Revista Acontece Sul

Lado B - Nestor Giusto

em Lado B - sexta, 10 de abril de 2015


Um dos médicos mais tradicionais de Caxias, é também um debatedor nato e estudioso da consciência humana

Conversar com o médico cardiologista e clínico geral Nestor Giusto é conhecer um pouco mais sobre a história da medicina em Caxias do Sul e também uma oportunidade para saber mais das artes e das ciências, principalmente a relação entre elas. Além de ser um dos profissionais mais respeitados na área médica da cidade, Giusto é um debatedor nato, uma referência e uma inspiração a quem deseja entender como a medicina antiga evoluiu nas hipóteses e nas práticas e como a cultura e a consciência têm influência na questão da dignidade humana.

Aos 77 anos, Giusto ainda atende em um consultório na Rua Moreira César, entre as ruas Bento Gonçalves e Pinheiro Machado. Sua mesa fica em um ambiente sem luxo ou ostentação, cercada de fotografias da família, principalmente dele com a mulher, Marilene Storchi Giusto, as filhas Bibiana e Sabrina e os netos Milena e Davi. É ali, também, que entre uma consulta e outra, repensa a sua vida e sua contribuição para a vida dos outros. A filosofia, quase sempre, é sua companheira nessas horas. “Por mais que eu não queira pensar nisso, entendo que o principal da minha vida já passou. As coisas importantes aconteceram, como a constituição da minha família e da minha carreira. E me considero uma pessoa de sorte, minha saúde está em dia, ainda pratico tênis e gosto muito de ler, ouvir música e assistir a filmes”, comenta, esbanjando vitalidade e lucidez.

O intuito de reviver momentos importantes da carreira médica resultou em um livro praticamente pronto para ser publicado. Tem até nome: “Uma história de vida médica”. Receoso, Giusto não pensa em publicá-lo, diz que transcreveu suas histórias apenas para consumo pessoal e familiar. No entanto, faz questão de contar algumas passagens importantes desde que começou a clinicar na cidade, em 1966, no mesmo consultório do doutor Joseph Falavigna, depois de retornar de uma residência médica de quatro anos em São Paulo. 

Giusto iniciou a vida escolar no então Grupo Escolar Emílio Meyer, em 1945. Em 1952 formou-se no “Ginásio” da Escola Normal Duque de Caxias, para um ano mais tarde ingressar no curso científico do Colégio Nossa Senhora do Carmo. “Nesse colégio conheci uma pessoa decisiva para a minha formação, o irmão Constâncio Joaquim, lassalista de origem espanhola, talvez o melhor professor que já tive”, recorda.

Durante o curso de medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), onde se formou em 1961, Giusto serviu ao Exército e, por ser acadêmico daquele curso, foi diplomado 2º Tenente Médico da Reserva – diploma esse assinado pelo então Ministro de Guerra Artur da Costa e Silva. Sua relação com nomes importantes daquele conturbado período histórico do Brasil da Legalidade não para por aí. Aos 18 anos, recém-incorporado ao Serviço Militar, Giusto e outros oito colegas acadêmicos de medicina, foram considerados uma “classe de militares voluntários”, sem direito a soldo e tendo de pagar a própria farda. Foram reclamar ao comandante, que era nada menos do que o coronel Emílio Garrastazu Médici. “Lembro-me de ter dito a ele: coronel, estamos pagando para servir a Pátria, e ele me corrigiu, disse que não era aquele o sentido exato da minha reclamação. Mas resolveu o nosso problema”, lembra Giusto, reconhecendo que aquele fora um período conturbado. “Eu vivi a Legalidade. Em 1961, era interno do Pronto Socorro de Porto Alegre. Fomos proibidos de sair da cidade, havia ameaça de bombardeio e invasão. Sem querer, acabei me tornando um ex-combatente. Em 1964, como interno do Hospital das Clínicas, em São Paulo, comecei a reparar melhor no comportamento humano: vi colegas sendo presos apenas porque tinham o livro “O Capital”, do Marx; vi professores subalternos a outros professores delatando seus colegas como comunistas, para poder pegar o lugar deles”, lamenta Giusto.

O comportamento humano, aliás, é algo que fascina esse médico apaixonado pela sua profissão. No registro de suas memórias há inúmeros casos médicos, sejam em Porto Alegre, São Paulo, Caxias e nos Campos de Cima da Serra, “alguns difíceis, outros bizarros, alguns que me tocaram muito”, resume Giusto. Entre eles estão os de colegas de profissão que já faleceram, e que Giusto teve a oportunidade de trata-los durante a sua enfermidade e de comparar, às vezes com tristeza e resignação, como cada um deles recebeu a notícia de um diagnóstico nada animador. “A medicina é hoje completamente diferente da que aprendemos na universidade, evoluímos muito desde então. Depois da descoberta do genoma humano, das novas técnicas médicas, da ressonância magnética, tudo tornou-se mais claro, inclusive para neurociência, que está muito evidente, tanto é que os conceitos da psiquiatria estão mudando. A neurociência está começando a explicar muita coisa que fora intuída por Sigmund Freud (1856/1939). A genialidade dele está aí!”.

É fácil enxergar em Giusto a figura de um cientista que deseja entender o universo, a origem da vida, o ser humano. Ele tem, na cultura e nas artes, fortes aliadas para sanar essas curiosidades. Frequentador assíduo de debates culturais, chegou a organizar por certo período encontros com universitários para discutir medicina, psicologia, filosofia e cultura. “Gosto de pensar o mundo, mas não no ponto de vista moral. Sinto falta de debater”, ressalta o leitor voraz não apenas de jornais e revistas técnicas como Scientific American e Mente e Cérebro, mas também de Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa. Atualmente, está debruçado sobre “Em Busca do Tempo Perdido”, de Proust. “Minha única frustração é não ter sido músico. Costumava estudar ouvindo música clássica, e sempre apreciei ópera”, observa. O pensamento de Giusto também foi influenciado pelo psicanalista, filósofo e sociólogo alemão Erich Fromm, autor de obras como “A Arte de Amar” e “Meu Encontro com Marx e Freud”, e pelo cinema do italiano Frederico Fellini. 

Giusto também adora esportes. Recorda da primeira bola de borracha que ganhou quando menino. Jogou futebol até por volta dos 50 anos de idade – foi, inclusive, convidado pelo ex-técnico João José Baptista Grossi, O Pastelão, a jogar no time do Esporte Clube Juventude, do qual é torcedor. Depois, passou a praticar tênis, geralmente no Recreio da Juventude, clube do qual foi presidente do Conselho Deliberativo entre 1995 e 1996.

Questionado sobre como um cardiologista cuida do próprio coração, Giusto receita: “é preciso ocupar a mente, fazer exercícios e aproveitar as coisas boas que a vida nos oferece”. Apreciador de vinho e de gastronomia, confessa que sua única angústia é na hora de dormir. “Às veze tenho medo de dormir, sinto ansiedade”, revela o médico que tanto já fez e ainda faz por seus pacientes. Giusto é agnóstico, mas na hora de falar em Deus, tem o seu parecer. “Deus não é bom, é a bondade; não é justo, é a justiça; é atemporal, não tem passado nem futuro, é o agora”.

Quanto a publicar ou não suas memórias médicas, citadas anteriormente, Giusto desconversa. “Às vezes sou convidado e escrevo para uma revista médica, mas não penso em livro. Talvez um dia...”. A este repórter, que não foi privado de ler seus escritos, cabe a liberdade de dizer: não faltam emoções nos casos, vivências e memórias de Nestor Giusto.   

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