Revista Acontece Sul

Eliane Worm Portella

em Lado B - quinta, 03 de abril de 2014


Desde os 7 anos de idade Eliane já sabia que seria médica. A menina cresceu e descobriu o talento na área de ginecologia e obstetrícia. Hoje, até perdeu as contas de quanto partos já realizou

 

Eliane Ida Worm Portella, 64 anos, lembra muito bem da primeira vez em que ajudou a trazer um bebê para esse mundo. Naquele dia do ano de 1973, a jovem de 24 anos talvez ainda não soubesse, mas estaria começando ali uma carreira que lhe acompanharia por décadas. Uma carreira tão intensa que, apenas alguns anos mais tarde, a levaria a realizar mais de 40 partos ao mês.

Eliane era uma estudante de medicina da Universidade de Caxias do Sul (UCS) e estava trabalhando em um de seus plantões. Nele, conheceu uma paciente grávida, que, depois de ser examinada pela estudante, pediu que ela fizesse seu parto quando a hora chegasse. "Ela simplesmente simpatizou comigo. E eu quase morri de sufoco", conta Eliane.

O parto aconteceu tempos depois, no Hospital Pompéia. Para a jovem mãe, a emoção de segurar seu filho pela primeira vez. Para a jovem médica, a de saber que foi ela a responsável por ajudar àquela mãe a sentir tamanha alegria. Apesar do sufoco e nervosismo da médica, tudo correu extremamente bem. "No dia seguinte, eu estava realizada. A sensação na hora foi muito boa, muito gratificante", diz Eliane, que realizou o primeiro parto com a supervisão de um colega médico.

Essa foi certamente uma das primeiras e mais marcantes experiências de Eliane em Caxias. Nascida em Porto Alegre, ela viveu no bairro Passo Da Areia, com a família, até os 18 anos de idade. O pai, Reinaldo, administrava uma empresa de transporte coletivo, e a mãe, Ella, cuidava da casa e das duas filhas (além de Eliane, de Valburga, que era mais velha). As meninas eram muito próximas da avó materna, que frequentou a casa da família durante toda a infância da médica. O segundo nome de Eliane, Ida, foi dado em homenagem a ela.

Eliane conta que foi a mãe que, de certa forma, a influenciou na escolha profissional que ela tomaria alguns anos adiante: "Minha mãe fazia questão de nos informar sobre medicina e desenvolvimento animal e vegetal. Com livros de anatomia, com gravuras e textos em alemão (origem da família), ela nos fez entender os ciclos biológicos, menstrual, a gravidez e o nascimento das crianças", conta.

Além disso, a médica diz que era comum, na época, abater em casa as galinhas que seriam servidas nas refeições. Cada vez que a mãe fazia isso, Eliane gostava de analisar atentamente o interior do corpo da ave depois de abatida. "Eu achava aquilo admirável."

Além de cultivar o hábito de observar a anatomia dos animais, a médica desenvolveu gosto por fazer curativos – não importando se quem necessitasse deles fosse um dos familiares ou um dos animais domésticos. Aos sete anos de idade, a menina já possuía sua própria caixinha de primeiros socorros.

Eliane ainda se recorda de eventuais visitas ao hospital, em Porto Alegre. Naquele tempo, crianças não podiam entrar em estabelecimento hospitalar e esperavam pelos familiares do lado de fora. E era lá mesmo que a futura médica se encantava ao ver as parteiras saindo do hospital com suas maletinhas. "Eu ficava só observando. Eu amava o hospital."

Desde pequena, Eliane decidiu se dedicar bastante aos estudos. Na escola, ela era uma aluna extremamente dedicada, daquelas que não aceitava notas menores do que 10. Inicialmente, a ideia após o ginásio era cursar Medicina em Porto Alegre – a escolha pelo curso não poderia ter sido outra, diz ela. Mas a concorrência por uma vaga na universidade da capital era muito grande, e Eliane decidiu prestar vestibular também em Caxias do Sul, onde foi aprovada. Foi ali o início de uma nova vida.

Sozinha, aos 17 anos de idade, Eliane mudou-se para uma nova cidade. A ideia de iniciar a carreira que já sonhava há anos foi suficiente para animar a mudança. "Eu não conhecia nada em Caxias, mas aqui pude me realizar", diz ela, contando que não teve obstáculos, a não ser o frio dos primeiros invernos. "Ao contrário, fiz muitas e boas amizades com os colegas, depois com pessoas da comunidade e, finalmente, com meus pacientes."

A jovem começou morando no Hotel Itália, cuja dona era amiga de seu pai. Depois, uma de suas colegas a convidou para morar com ela em um edifício em frente à praça Dante Alighieri. Eliane só se mudou de novo quando se casou pela primeira vez, em 1972, quando estava no quarto ano da faculdade de Medicina.

No quinto ano do curso, ela decidiu a especialização que lhe acompanharia pela vida toda, a ginecologia. Foi nesse mesmo ano, pouco antes de se formar, em 1974, que Eliane teve o primeiro filho, Alex, que hoje vive em Camboriú. Três anos depois, ela teve uma filha, Mariane. Hoje, ela é médica dermatologista e trabalha na mesma clínica onde a mãe segue atuando como ginecologista, no centro de Caxias.

Depois da formatura, muitas oportunidades começaram a surgir para Eliane. A primeira delas foi a criação de um grupo de atendimento a partos, juntamente com professores e colegas da UCS, chamado Progesta. "Compramos o primeiro monitor de partos de Caxias. Na época não havia nem o sonar para escutar o nenê, era ainda um pinar, aquele de colocar no ouvido", conta. Eliane começou a fazer mais e mais partos – e por muito tempo chegou a trazer mais de 40 bebês ao mundo por mês. "Foi a época em que eu mais fiz partos", lembra.

Eliane trabalhava muito. Tinha uma grande quantidade de pacientes e a todas elas prometia estar lá no dia no dia em que a hora chegasse. "Então eu não podia não estar lá," explica. A médica, por vários anos, acostumou-se a ter de levantar da cama a hora que fosse chamada para o hospital. "Eu vivia estonteada pelo cansaço."

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Além de atuar no monitoramento dos partos, Eliane e os integrantes do grupo também davam aulas e preparava os casais para a hora do nascimento. Toda essa atividade fez com que ela fosse convidada para participar do Instituto de Ginecologia e Obstetrícia de Caxias do Sul, que perdurou por cerca de 40 anos, no Edifício Estrela.

Foram décadas muito agitadas. Ao longo da carreira como obstetra, Eliane também trabalhou em postos de saúde, prefeitura e sindicato, além de ter se envolvido em diversos projetos e ter lecionado na disciplina de ginecologia da Medicina da UCS. Exerceu esta função durante 23 anos: "Algumas das minhas melhores recordações são de quando eu fui homenageada pelos meus alunos em suas formaturas, e também quando tive a chance de ser paraninfa de uma das turmas", conta.

Eliane lecionou até 2005, ano em que também se separou de seu primeiro marido. Há três anos decidiu afastar-se da obstetrícia e se dedicar apenas a ginecologia. Ela trouxe bebês ao mundo de 1974 até 2011, impossível, portanto, contabilizar quantos partos realizou – essa é, mesmo assim, uma pergunta que ela frequentemente tenta responder a si mesma.

O fato é que o trabalhar tão próxima das pacientes e por tanto tempo, e sendo responsável por um momento tão importante quanto o nascimento de um bebê, fez de Eliane uma profissional realizada. Segundo ela, sempre foi muito satisfatório acompanhar não apenas as mães, mas toda a família, geração após geração. "Em alguns casos, fui até a terceira geração acompanhando gestações. Só não estou fazendo mais porque decidi deixar a atividade obstétrica," diz.

Hoje, ela concentra a maior parte de seu tempo atendendo pacientes no consultório de ginecologia e no estudo e tratamento de reposição hormonal. Desde 2009, está casada novamente, com o médico psiquiatra Valter Portella. Uma vez por semana, vai a Porto Alegre, onde atende em um consultório que divide com o marido. Além destas viagens, também fazem parte de sua rotina atual muitas idas a São Paulo, onde trabalha com o médico endocrinologista Elsimar Coutinho, parceria que criaram há 18 anos.

Todos os finais de semana, Eliane e Valter descansam em Gramado, onde possuem um apartamento. Os dois passam sábados e domingos lendo e vendo filmes. "Somos muito companheiros, fazemos vários programas juntos, inclusive frequentamos a academia duas vezes por semana", conta.

No ano passado, Eliane, que já viu tantos bebês nascerem, ganhou a alegria de ver o primeiro netinho. Nascido em abril, Yan Davi, filho de Alex, é visitado e mimado pela avó sempre que ela e Valter conseguem um tempinho para ir a Camboriú.

A agenda da médica ainda segue cheia. Os planos para os próximos anos são manter-se "trabalhando a mil", como ela mesma define. "No ritmo que estou, está muito bom. Não me sinto mais cansada."

 

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