Revista Acontece Sul

Victor Hugo Porto

em Lado B - segunda, 07 de dezembro de 2015

Victor Hugo Porto - O artista que quer entender as mulheres e as homenageia pintando-as gordas

os 12 anos, Victor Hugo Porto desenhava mulheres nuas para um gibizinho pornográfico ironicamente chamado de Catecismo. Com os trocados que ganhava vendendo os gibis para os amigos, o menino ia ao cinema. “E minha mãe sempre perguntava: ‘mas por que desenhar tanta mulher pelada?’, e eu respondia ‘um dia, essas mulheres peladas ainda me darão uma boa grana’.” 

Décadas depois, os desenhos das mulheres peladas não apenas deram uma boa grana para Victor Hugo, como fizeram dele um dos mais bem sucedidos artistas caxienses. 

Conhecido por pintar gordinhas em suas telas, Victor Hugo, hoje com 61 anos (completados exatamente uma semana depois desta entrevista), explica que, pessoalmente, não são apenas as gordinhas que lhe atraem. “Me perguntam se eu gosto de gordinha. Olha, eu gosto de gordinha, eu gosto de magrinha... Mas desenho as gordinhas porque eu gosto das curvas. E acredito que elas representam a força que a mulher tem. Na pintura, a magra parece muito frágil.” 

Houve uma época em que ele chegou a pintar mulheres magras. Nesse período, ele diz que “não estava muito legal”, já que passava por problemas no primeiro casamento. Essa não foi a única vez que seu estado emocional influenciou a produção de suas obras: “Uma coisa sempre puxa a outra. Eu tenho que estar bem para pintar. Fiquei desenhando as magras por um tempo, depois elas foram se modificando, assim como eu. E até hoje elas estão bem gordinhas, coloridas e alegres, como eu estou”.

Victor Hugo separou-se da primeira mulher e mudou também a forma de pintar. “Hoje eu estou no meu melhor momento, tanto pessoal quanto profissional.”

Mas a vida de artista nem sempre foi bem sucedida. Depois dos desenhos para os gibis pornográficos, aos 13 anos Victor Hugo conseguiu um trabalho como ajudante de vitrinista no Magazine Fedrizzi que pagava meio salário mínimo. “Na época, as vitrines eram elaboradas, se usava muita decoração e se fazia todo um cenário para enfeitar a mercadoria. Tinha que inventar, colar, fazer escultura,” conta o artista, explicando que o baixo salário era compensado pelo aprendizado. Depois do Fedrizzi, ele trabalhou na loja da Eberle, também como vitrinista. 

Ao sair de lá, nos anos 70, o artista decidiu tornar-se dono do próprio negócio e montou a Victor Hugo Painéis. A empresa, que chegou a ter cerca de 10 funcionários, fazia publicidade e trabalhos visuais. Era arte. Mas não apenas. “Daí eu larguei tudo e decidi fazer só arte”, diz. “Corria o risco de me dar muito mal, mas fui.” 

Apesar de ter finalmente adquirido liberdade com seus horários, o primeiro ano trabalhando sozinho foi bem difícil financeiramente. “Eu cheguei a ter 200 quadros. Eu só pintava e não tinha ninguém para comprar.” 

Depois de um ano ouvindo muitos nãos, o artista enfim começou a vender. 

Na época, ele utilizava uma técnica de pochoir para naturezas mortas. Depois, evoluiu para outra técnica, com giz pastel, e começou a desenhar melancias. “Daí todo mundo queria. As melancias vendiam mais do que pão em padaria”, conta. “Até que um dia eu cansei de desenhá-las.”

Foi quando Victor Hugo começou a pintar as mulheres. “Eu sempre gostei de observar as mulheres. Nunca saio só para caminhar, saio para observar. Eu olho para uma mulher e vejo ela pintada no meu quadro.”

As telas expressionistas cubistas de Victor Hugo, que é fã de Van Gogh, Pablo Picasso e Toulouse-Lautrec, trazem mulheres com curvas bem marcadas e cores vibrantes. Os cabelos são quase sempre coloridos. “Porque a mulher tem a cabeça mais aberta, mais colorida. Ela enxerga tudo. Enquanto o homem só vê o que está na frente dele.” 

As mulheres dos quadros também têm outras características em comum: a boca que salta para fora do rosto e o olhar sempre para um lado, nunca para frente, encarando quem as observa. “A boca, porque a mulher sempre fala muito,” explica o artista, dizendo que ele não tem esse mesmo comportamento: “Eu sou um cara bem quieto, não falo muito. Sou bem normal, até. Para louco, falta muito.” O olhar ele chama de “à procura”, já que todos estamos sempre procurando algo a mais. Este “estar sempre à procura”, diz ele, é também uma de suas características. “Eu vou dormir e ainda estou pintando. O meu pensamento é uma eterna busca por soluções, por novidades. O que eu faço hoje não sei se farei amanhã. Estou sempre em evolução,” diz o pintor, agora novamente em fase de transição, pensando muito em novas técnicas, entre elas uma que usa linhas em preto e branco e imagens sobrepostas. 

Às vezes, esse pensamento hiperativo dá uma trégua. Quando precisa relaxar ou naqueles dias em que acorda sem inspiração, Victor recorre sempre a mesma terapia: dirigir. “Perguntam por que eu não faço ioga ou meditação. E eu respondo que eu dirijo”, conta. “Se estou meio down, pego a minha moto e saio sem rumo. Encho o tanque e, quando a gasolina acaba, encho o tanque para voltar. Essa é minha válvula de escape.”

Quando chove, em vez da moto Harley Davidson, Victor Hugo sai com a camionete Ford F1 1948. O segredo dos passeios desestressantes é a falta de pressa. “Vou devagar, olhando a paisagem. Algumas vezes, saio só por um dia. Cansei de descer a Rota do Sol, ir até a praia, comer um peixe e voltar.”

continua

Na maior parte do tempo, é a inspiração que vem ao artista no seu próprio atelier: um chalé em um bairro tranquilo de Caxias do Sul com vista para uma lagoa. Além dele, a única movimentação no lugar é do gato, Frajola, e do cachorro, Boris. 

O chão de madeira do atelier está cheio de pingos coloridos. Nas prateleiras, caixas plásticas com diferentes tipos de tinta e, espalhados pelas salas, dezenas de pincéis. Em meio às tintas posicionadas em frente ao quadro recém-finalizado, um potinho com amendoins. Jogados em um sofá, capacetes e uma jaqueta de couro Harley Davidson.

Victor Hugo tem um segundo atelier em Florianópolis, onde, algumas vezes, chega a passar um mês. “Lá em Floripa, eu me mando, é maravilhoso. Realmente tenho tempo para pintar. Sem computador, sem telefone, não conheço ninguém, não tenho um amigo. Durmo até a hora que eu quero, acordo e pinto. Daí volto com 20 quadros.”

Em Floripa, se quer andar de bicicleta, Victor Hugo sai com a tranquilidade de que ninguém estará esperando que ele volte cedo. A bicicleta, aliás, é outro dos seus lazeres. “Agora estou treinando para voltar a fazer longos percursos. Cheguei a ir até Torres de bici. Larguei esse hábito porque comprei a moto. Comecei a fazer motocross, mas me quebrei. Então voltei para a bicicleta.”

A liberdade, que consegue expressar plenamente quando está sozinho em Florianópolis, é um prazer que Victor Hugo cultiva desde criança. “Eu sempre gostei de fazer o que eu quero, principalmente de fazer o meu horário.” Ir para a escola, diz ele, “era a pior coisa que tinha”. Exceto pelas aulas de Artes, claro. 

Essa necessidade de não sentir-se preso é compreendida pela esposa, Naide, com quem é casado há 20 anos. Fora dos quadros, a vida de Victor Hugo também é cercada de mulheres, já que, além de Naide, ele também convive com a mãe, Lorena, que mora atrás do atelier e o chama para almoçar todos os dias, e com as “centenas de amigas.” 

As mulheres simplesmente o fascinam. “Elas são figuras enigmáticas, difíceis de entender. E no meu desenho, eu tento homenageá-las e entendê-las.”

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