Revista Acontece Sul

O conto da Noiva

Por Gastronomia - Mateus Nora Ferreira em Gastronomia - sexta, 18 de maio de 2018

AVISO: Caros leitores, adianto aqui que esta coluna expressa uma cruel verdade da vida de um cozinheiro. Tentarei ser o mais bonzinho possível, mas ainda sim será um texto com uma linguagem, digamos que para adultos.

Gostaria imensamente de dizer que vivi esse conto, nem que fosse como um lava G  que presenciou tudo de canto de olho, no pequeno intervalo da troca de um prato ensaboado por um contendo restos de comida já frias e sem vida. Contudo, essa historia foi viva por um grande chef de alguns dos restaurantes mais badalados de Manhattan em Nova York, e continua sendo uma lenda passada de geração a geração, por nós cozinheiros mortais. 

Quem lê essa coluna costumeiramente ou me conhece há mais tempo sabe que não indico minha profissão a ninguém. Costumo a comparar com o vício em uma droga ilícita, ela pode suga sua vida e sua juventude, contudo lhe proporciona um misto de alegria e euforia. Então me perguntam, por que escolheu essa profissão? Prontamente apresento a eles “O conto da noiva”. Cozinheiros que gostam de literatura além de receitas, ou pertencem ao underground  da gastronomia vão saber exatamente de quem estou falando, mas vou manter uma certa privacidade na identidade de nosso protagonista.

Um belo dia em um restaurante de uma pequena cidade turística, mas muito elegante, com lagos e cabanas para gente com um poder aquisitivo um pouco mais alto do que estamos acostumados, recebeu para jantar um grupo de pessoas que nitidamente estavam saindo de um casamento: a noiva, o noivo, padrinhos, parentes e uns poucos amigos. Nitidamente estavam vindos de uma recepção, pois já estavam um pouco “chumbados” quando chegaram, a certa altura a noiva já ultrapassando os limites do álcool se debruça sobre a boqueta (lugar onde passamos os pratos) e pede se alguém tem mais bebida, a cozinha não deu bola e seguiram trabalhando. Já na metade do serviço, a noiva aparece novamente, agora, para conversar com o chef do restaurante, ela era muito bonita comparado ao seu “sifrado” noivo, se vocês entendem o que eu quero dizer, o qual abriu um sorriso de orelha a orelha, era impossível não notar sua troca de feição. Momentos depois a moça sumiu e o chef fala para o nosso protagonista, “vigie minha praça”. Isso para um cozinheiro é a suprema gloria, receber a permissão para trabalhar no mais alto escalão da brigada, posição de chef de cozinha, ainda que por algum breve momento, era um sonho realizado.

Realizações a parte, certa altura a curiosidade falou mais alto, e se tem uma coisa que cozinheiro é! É fuxiqueiro! Então ele se perguntava, por que estava naquela posição?  Todos intrigados se postaram a investigar o caso. Acontece que a mais fofoqueira das cozinheiras já sabia o que estava acontecendo e conduziu todos há uma janela na cozinha na qual dava para ver os fundos do restaurante onde estavam situados os latões de lixo, e o cantinho para fumar escondido. E lá estava o seu chef, diante de toda brigada tendo relações libidinosas com a mulher que acabara de se casar, escorada em um latão de 100L onde eram depositado restos de comida, e com seu avental pendurado no ombro.

Foi então que ele soube pela primeira vez que queria ser um chef, e na cabeça do nosso interpreto herói, só passava um pensamento: “Eu quero ser esse cara!”.

FIM !

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