de ilustrações de livros, bem como cenários e figurinos para o teatro e ousou aventurar-se nas letras, desenhando o sentido das palavras num passeio pela literatura. Mas foi através do desenho, da gravura e da pintura que Bea Balen, como é também conhecida, tem o seu maior reconhecimento, contando com mais de uma centena de exposições coletivas e 45 individuais realizadas no Rio Grande do Sul, e em mais de dez estados brasileiros e países como a Bélgica, Alemanha, França, Argentina, Inglaterra e Canadá.
No conjunto da sua obra, Bea Balen debate o homem no seu tempo presente, mesmo que nele conste o seu passado ou seu futuro. Ou ainda, um universo construído, num tempo indefinido. Como poucos artistas, teve sua trajetória reconhecida por seus pares, os artistas, mas também tem o reconhecimento de filósofos, críticos de arte, jornalistas, ensaístas e poetas que reagem de forma sensível à produção existencialista da artista, que tem a condição humana como temática constante, seja da forma mais realista ou na sua potencialidade fantástica.    
Para comemorar uma trajetória que mescla fábulas e história, discursos reais e ficcionais, a exposição “A memória das águas” vem fechar um ciclo (e abrir muitos outros), tal qual o ciclo das águas. Beatriz Balen Susin reinventa o que está no seu imaginário há décadas. Elementos humanos que se alimentam da água, mas ao mesmo tempo mergulham, emergem, nadam, afogam-se, perdem-se e encontram-se em águas limpas e profundas, ou rasas e turvas... Como a vida, a água está sempre em movimento, em diferentes direções, mesmo paradas...
Em meio século de arte cabe muita coisa: muitas vidas que passaram, muitos conceitos que construíram sentido à própria vida, muitas imagens perpetuadas e muitas outras passageiras. E aqui nesta página, com certeza falta espaço para tanto. Assim é obra dessa artista viva (viva!). Que possamos render-lhe muitas homenagens pelas provocações que sua obra manifestou, seja na sua leitura dramática e crua da obra de Gabriel Garcia Marquez “Cem anos de solidão” (em 1990), seja nos incontáveis retratos das pessoas amadas, dos amigos fieis e artistas da sua convivência ou nas cenas impiedosas de “Miserere – visões do Inferno de Dante”, gravadas em metal para toda a eternidade.
Que nas profundezas de águas puras, o leitmotiv criativo da artista perdure ainda por muito tempo. A cidade do seu nascimento se orgulha de fazer uma digna homenagem. Em “Água viva” Clarice Lispector escreve: “Na?o quero ter a terri?vel limitac?a?o de quem vive apenas do que e? passi?vel de fazer sentido. Eu na?o: quero e? uma verdade inventada”. Na obra cinquentenária de Beatriz Balen Susin uma única verdade: aquela manifestada no movimento da mão, no gesto comprometido do corpo todo que cria, em tinta sobre tela, no traço sobre o papel, a verdadeira ficção da vida: a arte.

 

Acontece em arte

Exposição A memória das águas, de Beatriz Balen Susin com curadoria de Silvana Boone - de 3 a 26 de novembro de 2016, na Galeria Municipal de Arte Gerd Bornheim, Rua Dr. Montaury, 1333, Centro, Caxias do Sul.
Exposição Vontade de ser cachorro e entrar correndo no galinheiro, de Marcelo Chardosim. Selecionada na Convocatória de Exposições de Arte da UAV em 2016. De 26 de novembro a 23 de dezembro de 2016, na Galeria de Artes do Centro de Cultura Ordovás, Rua Luiz Antunes 312, Panazzolo, Caxias do Sul.

 

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