Revista Acontece Sul

LADO B - ALCEU BARBOSA VELHO

em Lado B - sexta, 08 de maio de 2015


Alceu Barbosa Velho

Alceu orgulha-se de suas origens tanto quanto se orgulha de ocupar a cadeira de prefeito de Caxias do Sul

 

Tenho de cima da serra, sou serrano, sim senhor; Sou um tigre peleador, guardião dessa fronteira; Sou abridor da porteira, pra aqueles que vêm em paz; Sou posteiro e capataz, da invernada brasileira”. Fosse definir Alceu Barbosa Velho com uma música, seria a dos versos acima, do grupo Os Serranos. A canção Sou serrano, sim senhor é uma espécie de retrato do estilo de vida de Alceu, nascido em 13 de agosto de 1957, quando São José dos Ausentes ainda era 3º distrito de Bom Jesus. “Criado no lombo do cavalo”, o filho de Felicíssimo Rodrigues Barbosa e Eunira Barbosa Velho deixou o campo na adolescência, em busca de uma vida mais promissora na cidade. Mas isso depois de muito madrugar e, sobre a geada, recolher as vacas para ordenhar. Do leite se fazia queijo, uma das fontes de renda da família de vida modesta. Incentivado pelos pais, enveredou para os lados de Bom Jesus, onde descobriu a vocação para a advocacia, e de lá, para Caxias, onde alcançou o cargo máximo da política municipal, o de prefeito da cidade.

Articulado, idealista, “brizolista” e corajoso em suas posições, Alceu sabia onde queria chegar, ainda quando da sua primeira eleição para vereador, em 1996. “Na vida política, ninguém se elege vereador para depois ser síndico. Todos querem ir adiante”, comenta. Alceu foi. Batalhou muito, enfrentou grandes desafios na vida política e tem consciência de que muitos ainda virão.

 

 A entrevista a seguir foi concedida com exclusividade à revista Acontece no gabinete de Alceu. Cuia em mãos, o prefeito falou da vida pessoal, da infância e da sua relação com a política. O pai da futura advogada Marina Demoliner Barbosa, 22 anos, e do futuro agrônomo Eduardo Demoliner Barbosa, 18 anos, está convicto de que deixará um bom legado a Caxias e não descarta a possibilidade de concorrer à reeleição. Hoje casado com Alexandra Della Giustina Baldisserotto, Alceu é devoto de Nossa Senhora de Caravaggio, diante da qual agradece suas conquistas e busca forças para lidar com os desafios impostos pelo cargo que ocupa.

 

“Quando meu pai casou-se com a minha mãe, em São José dos Ausentes, ele já havia viuvado duas vezes. Com a primeira mulher teve nove filhos, e com a segunda, cinco. Com a minha mãe, teve mais nove. Quando casaram, ele tinha quarenta e tantos anos, e minha mãe, dezessete. Fui criado numa família de vinte e tantos irmãos. Quando eu era criança, as duas famílias anteriores já tinham saído de casa, muitos irmãos já haviam casado. Meu pai era um pequeno pecuarista. Era vida de campo, do interior, vida modesta. Minha mãe era dona de casa, cuidava de todos os filhos, inclusive alguns dos casamentos anteriores de meu pai. Era uma heroína, muito valorosa... A vida de um guri naquela época,  em Ausentes, era levantar às cinco da manhã, tirar leite para fazer queijo, que era fonte de renda também. Eu recolhia as vacas para levar ao galpão. Depois, pegava a gamela, lavava os pés e ia pra aula. Nas horas de folga, jogava bola, brincava de perna-de-pau no barro e andava muito de carrinhos-de-lomba.

 

Morei com meus pais até os 16 anos. Depois fui a Bom Jesus estudar. O “ginásio” em Bom Jesus foi fundado pelo padro Lino José Weber, e tive a honra de me formar na primeira turma. Para mim foi um momento histórico, o padre Lino teve muito valor na minha vida. Se ele não tivesse levado o “ginásio” para Bom Jesus, sabe-se lá qual seria meu futuro. Eu poderia estar ainda lá em Bom Jesus, trabalhando no campo. Em 1976 terminei o “colegial”. Naquela época, meu pai tinha muita influência política, era muito respeitado em Ausentes, e era procurado pelos caciques políticos pra fazer campanha, fosse para partido A ou B. Frente a isso, minha mãe conheceu um vereador chamado Alceu Frasseto, que era advogado. Eu já estava em Bom Jesus há quase um ano, e trabalhava em um bar, das 14h às 24h, o bar Cascata. Minha mãe não gostava que eu trabalhasse no bar, então fez contato com o Frasseto e ele me arrumou emprego no escritório dele. Eu tinha 17 anos, e foi trabalhando neste escritório que me decidi pela advocacia. Aprendi a datilografar, e passei a ser convocado pelos cartórios para fazer escrituras, formais de partilha, inventários. Era uma trabalheira, mas foi assim que adquiri conhecimento. Ia assistir aos júris e me encantava. 

 

Quando vim a Caxias, trabalhava numa confeitaria, da meia-noite às seis da manhã. Ajudava a fazer pão, bolo e massa folhada, e depois saía para vender nas lancherias. Naquela época, mais uma vez minha mãe interferiu por mim. Ela lembrou que o filho de um padrinho meu trabalhava no Banrisul, e falou com um monte de gente procurando emprego no Banrisul. Aí recebi telefonema me informando de um concurso para o banco. Lembro que me perguntaram: “sabe bater máquina?”. E eu sabia! Fiz os exames e passei. Em julho de 1977 comecei a trabalhar no Banrisul, mas continuava na padaria. Foi assim durante um bom tempo, com os dois empregos. Depois fui promovido no banco e larguei a confeitaria. Também em 1977, entrei para a faculdade de Direito. 

 

Já advogado, fui presidente da subseção da OAB em Caxias, e foi nesse momento que a política entrou na minha vida. Eu visitava muitas entidades, presídios, participava de muitos eventos na vida da cidade, e comecei a perceber que se estando na OAB eu já participava bastante, se fosse um vereador poderia participar muito mais, ajudar a comunidade. Nunca neguei que eu era Brizolista. Então fui convidado pelo pessoal do PDT a me filiar. Já na primeira eleição me elegi vereador. Qualquer vereador que se elege pensa em ser prefeito. Ninguém se elege vereador pensando em depois ser síndico. Em 2000, por dois momentos eu pensei que eu tinha tudo para ser candidato a vice-prefeito, na chapa do Pepe Vargas. Mas aí deu tudo errado, o PT quis chapa própria, e não me restava outra coisa a não ser vereador novamente, para não sair da política. E comecei a preparar minha vida para tentar com o PMDB.

 

Vou contar pela primeira vez isso para imprensa: no terceiro ano do primeiro mandato do governo Sartori, vi que as coisas estavam paradas, em stand by, e aqui nesta sala eu disse ao Sartori: “se tu me autorizar, vou fazer um movimento entre os partidos pra ver o que estão pensando. E eu penso que tu tem de ir para a reeleição”. Ele não disse nada, mas eu percebi que ele me autorizou. Reuni todos os partidos no meu gabinete de vice-prefeito e disse que defendia a reeleição do Sartori, e queria saber o que achavam da proposta. Aí foi unânime, mas com a condição de que eu deveria ser o vice novamente. Eu já havia dito que não queria. Diante daquele apelo, que achei uma coisa tão bacana, pensei. “Quer saber de uma coisa? Então vamos”. E fizemos. O segundo mandato do Sartori nasceu dali. Em 2010, entendi que tinha de dar um passo a frente. Aí me elegi bem a deputado estadual, graças à ajuda de muita gente, fiz mais de 40 mil votos. Depois disso veio a indicação natural à prefeitura. Sartori foi muito leal comigo, depois de eu tê-lo apoiado em duas eleições.

 

O que tem de mover um político é o interesse público. Nesse nosso tempo de governo, tivemos deslizes, mas nunca coisas que saíssem do foco do interesse público. Tendo essa noção, pode-se errar, mas é um erro que não é ilegal, que não é injusto, não é bandalheira. A educação é a minha bandeira, meu sonho. O pior é que se fica frustrado porque não se pode fazer tudo o que se pensa. Tudo no poder público custa muito, então essa é a gestão do dia a dia. Corta aqui, corta ali, aumenta lá, tira de cá, e é assim que se faz. Mas quero dizer que estou sendo muito feliz, porque as realizações são enormes. Assim que assumimos o governo, em 1º de janeiro de 2013, reunimos todos e colocamos metas. Eu disse: “vamos ter que dar um pau danado em 2013, porque se nós não aprumarmos o governo em 2013, em 2014, quando vierem eleições presidenciais e Copa do Mundo, não conseguimos mais nada. E foi isso. Hoje não tem um canto da cidade que não tenha obras da prefeitura, é todo momento assinatura de início de obras. Agimos rápido. Tanto é que hoje eu só preciso de uma liberação da União para completar todo o projeto de governo que fizemos em 2013. É a liberação de um financiamento de 50 milhões de dólares para asfaltar 70 quilômetros de estradas do interior, fazer o viaduto da rótula Randon, o viaduto da saída da Perimetral Norte, ligando à BR-116, e a rotatória com passarela na entrada do bairro Planalto. Estamos conseguindo isso tudo graças à parceria com governo federal, e só conseguimos porque tivemos projetos para apresentar. 

 

Na educação, meu legado será a implantação definitiva da escola de tempo integral. Fica um desenho muito bom para quando os próximos prefeitos tiverem condições financeiras, porque a escola integral é muito cara. A mobilidade urbana também, certamente vai mudar a cara da cidade, assim como o asfaltamento do interior, que iniciou no governo Sartori e deu muito certo, fazendo com que as comunidades se fixassem no interior. A questão da assistência à mulher, aos idosos, a limpeza da cidade... Deixaremos um grande parque para a cidade, porque vamos unir toda a área do Jardim Botânico com as represas do Complexo Dal Bó.

 

A respeito de concorrer ou não, penso o seguinte: por princípio, sou contra a reeleição. Acho que o instituto da reeleição não deveria existir. Defendo um mandato de cinco ou seis anos, e que isso seja válido para todos, não tem porque um senador ter mandato de oito anos, isso não existe. Então aí fico aberto ao diálogo. Do jeito que está a nossa administração, essa obras todas que estamos iniciando agora, muitas nós vamos concluir, mas se tivéssemos mais dois anos, concluiria todas. Mas para concorrer de novo, se eu não preciso dizer que sim, também não vou dizer que não.

 

Nasci e me criei no lombo do cavalo. Depois que vim para Caxias, passei a ter uma vida totalmente urbana. Fiquei praticamente 20 anos longe do cavalo. Em 1996, na primeira eleição pra governador, fui num torneio de laço e me pediram para fazer uma armada de abertura. Pedi um cavalo emprestado, fui lá e lacei. Percebi que ainda sabia. E aí comecei a cavalgar novamente. Hoje tenho cinco cavalos crioulos. Gosto muito do tradicionalismo, laço com meu filho desde que ele tinha seis anos de idade. O tradicionalismo é um referencial de família, meu maior hobby.

 

                                                

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