Revista Acontece Sul

Uma cidade viciada em progresso

em Economia e Negócios - segunda, 09 de dezembro de 2013


Encerrada a Festa da Uva de 2012, Leandro (nome fictício) mal continha seu encantamento por Caxias do Sul. Ele viajou sete horas de carro desde Santana do Livramento com a família para ficar alguns dias. Contagiado pela pulsação da cidade, deixou a mulher e o filho na casa de uma cunhada na cidade e voltou sozinho para Livramento. Desligou-se do emprego e retornou correndo para cá. No dia seguinte à sua chegada, caminhou pelas ruas do centro e parou num ponto de táxi para pedir informações. "Tens carteira de motorista", quis saber um taxista. A resposta foi sim. "Então vem depois do almoço. Meu patrão está procurando alguém para pegar o outro carro", disse o motorista. Leandro despediu-se, deu alguns passos e ainda ouviu: "Tens celular?" Repassou o número e foi embora. Duas quadras adiante o dono do carro ligou, convidando-o para um encontro, dali a alguns minutos. Parecia não ser real para ele. Os dois combinaram forma de remuneração e no dia seguinte Leandro virou taxista na cidade. "Aqui pagam bem. Não me importo acordar às 4h30 da madrugada. Lá as pessoas são exploradas. Quem trabalha no campo é quase um escravo do patrão. Aqui não", recorda.

Leandro e outras centenas de migrantes que vieram buscar trabalho encontraram uma Caxias do Sul efervescente: 34º maior PIB do Brasil entre 5,565 municípios, sua riqueza soma algo como R$ 18 bilhões, montante superior ao de cidades como Itajaí (SC), Londrina (PR), Volta Redonda (RJ), Juiz de Fora (MG) e São Caetano do Sul, (SP). No estado, fica atrás apenas de Porto Alegre e Canoas. No âmbito do Corede Serra, o peso de Caxias é acima de 50% entre 31 municípios nos quesitos PIB e população. Para ter ideia da força da sua economia basta ver que, enquanto o PIB gaúcho cresceu 2,4 vezes e do Brasil 2,5 vezes no período entre 2002 e 2010 (IBGE, dados disponíveis), o de Caxias triplicou.

No ano em que Leandro chegou à Caxias, as vendas do comércio fecharam em alta de 3,5% sobre 2011. Já o setor industrial, a locomotiva da economia local, amargou queda de 5,4%. A junção de comércio e da indústria a área de serviços afetou o desempenho geral - retração de 2,4%. As projeções para 2013 elaboradas pela Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Caxias do Sul apontam a inversão de papéis: o comércio fechará com uma retração de 7% e a indústria terá elevação de 5%. A área de serviços não deverá desequilibrar a balança, mas no computo final, a soma de todas as riquezas ficará positiva. O índice ficará no patamar de 1,5% a 2,5%.

A contração de 7% no comércio impressiona, mas não assusta Ivonei Pioner, diretor da Câmara de Dirigentes Lojistas, que oferece uma visão progressista a partir de observações que obteve junto a consultores do SEBRAE. "Caxias do Sul caminha para o que está sendo convencionado como Economia Madura", diz o empresário, conceituando como tal setores do comércio que estão atingindo estágio elevado de saturação, impulsionado, basicamente, pelo perfil do novo consumidor. É este aparente esgotamento que empurra determinados grupos do comércio a ingressar em uma nova fase, a de manutenção. Um exemplo perceptível desse fenômeno em Caxias é a venda de automóveis, aponta Pioner. Neste ano, a queda na comercialização na cidade girou em torno de 25% sobre 2012 – e a razão não pode ser creditada necessariamente na seletividade de concessão de crédito por parte da rede financeira.

"A mudança que deve acontecer com maior consistência é o cliente migrar de uma faixa de veículo para outra, acima da que está hoje, que ofereça mais conforto, mais desempenho e maior economia", prevê o dirigente da CDL. Nos últimos seis anos encerrados em 2012, a frota de veículos em Caxias do Sul cresceu 63%, um incremento maior do que em cidades com perfil semelhante, como Santos (37%), Jundiaí (50%) e Londrina (49%) mantendo o mesmo período de comparação. A média de veículos que ingressa nas ruas e avenidas atualmente oscila entre 30 e 40 unidades/dia, média de mil mensais, ou 12 mil a cada doze meses. Até o fechamento desta edição, a cidade contava com um volume pouco acima de 280 mil veículos. A Secretaria Municipal de Trânsito, Transporte e Mobilidade calcula uma média de 1,7 veículos por habitante.

Pelos dados oficiais, o aumento do número de habitantes em Caxias não acompanhou o vigor registrado nos automóveis. No mesmo intervalo da comparação, a população cresceu 7,74%, o que leva a crer que aqui nascem mais carros do que bebês. Pelo sim, pelo não, acredita-se que há em Caxias uma "população invisível" não captada nas mensurações, supostamente de baixa escolaridade. Seja como for, a estimativa do IBGE para 2013 é 465.304 habitantes. Para 2015 o instituto projeta 500 mil habitantes. Um dado que desperta atenção é o aumento gradual do grupo de pessoas com idade acima de 60 anos, hoje, com participação de 12% na soma total, um avanço de quatro pontos percentuais em relação a seis anos atrás.

A massa assalariada ocupada, de 186,7 mil trabalhadores (posição outubro/2013), vinculada predominantemente nas indústrias metal-mecânica, eletroeletrônica e metalurgia, atravessa um ano de expectativa com relação ao futuro. Parte deste contingente está endividada, parte está direcionando as sobras para a caderneta de poupança. Eles ouvem e leem as notícias na mídia e percebem que há incertezas rondando o ano de 2014. As razões são o enfraquecimento do mercado de trabalho, o cenário internacional desfavorável e o baixo grau de confiança dos empresários em fazer novos investimentos, conectada a perspectiva de o BNDES reduzir seus desembolsos de R$ 190 bilhões para R$ 150 bilhões em 2014, sem esquecer o já consagrado e injustificável descontrole do governo com os próprios gastos, atitude que impacta diretamente na inflação. E inflação é sinônimo de perda de poder de compra.

Monitoramento do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Caxias do Sul, SIMECS, constatou a redução de 2,4 mil postos de trabalho em 2013, causado não exatamente por demissão, mas pela não reposição de empregados que pediram demissão. Getúlio Fonseca, presidente do sindicato informa que o custo unitário regional é elevado em relação a outros pólos industriais. Em 2013, os salários foram reajustados entre 9,5% e 14%, o aço teve aumento acumulado de 20% a 25% e o gás, 24,1%. "A produtividade se manteve ou diminuiu. Aqui precisamos de quatro pessoas para executar uma determinada tarefa enquanto que na Coreia do Sul basta apenas um homem", diz. Ele adiciona ainda os fretes de longa distância que tiveram aumento de 30%. A desoneração da folha de pagamento simplesmente foi engolida pelos reajustes.

A indefinição do governo em dar maior ritmo ao processo de concessões de projetos na área de infraestrutura (rodovias, portos e ferrovias), diz Fonseca, é potencializada pela demora na prorrogação do FINAME PSI, linha de financiamento que oferece condições vantajosas para a compra de caminhões, ônibus e outros bens de capital. O dinheiro sumiu por vários meses e gerou um desconforto generalizado. A instabilidade provocou acúmulo de estoque nos pátios. A Marcopolo chegou a parar um dia da semana e a Guerra estendeu as férias coletivas. A situação retornou ao normal depois do anúncio do ministro Guido Mantega. Ainda assim, falta definir alguns pontos.

Caxias aprendeu a lidar com situações adversas. O grande triunfo é a diversificação do parque fabril, patrimônio que muitas cidades brasileiras ambicionam ter. A este triunfo, Carlos Heinen, presidente da CIC, aponta outra. "Mesmo nas situações de baixa, a cidade se comporta bem porque não para de investir. O pessoal quer estar preparado para a retomada", assinala. O fato de vender 65% de tudo o que produz para fora do estado é motivo de orgulho e ao mesmo tempo um complicador na medida em que compromete a competitividade dos produtos (leia-se alto custo de produção). Na ponta do lápis, as dificuldades com logística e infraestrutura para trazer matérias-primas levam o dirigente da CIC a uma conclusão: "Nós somos muito bons", diz de forma enfática.

A saúde financeira das empresas está em um nível considerado bom, mas exige cautela na hora de empregar. "Mesmo que o negócio esteja em alta, contrate com prudência", orienta o dirigente, enaltecendo o esforço dos industriais em não demitir no períodos de baixa. "Tem sido um grande aprendizado".

"É um risco, mas o pessoal continua investindo. É preocupação constante", concorda Fonseca, do SIMECS. Fazendo as contas de 2012, a entidade chegou a números impressionantes. Dos R$ 18 bilhões em faturamento pelas empresas do sindicato, R$ 360 milhões corresponde ao lucro. O endividamento de curto prazo ficou acima de R$ 600 milhões. Conforme Fonseca, por causa do custo regional elevado, muitas empresas estão optando por levar novos projetos para longe de Caxias. "Há exemplos de várias pequenas e médias empresas buscando outros lugares", afirma. Pouca gente sabe que o País tem 15 fábricas de cutelaria, 14 estão na serra.

O fato de a economia brasileira ter crescido em um ritmo abaixo do esperado em 2013 reflete-se na indústria caxiense na virada para 2014. O nível de pedidos é moderado. Nada assustador. A bússola dos empresários está apontada para o mês de março. Neste finito horizonte poucas mudanças devem ocorrer que possam influenciar de maneira substancial os rumos da política econômica e as projeções de cenários. A aferição fica para o segundo trimestre. O sentimento da CIC é de que a indústria caxiense em 2014 repita 2013, crescimento de 5%. Mais otimista, Fonseca, do SIMECS prevê que se o PIB do País crescer 3% a 4%, as empresas que fazem parte da entidade podem chegar a 8%.

Em comum, todos torcem por uma safra de grãos melhor do que a de 2013, de 186 milhões de toneladas de grãos, que impacta fortemente no setor de equipamentos para o agronegócio. O relatório mais recente da CONAB indica aumento na área plantada, entre 2% e 4,2% e elevação da produção, entre 3% e 5,3%, o que atingiria num modelo conservador 192,4 milhões e num otimista em 196,6 milhões de toneladas.

 

 

 

 

Para Dilma, tudo caminha bem

A presidente Dilma Rousseff vem fazendo seguidas defesas da situação econômica do país, em seu microblog oficial e afirmou recentemente que o Brasil construiu sua estabilidade — inflação controlada, superávit fiscal e altas reservas —, aumentando renda e emprego entre a população.

Dilma disse ainda que o país sente os efeitos da crise financeira internacional, mas assegurou que, pelo décimo ano consecutivo, o país vai manter a inflação abaixo de 6,5% ao ano e destacou, por meio da linguagem típica do microblog, a estabilidade fiscal do país. "Temos reservas internacionais de 376 bilhões de dólares. E somos um dos poucos grandes países a apresentar um superávit primário", disse a presidente em sequência de mensagens editadas para a rede social. "Segundo projeções, apenas seis economias do G-20 (Arábia, Itália, Brasil, Turquia, Alemanha e Coréia do Sul) terão superávit primário em 2013. O Brasil tem uma economia sólida e, por isso, tem recebido investimentos externos vultuosos, como comprova o leilão de Libra. Quem aposta contra o Brasil sempre perde", acrescentou a presidente.

Dilma voltou a fazer menção ao pacto visando a responsabilidade fiscal proposto após a onda de protestos que ocuparam as ruas do país em junho. O pacto, afirmou a presidente, foi proposto porque "é impossível executar grandes projetos de saúde, de mobilidade urbana e de educação sem cuidar atentamente da robustez fiscal do país".

 

Rogelio Golfarb, Vice-Presidente de Assuntos Corporativos da Ford

Segundo Rogelio Golfarb, Vice-Presidente de Assuntos Corporativos da Ford América do Sul, "o ano de 2013 foi marcado por importantes lançamentos que mostram a importância da engenharia brasileira na criação e consolidação de produtos globais. Depois da chegada do Novo EcoSport e do Novo Fusion, o New Fiesta começou a ser produzido localmente e rapidamente tornou-se líder do segmento de compactos acima de 1.0. O Novo Focus levou o mesmo conceito para o segmento de médios. A pré-estreia mundial do Ka Concept mostrou como ele será aplicado, no ano que vem, na gama de entrada da linha. Isso, sem contar o lançamento dos caminhões extrapesados Cargo e outras novidades no segmento de veículos comerciais. Com esses produtos, vencemos um grande número de comparativos e tivemos excelente cobertura da imprensa, o que foi muito importante num cenário de vendas praticamente estáveis da indústria".

 

 

Comentários