Revista Acontece Sul

Lado B - José Zignani

em Lado B - segunda, 10 de fevereiro de 2014


Conhecido na sociedade caxiense, o fotógrafo José Zignani coleciona um portfólio de mais de 600 casamentos. Além das fotos, ele coleciona memórias das expressões da mais pura felicidade que é demonstrada nesse grande dia – e se envolve tanto com os clientes que acaba se tornando amigo deles

 

 

Todos conhecem parte dos dizeres que materializam a promessa do amor que deve durar até que a morte separe duas pessoas. A diferença é que José Zignani, 37, já ouviu a frase “Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença” mais de 600 vezes.

O juramento não foi apenas por ouvido por ele, mas retratado por suas câmeras todas essas vezes. Zignani, um dos mais tradicionais fotógrafos de casamento de Caxias do Sul, entra em 2014 com a agenda cheia. E pretende, por ainda muitos anos, seguir registrando os preciosos momentos daquele que é o dia mais marcante da vida de muitas pessoas.

Um ano tem cerca de 52 sábados e Zignani fotografa casamentos em 40 deles. “Eu boto terno todo final de semana”, brinca. O ritmo acelerado não o deixa cansado – pelo contrário. O fotógrafo, um perfeccionista ao extremo, como ele mesmo se define, vê em cada casamento uma chance de se superar em suas fotografias (ele confessa que já deu álbuns prontos com suas fotos sem cobrar nada por eles, apenas porque não ficou satisfeito com o resultado).

Se por um lado os noivos saem ganhando com o trabalho de um profissional tão exigente com ele mesmo, Zignani ganha cada vez mais clientes, que já estão fechando contratos com a Zignani Fotografia para sábados do ano de 2015. 

É preciso muito amor para fotografar tanto casamento. Segundo ele, um fotógrafo de casamento é responsável por clicar momentos da mais pura felicidade dos casais que se planejaram durante anos para aquele dia. “O que mais me deixa feliz é justamente ver a felicidade de todos”, diz. E é por isso, que enquanto noivos e convidados choram de emoção, Zignani sorri. “Eu não sou de chorar, eu sorrio”, diz, lembrando um episódio, no entanto, que quase o levou às lágrimas – no dia em que fotografou o casamento em que a noiva tinha se recuperado de um câncer. “Eu estava lá, no altar, e sabia de tudo o que eles tinham passado, sabia que ele tinha ficado do lado dela durante a doença. Eu vi ali que eles realmente se amavam. Foi um momento muito bacana, em que eu senti que aquilo era realmente verdadeiro”, conta. 

O motivo pelo qual Zignani se envolve tanto com as histórias de seus clientes é que o seu trabalho com eles inicia muito antes do dia do casamento. Quando ele está no altar, não é um completo desconhecido para o casal. 

Além disso, o contato também não termina na igreja. É comum para o fotógrafo, por exemplo, anos mais tarde, fotografar a mesma noiva, dessa vez já esperando bebê. O mesmo casal também o procura, tempos depois, para retratar a família formada. “Não são clientes passageiros, criamos vínculos. A gente leva para a vida essas amizades”, diz Zignani, que há pouco tempo recebeu uma notificação em seu Facebook de uma cliente que postou fotos do casamento clicado por ele há dez anos. 

Zignani está nesse ramo há 12 anos. É o filho mais novo de Ana Lourdes e Emilio, que era caminhoneiro (mas faleceu quando Zignani tinha apenas quatro anos). Como todo menino, diz ele, queria seguir a profissão do pai. Foi só por causa das circunstâncias que ele descobriu-se interessado na fotografia. 

Era 1997 e Zignani era um jovem de 20 anos que atendia no balcão na Tomazoni, antiga empresa de fotografia de Caxias. “Na época, eu não tinha a menor pretensão de ser fotógrafo”. 

A função dele era atender os profissionais de fotografia que, na era pré-internet, procuravam a loja para revelar filmes e comprar equipamentos. Foi aí que Zignani começou a ter contato com fotojornalistas como Jefferson Botega  e Ricardo Wolffenbuttel – ambos hoje seus amigos, além de inspirações profissionais. No balcão da Tomazoni, Zignani começou a descobrir o maravilhoso mundo da fotografia, e a pensá-la como uma possibilidade de negócio, sem saber que anos mais tarde seria referência nessa área. “Mesmo sem a pretensão de ganhar muito dinheiro, resolvi arriscar”.

Como ainda não existia curso de fotografia da Universidade de Caxias do Sul, a saída encontrada por Zignani para aprender a fotografar foi ser autodidata. Além de mergulhar nos livros de fotografia, ele inspirava-se no trabalho de fotógrafos renomados. Tempos depois, iniciou como muitos fotógrafos iniciam a carreira: fotografando festas à noite. “No começo era eu e minha câmera”, lembra Zignani, que usava uma máquina analógica comprada em Porto Alegre – durante três anos ele fotografou com filme. “Eu vivi a revolução”. 

Depois da noite, vieram oportunidades para trabalhar em outros eventos.  Primeiro, Zignani foi contratado para fotografar decorações e dedicava seu tempo a fotografar flores. Foi em meados de 2004 que ele entrou para a sociedade caxiense, quando foi contratado pelo Recreio da Juventude para fazer fotos do baile de debutantes. Na época, conta Zignani, não havia muitos fotógrafos na cidade, e os que existiam era mais velhos – e foi aí que ele se destacou, iniciando um trabalho fotográfico diferente do que os bailes de debutante estavam acostumados a ver. 

O início, lógico, não foi fácil. Fotografar um baile de debutantes era uma grande responsabilidade, ainda mais para um fotógrafo que ainda não tinha muitos anos de experiência na bagagem. “Dois meses antes do baile eu já não dormi”, conta. Com uma nova proposta de fotografar, Zignani fez sucesso entre as jovens debutantes do clube, por mais de seis anos. 

Esse tempo foi suficiente para aumentar o leque de contatos do fotógrafo, e Zignani finalmente começou a fotografar casamentos. Desde 2007, ano que ele diz que sua carreira sofreu um boom, o fotógrafo não parou mais – e hoje chega aos 40 sábados por ano trabalhados. Claro que, apesar do retorno, tanto financeiro quanto pessoal que tanto trabalho trouxe a ele, surgiram também as partes negativas, assim como qualquer outra profissão. Para Zignani, o lado ruim é que nos sábados, por exemplo, ele nunca está com a família. E, nos domingos, quase sempre cansado. “Mas tem um lado muito bom, que é o que posso pegar meu filho na escolinha às cinco da tarde e ir para o parque, por exemplo. Tenho esse tempo”, explica.  

 

O filho é Valentino, de quatro anos. O menino recebeu esse nome em homenagem à outra paixão de Zignani: motos (ele é dono de uma Harley Davidson Iron 883). Valentino Rossi é um famoso profissional de motociclismo italiano. Valentino, filho de Zignani, ainda é muito jovem para se interessar por motos. Mas não por fotografia. No auge de seus quatro anos, o menino já é dono de uma câmera Cannon G10. “Ele é louco por fotografia. Faz pose para tudo”, conta o pai, orgulhoso. 

O pequeno é filho de Zignani com Márcia Canali. Os dois estão casados há quatro anos, e hoje, Márcia trabalha com ele no estúdio de fotografia, sendo responsável pela parte financeira e administrativa do negócio. Eles se conheceram há 12 anos, quando Zignani fotografava uma festa infantil para uma tia de Márcia. Talvez justamente porque Márcia o conheceu enquanto ele trabalhava seja o motivo pelo qual ela entende tão bem a rotina atribulada de um fotógrafo.

Ironicamente, os dois nunca se casaram na igreja – Valentino surgiu antes que eles formalizassem a união. Mas, segundo Zignani, Márcia, assim como a maioria das mulheres, sonha com um casamento tradicional. Quando esse dia chegar, diferente da maioria dos casamentos que fotografa, Zignani diz que eles pretendem realizar uma cerimônia pequena e com poucos convidados. “Faço festas grandes, mas não sou de festas”. 

O fotógrafo que fica até as 4h manhã trabalhando nos casamentos (mas que já ficou até as 7h), confessa que é muito difícil tirá-lo de casa e arrastá-lo para uma festa nas suas noites de folga. “De tanto estar em festas, quando tenho tempo livre gosto de ficar parado. Eu vivo a festa dos outros. Gosto de ficar em casa”.

Viagens, no entanto, já fazem parte de outra história. Zignani gosta muito de fazê-las e, na lista dos lugares visitados nos últimos meses estão Londres, Aruba, Cancun e Argentina – em todas as vezes ele voou a convite dos noivos para fotografar. 

Embora a equipe que o acompanha conte com cinco profissionais e mais dois freelancers, Zignani diz que a maioria das fotos de seus casamentos são feitas por ele mesmo. “Eu procuro fazer tudo”, diz, deixando claro que é muito criterioso com seu trabalho, que, além da fotografia, envolve a produção de livros de casamento com o material. 

A agenda cheia que foi se acumulando, especialmente nos últimos anos, fez com que ele desistisse, ao menos por enquanto, do sonho de se mudar para Florianópolis e lá abrir um outro estúdio de fotografia de casamento. Seria muito difícil, conforme ele, começar do zero em um novo local, onde seu trabalho não é conhecido como é em Caxias. Mas do futuro ninguém sabe. Afinal, ninguém imaginava que aquele jovem que atendia na Tomazoni viria a se tornar um fotógrafo renomado na cidade. Quem sabe, portanto, o que os próximos anos reservam?


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