Revista Acontece Sul

LADO B - JOÃO CARLOS MENEGHINI

em Lado B - quarta, 05 de agosto de 2015


Mãe, esposa, três filhas e duas netas são os bens mais valiosos da vida do médico dermatologista

João Carlos Meneghini 

 

 

João Carlos Meneghini é um daqueles homens que faz qualquer mulher sorrir – e que faz com que elas acreditem que ainda existem cavalheiros nesse mundo. O médico dermatologista, hoje com 72 anos, demonstra ser gentil, educado e preocupado. Aos finais de seus emails, ele anexa a foto de uma rosa. Ao final da entrevista, ele me ajudou a vestir o casaco (e perguntou se poderia fechar a porta do consultório, enquanto eu aguardava pelo elevador no quinto andar do Edifício Estrela). 

Meneghini também desculpou-se mais de uma vez pelo atraso de 10 minutos para conceder essa entrevista, explicando que atrasos não fazem parte do seu dia a dia. “Dei aula na universidade por 36 anos e nunca cheguei atrasado, em respeito aos meus alunos,” diz ele. 

Além da pontualidade, o perfeccionismo também parece ser uma de suas características. “Eu me encontrei na especialidade da dermatologia justamente porque sou muito perfeccionista,” explica ele. “Tudo nela está voltado para os detalhes, a partir deles que se faz o diagnóstico clínico. Se não fores detalhista e perfeccionista, podes não conseguir traduzir em diagnóstico o que uma manifestação da pele está comunicando.”

O consultório também comprova sua preocupação com o perfeccionismo: a sala decorada em tons claros tem uma mesa de vidro com duas rosas vermelhas e duas brancas – além de dois porta-retratos idênticos exibindo as fotos das netas gêmeas, Lívia e Laura. “Mas o senhor é virginiano?”, pergunto, acostumada ao perfeccionismo presente na personalidade de três bons amigos desse signo. “Não, sou de Sagitário, de 21 de dezembro,” diz, completando que a esposa, Miriam, é de 20 de dezembro, o que leva o casal a comemorar o aniversário junto todos os anos. 

Meneghini e Miriam vivem no Centro, bairro onde Meneghini nasceu e passou a infância. Filho de Adelina Segalla, hoje com 94 anos, e Nelson Antonio Meneghini, já falecido, Meneghini é o primogênito: depois dele vieram os irmãos Breno e Luiz Augusto. 

Na época da infância, lembra ele, a tranquilidade da cidade permitia que as crianças brincassem na rua, fazendo dessas as melhores lembranças desse período. O jovem cursou o Primário e Ginásio na Escola Normal Duque de Caxias e o Científico no Colégio do Carmo. 

Ele tinha um bom grupo de amigos que morava nas proximidades, e, com a chegada da adolescência, as brincadeiras na rua foram trocadas pelas emocionantes reuniões dançantes. Foi em uma delas, durante o aniversário de 15 anos de uma amiga, que o futuro médico conheceu Miriam. “Nos apaixonados,” conta Meneghini. “A Miriam sempre teve coerência nas atitudes e sempre foi muito decidida. Isto e mais a beleza que ela irradiava foram motivos do ‘engate’”. 

Nos início dos anos 60, no entanto, a paixão dos dois teve que lidar com um desafio: a distância. Meneghini mudou-se para Porto Alegre para cursar Medicina na Faculdade Federal do RS, e lá morou durante oito anos. Por mais que esse tenha sido um período de muita saudade, esse tempo é lembrado com muito carinho por Miriam. “A gente namorava e ninguém tinha carro na época. Ele vinha de Porto Alegre quando dava, de ônibus, e nesse meio tempo nos mandávamos cartas perfumadas. E era aquela espera pela carta todas as semanas. Foram anos de namoro assim,” lembra Miriam. 

Enquanto mantinha o namoro firme e forte através das cartas perfumadas, Meneghini dedicou-se extremamente a aprender o exercício da Medicina. Durante esses anos, ele morou em uma pensão com alguns colegas “Naquele período, Porto Alegre era romântica, uma cidade bem diferente do que é hoje. Adorei ter estudado lá. Cresci muito com tudo,” diz o médico. 

Meneghini formou-se em 1968 – lembra-se até o dia: 7 de dezembro. Após o período de residência, retornou a Caxias, onde casou-se com Miriam, em 1970. O casal teve três filhas: Andrea, que também é dermatologista e hoje trabalha na sala ao lado do consultório do pai; e as gêmeas Flávia, psicopedagoga, e Fernanda, enfermeira. Andrea é a mãe das gêmeas Lívia e Laura, oito anos, cujas fotos estão no consultório do avô. 

Entre os momentos mais memoráveis da carreira de Meneghini está o trabalho que ele desenvolveu logo ao voltar a Caxias, nos final dos anos 60. O médico foi responsável pelo serviço de prevenção do Mal de Hansen (lepra), na Delegacia de Saúde da cidade. Ele não apenas iniciou o serviço, como dedicou-se a isso por 35 anos. Meneghini também foi plantonista no Inamps (hoje INSS), onde chegou a assumir o cargo de chefia. 

Mas o marco mais significativo nas quase 50 décadas de Medicina é o período em que lecionou. Meneghini foi professor da UFRGS por um ano, e da UCS, por 36. “Lecionei desde a primeira turma de Medicina da UCS. Eu gostava muito,” diz, com ênfase no “muito”. “Eu me realizava demais. Dar aula te mantém atualizado, e eu estudava muito,” diz o médico. 

Hoje Meneghini é professor aposentado, mas diz ainda ser um apaixonado pela profissão. “Como professor, sempre tentei levar, ao lado dos ensinamentos, o respeito e a dedicação. Sempre considerei a dermatologia uma ciência de raciocínio, como toda medicina,” diz. 

Além de lecionar, Meneghini também considera o trabalho na clínica “fascinante”. O médico ainda recebe pacientes no consultório que mantém no Edifício Estrela desde a fundação do prédio, há 45 anos. “Eu pretendo trabalhar até quando for possível. Ainda estudo bastante, discuto problemas médicos com a minha filha dermatologista,” diz. 

Ele e a filha Andrea sempre saem do consultório por volta das 17h para buscar as meninas no colégio. “Ele é um pai e avô super preocupado,” conta Miriam. “As netas brincam que ele é o último homem educado, porque ele sempre faz questão de pegar pela mão.”

Meneghini também não poupa elogios às filhas e netas. “Sempre fui muito gratificado com as filhas que eu tenho. A educação de cultura italiana que demos, com rédeas curtas, trouxe bons resultados.” 

O consultório que hoje divide com Andrea não é mais a sua segunda casa, como foi por muitas décadas. O médico hoje atende apenas três vezes por semana. As quintas e sextas são reservadas para ele.

Entre os seus lazeres está a leitura, música (“Frank Sinatra, boleros e valsas, não é a música que vocês, jovens, gostam”) e seus cachorros (animais que o médico sempre fez questão de ter). 

Um lazer mais recente são os livros de colorir. “O senhor pinta para relaxar?”, pergunto, ao imaginar que esse seja o único propósito do hobbie. “Não relaxo,” diz ele. “Porque a pintura tem que estar sempre perfeita.”

Fica difícil imaginar momentos em que é possível concentrar-se para atingir a pintura perfeita, imagino. Afinal, Meneghini convive com nada menos do que sete mulheres: a mãe, a esposa, as três filhas e as duas netas. “Elas não te enlouquecem?” pergunto ao pensar em meu pai, que, com três mulheres na casa (e uma cachorrinha) já tem pouco sossego. “Não, me enlouquecem. Elas me protegem.”

Mas reza a lenda que um homem rodeado por sete mulheres vira lobisomem, conta ele. “Então de vez em quando eu me olho no espelho à procura de pelos na cara e orelhas pontudas”, brinca. 

Superstições e brincadeiras à parte, o médico diz que é muito tradicional. Orgulha-se dos 45 anos de casamento e tem uma filosofia de vida muito simples – e significativa: “A família é tudo.”

 

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