Revista Acontece Sul

Lado B - Tranquilo Carniel

em Lado B - quinta, 08 de outubro de 2015


O proprietário de um dos mais tradicionais restaurantes de Caxias diz que atender bem aos seus clientes é uma vocação

 

Era o final de uma tarde de agosto. As grades do restaurante estavam baixadas, mal percebia-se o movimento dos poucos funcionários que preparavam o ambiente para mais uma noite de movimento intenso. Em vez de bater à porta, resolvi telefonar. 

- Seu Tranqüilo, vim lhe entrevistar para a revista Acontece, conforme o combinado. Estou aqui na calçada. Onde o senhor está?

- Estou aqui dentro, já abro a porta.

Em segundos aparece seu Tranqüilo, sem conseguir esconder as impressões típicas de quem recém acordou. “Eu estava tirando um cochilo”, trata de justificar, imediatamente. Ele confessa que costuma descansar ali mesmo, entre duas mesas, sobre duas cadeiras unidas fazendo as vezes de cama, junto à parede que dá para a Avenida Itália. “Passo muito mais horas do dia aqui do que na minha casa, por isso improviso uns cantinhos para descansar”, diz, já disposto para iniciar o bate-papo que originou o texto a seguir.

Tranqüilo Carniel comanda desde março de 1985 um dos restaurantes mais tradicionais de Caxias do Sul, o Danúbio, especializado em baurus e filés e ponto de encontro de muitas gerações da cidade. O estabelecimento foi comprado da família Fochesato por um dos quatro irmãos de Tranqüilo, Mário, e já tinha antes 30 anos de tradição na “antiga Caxias”. Mário deixou o negócio com Tranqüilo, que encarregou-se de renovar a tradição do bar e restaurante localizado na esquina da Avenida Itália com a Rua La Salle, um ponto de referência no bairro São Pelegrino. “Minha vida é isso aqui. Sou o primeiro a chegar e o último a sair”, comenta o empresário, que no próximo dia 8 de novembro completa 62 anos.

Natural de Garibaldi, Tranqüilo passou a infância com certa dificuldade na colônia. Ele e os irmãos faziam alguns “biscates” para complementar o orçamento da família, como empalhar garrafões de vinho na cantina onde o pai, Napoleão Carniel, era funcionário. A mãe, Edi, fazia faxinas esporádicas. Os estudos foram complementados em Caxias, onde Tranqüilo chegou aos 16 anos para o seu primeiro emprego oficial: balconista, copeiro e assistente do Restaurante Baurú, à época localizado na Rua Luiz Michelon. Por ali passavam diariamente dezenas de ônibus que iam a São Paulo e Rio de Janeiro, e o restaurante era parada obrigatória para lanches, almoços e jantares. “Chegava uma média de 20 ônibus por dia. Eu, com 16 anos, cheguei da pacata Garibaldi para trabalhar no meio desse fervo. Foi quando comecei a aprender e a perceber minha vocação para restaurante”, recorda o empresário, que ainda encontrava tempo para, à noite, cursar o “científico” no Cristóvão de Mendoza. Foi no Restaurante Baurú que o jovem Tranqüilo foi convidado pela família Zatti, assídua frequentadora do local, a trabalhar na MadeZatti como vendedor, função que exerceu por oito anos, até que o irmão Mário lhe ofereceu o Danúbio. A partir daquele dia, tudo mudou, e Tranqüilo, de fato, assumiu sua vocação. “Foi um grande desafio. Quando assumi o Danúbio, nem sabia da sua existência, não costumava frequentá-lo”.

Nos primeiros meses e anos como administrador, Tranqüilo enfrentou uma série de planos econômicos que lhe exigiram muita cautela para driblar crises. “Às vezes faltava mercadoria, eram poucos os fornecedores de qualidade, havia muita cobrança de ágio. Mas sempre consegui dar a volta, e hoje estamos aí...”.

Um de seus maiores orgulhos como empresário do ramo gastronômico é ter enfrentado (e enfrentar ainda hoje) a concorrência e as crises econômicas oferecendo ao seu público um produto de qualidade. “Quando assumi o Danúbio havia outros restaurantes muito bons em Caxias, inclusive tendo o baurú como prato principal. A clientela se dividia muito. Então, busquei nos produtos diferenciados e no atendimento personalizado minhas maiores vantagens”, destaca. De lá pra cá, o Danúbio renovou seu cardápio, reformou sua estrutura (sem descaracterizar seu visual) e conquistou gerações de caxienses. “Crianças que eu acomodava no cadeirote hoje vêm aqui com seus netos....Tenho um carinho muito grande pelos meus clientes. Muitos deles não precisam nem fazer o pedido quando chegam. Eu já sei o que vão comer e beber. Também prezo muito a minha equipe, é minha outra família. Costumo dizer a meus funcionários que o trabalho deles é atender bem, o resto é o resto”. 

A consolidação da marca Danúbio exigiu de Tranqüilo muito sacrifício, como ele faz questão de dizer. “É preciso gostar muito do que se faz para trabalhar tanto assim. Depois de 20 anos como proprietário do restaurante é que fui me dar conta de que eu precisava tirar umas férias”, brinca. Aos poucos, Tranqüilo foi dividindo a administração com a esposa, Maria Teresa Belo da Silva e com uma de suas duas filhas, Nathália. Abriu para elas o restaurante Tranqüilo, a poucos metros do Danúbio, com perfil de funcionamento diferenciado, mas com o mesmo padrão de qualidade. “É que durante muitos anos o Danúbio ficou com a fama de ser um local frequentado apenas por homens. Então decidi abrir uma concorrência para ampliar a clientela”, diverte-se.

O domingo, único dia da semana em que o restaurante não está aberto, é sagrado para seu Tranqüilo. É quando ele tira o tempo para passar com a família, que se completa ainda com a filha mais velha, Fernanda. Em casa, seu Tranqüilo gosta de ler, ver TV e de cozinhar. O prato preferido? Baurú, de preferência acompanhado do pão feito pela sua mãe, que aos 84 anos ainda mora em Garibaldi. Quando a folga é um pouco maior, curte uma boa pescaria com a família e os amigos.

Mas é no Danúbio onde seu Tranqüilo está na maior parte do tempo, trabalhando, tomando um chimarrão, aconselhando funcionários e até mesmo clientes. Tornou-se uma figura ímpar no ramo gastronômico de Caxias do Sul. Recuperado recentemente de um problema de saúde, deseja diminuir um pouco o ritmo de trabalho, mas é coisa difícil. “Atender e estar junto do meu cliente é o que impulsiona a minha vida.”

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