Revista Acontece Sul

Lado B - Milton Commazzetto

em Lado B - quarta, 10 de setembro de 2014


De Tapejara, passando por Farroupilha, Pelotas e Porto Alegre. Descubra a trajetória do psiquiatra que criou laços com Caxias do Sul

 

Os encontros começaram há quase 25 anos. Um grupo de amigos costumava se reunir para conversar sobre seus assuntos favoritos: cinema, literatura, música e vinhos. Escolhiam a casa de um deles para isso. As reuniões se tornaram tão frequentes, e as amizades tão fortes, que eles decidiram fazer daqueles jantares um compromisso mensal. Criaram, com isso, a Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho Serra Gaúcha. Enquanto conversam, os amigos harmonizam belos pratos com belos vinhos. “Temos até estatutos que definem os ritos das nossas reuniões, como o uso de gravata e capas. Há os responsáveis pela música, pela gastronomia e pelos vinhos. A sociedade nasceu da amizade,” conta o psiquiatra Milton Commazzetto, um dos integrantes. 

É esse um dos lazeres favoritos do médico quando ele está fora dos consultórios psiquiátricos em que atende. Um dos psiquiatras mais renomados de Caxias do Sul, Commazzetto, hoje com 70 anos, acredita que a maior dificuldade da humanidade atual é saber manter as relações. Talvez, justamente por isso, ele faça questão de cultivar as suas. 

Commazzetto (“Dois m’s, dois z’s e dois t’s”, diz ele no início da entrevista – como já deve ter repetido inúmeras vezes ao longo da vida), nasceu em 14 de agosto de 1944 em Tapejara, cidade do interior do Noroeste do Rio Grande do Sul. Seus pais, os caxienses José e Josefina, tiveram, além dele, outros sete filhos. “Eu sou o nenê de uma família de oito,” conta Commazzetto, que teve seis irmãs. “Foi uma coisa muito querida. Como se eu tivesse tido sete mães.”

As lembranças da infância de Commazzetto são muito agradáveis, especialmente porque Tapejara era uma região de campanha e as crianças tinham liberdade para brincar nos campos. A família saiu de lá quando ele tinha 10 anos para residir em Farroupilha. Com apenas 17 anos, Commazzetto tornou-se sócio de uma fábrica de calçados.

Foi na adolescência que Commazzetto começou seu vínculo com Caxias. Juntamente com um grupo de estudantes, ele viajava todas as noites até a cidade para cursar o Científico no Colégio Cristóvão de Mendoza. Commazzetto era integrante da União de Estudantes Farroupilhenses e da União Intermunicipal de Estudantes. Ele escrevia para um jornal estudantil, chamado O Vanguarda, onde tinha uma coluna sobre política e uma sobre cinema. “Eu adorava filmes, hoje não tenho mais tempo para isso,” diz. 

Enquanto trabalhava e envolvia-se no movimento estudantil, Commazzetto nutria uma outra vontade: a de fazer medicina. “Desde jovem, certamente, além do raciocínio consciente, houve razões do coração que determinaram essa escolha.” Mas não bastava apenas a vontade. Para cursar medicina era necessário também um grande investimento, e, para bancar os custos com a faculdade, ele vendeu sua cota da empresa em Farroupilha. “Com o dinheiro, consegui pagar quase toda a faculdade de medicina em Pelotas.”

Ao entrar na faculdade, o jovem Commazzetto decidiu que psiquiatria seria sua especialização. Foi no final dos anos 60, enquanto era bolsista em um hospital de Pelotas, que Commazzetto conheceu Luiza, na época, estagiária de nutrição. O casal, que está junto até hoje, viu o romance iniciar naquele hospital acadêmico.

Após os seis anos de medicina, concluí­dos em 1972, Commazzetto embarcou em três anos de especialização em psiquiatria, depois de passar na prova da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Em 1973, ele e Luiza se casaram e ela foi com ele a Porto Alegre. Nesse período, ele trabalhou no Hospital São Pedro. “Eu atendia sozinho uma ala feminina de 150 pacientes,” lembra. “Foi uma experiência de vida muito intensa.”

Em 1975, quando concluiu o curso, Commazzetto estava decidido a ficar na Capital, já que tinha um grande grupo de amigos na cidade. Ele rejeitou uma oportunidade de trabalho para voltar a Pelotas. Mas não rejeitou uma chance de vir a Caxias. O médico considerou os laços que já tinha com a cidade: seus pais haviam nascido aqui e ele havia estudado aqui quando era adolescente. Foi difícil deixar Porto Alegre e todos os amigos, mas Commazzetto e a mulher, na época grávida da primeira filha, Carolina, assumiram a nova oportunidade. “Além de uma proposta de trabalho, a UCS abriu as portas para que eu lecionasse na psiquiatria,” conta Commazzetto, que não se arrependeu da decisão de deixar Porto Alegre. “Optei por Caxias. E sou feliz e realizado aqui. Sou muito grato a Caxias, pois aqui fui bem recebido e encontrei um ambiente que me proporcionou viver bem com a minha família.” Ele lecionou na UCS durante três décadas. 

Logo que chegou em Caxias, Commazzetto foi presidente da Associação Médica, e, em 1983, foi vereador pelo PMDB. “Fui o mais votado de Caxias, tenho muito orgulho disso,” diz Commazzetto. “Sempre gostei da política. Desde a época em que escrevia para O Vanguarda.” 


Commazzetto foi vereador por seis anos e passou por momentos em que teve dúvidas se seguia com a carreira política ou se ficava apenas com a psiquiatria. “Foi uma luta muito grande.” 

Sua vida política não se limitou à atuação como vereador. Commazzetto concorreu a vice-prefeito de Caxias com José Ivo Sartori e depois a deputado estadual. Não se elegeu, mas assumiu a Delegacia Regional da Saúde. “Foi na época em que o SUS recém havia sido criado. Foram anos muito difíceis,” lembra.

Como delegado regional da saúde, ele diz ter reunido esforços para a criação de um hospital público em Caxias, na década de 80. “Depois de várias reuniões relatando as dificuldades com o governador Pedro Simon, ele me autorizou a procurar o terreno para construirmos o Hospital Geral,” conta. O hospital foi concluído na sua segunda gestão como delegado da saúde. 

Commazzetto deixou de exercer a vida política, e até hoje segue dedicando a maior parte de seu tempo à psiquiatria, área que lhe encanta cada vez mais. Evoluções como o aperfeiçoamento das medicações, segundo ele, ajudaram a mudar o quadro da psiquiatria. As internações diminuíram muito e a psicanálise e os conceitos Freudianos auxiliaram o entendimento do doente mental. “Nos últimos anos ocorreu uma grande virada no conhecimento nessa área. Foi só há poucos anos que a ciência começou a se debruçar no estudo do cérebro humano. Isso revolucionou a abordagem da psiquiatria.”

O maior desafio em ser médico hoje em dia, segundo Commazzetto, é conciliar os avanços da tecnologia com a boa relação entre o profissional e o paciente. “Essa relação médico-paciente é uma aliança de confiança para uma caminhada quase sempre difícil, em busca dos melhores resultados para o paciente. Mas, hoje, parece-me que esse lado humano, da relação médico-paciente, está perdendo espaço, para a tecnologia e a profissão está tornando-se técnica - o que, a meu ver, é um grande equívoco,” opina Commazzeto. 

O médico ainda tem uma rotina muito agitada, e a aposentadoria ainda não está nos seus planos. “Minha característica é fazer alguma coisa, sempre, então, por enquanto, não sinto a necessidade de mudança. Estou apenas planejando diminuir a carga horária, para poder ter mais tempo para lazer e viagens, mas parar de trabalhar nem pensar.”

Commazzetto e a mulher, Luiza, tiveram três filhos: Carolina, que hoje é farmacêutica e dona de uma farmácia de manipulação, Isabel, que é advogada e Gustavo, que, assim como o pai, é psiquiatra. Eles têm três netos: Maria Luiza, Valentina e Bento.

Além de curtir a família, Commazzetto também se dedica às relações de amizade, como às que mantém com o grupo de apreciação de vinhos que abriu essa matéria. “Todas as pessoas de coração aberto, de alma boa, são agentes de amizade. Quando se gosta de uma pessoa, essas trocas de energias positivas nos fazem muito bem.”

 


 

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