Revista Acontece Sul

SONHOS DE UM CAVALEIRO ANDANTE

Por Cultura - Mara De Carli Santos em Diversos - sexta, 18 de maio de 2018

Dia vinte e oito de março de dois mil e dezoito, quatro horas da tarde de um dia relativamente outonal, caminho lentamente pela rua Bento Gonçalves em direção à Visconde de Pelotas. Dalí alguns minutos,ocorreriameu encontro com Uili Bergamin e Suzana Maino. Os meus dois amigos, que ainda não se conheciam,têmem comum um gosto literário e uma grande curiosidade pelo livro Dom Quixote de La Mancha,de Miguel de Cervantes Saavedra. Na realidade nutremum certo fascínio pelo personagem que dá nome a obra. Como mediadora deste encontro e sem saber por onde andaria a nossa conversa, cheguei ao local marcado um pouco antes do previsto.  Alguns minutos depois, feitas as devidas apresentações e após um bom cafezinho, foi Dom Quixote quem tomou conta da nossa conversa. De imediato, foi ele com o seu poder de sedução quepermeou cada uma das nossas palavras.

Antes, porém, de continuar com esta minha contação de história cotidiana, abro um parêntese para dizer quem são estes meusdois amigos, já que alguns podem estar se questionando a respeito. Pois bem, Uili é escritor, até já foi Patrono da nossa Feira do Livro. Um leitor apaixonadoda obra de Cervantes, desde criança, este anorealizou o sonho antigo de ir para a Espanha e percorrer o caminho das aventuras do nosso personagem atrás dos seus moinhos de vento.Por lá, foi recebido por escritores espanhóis e cervantistas tão apaixonados por Cervantes quanto ele. Antes disso e tal qual uma aventura quixotesca, meu amigo elaborouuma adaptação simples e diretado livro Dom Quixote de La Mancha, cujo maior mérito é abrir janelas à leitura de uma obra tão complexa que pode espantar um novo leitor, quase de imediato. Uma adaptaçãoque pela sua singeleza deveria estarem bibliotecas com acesso a crianças aventureiras, jovens curiosos e adultos apressados.Já a minha amiga Suzana é artista visual interessada na obra de Cervantes desde que, ainda bem jovem, o livro lhe chegou às mãos pela primeira vez. Leu e releu a obra, algumas vezes em diferentes edições, orapulando informações de pé de página, ora buscando histórias novamente, tal qual alguém que, vez ou outra, sopra um vento morno sob as páginas de um livro. Pois, foi esta brisa quente, como aquela que sopra na Andaluzia, no sul da Espanha, que fez com quepandorgas ocupassem o teto de uma galeria de arteda nossa cidade e carregassem trêmulas os desenhos daartista referendados nas ilustrações de Gustave Doré que constam em importante versão do livro Dom Quixote de La Mancha, datado de mil seiscentos e cinco. Sensações de fragilidade semelhantesaquelas de moinhos de vento, masao mesmo tempo tão fortes quanto o nosso personagem central, seu amigo Sancho Pança, seu cavaloRocinante e a sua musa inspiradora, a eternamente bela e inatingível Dulcinéia.

Dia vinte e oito de março de dois mil e dezoito, seis horas de um finalzinho de tardenublado, caminho lentamente até o estacionamento em que deixei meu carro.Poucos minutos depois,me vi no meio de um gigantesco engarrafamento me sentido mais um Don Quixote contemporâneo a vencer os seus própriose diários moinhos de vento.

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