Revista Acontece Sul

LADO B - NELSON SBABO

Por Valquíria Vita - TXT Produção de Conteúdo em Lado B - quinta, 11 de fevereiro de 2016

O empresário que iniciou 2016 ocupando a sala da presidência da CIC já está envolvido com as lutas da entidade há mais de quatro décadas

 

 

Em março deste ano, Nelson Sbabo vai completar 80 anos. Se nem ele mesmo se sente com 80, quem conversa com Sbabo chega a duvidar que o empresário já está completando oito décadas de vida.
Sbabo é daqueles que gostam de contar histórias com todos os detalhes – atribui essa facilidade de se expressar às aulas de locução que teve ao cursar Direito e aos anos em que foi vereador. Ao contá-las, ele lembra das datas específicas, dos nomes completos, das características dos lugares. Durante a entrevista, fazia uma espécie de linha do tempo, ano a ano, nas folhas de rascunho que tinha em sua mesa. Uma memória de causar inveja a gente com metade da sua idade. “Eu mesmo não me reconheço com 80 anos, não sei por que... Eu me lembro quando meu pai fez 65 anos e eu disse ‘bah, o meu pai está ficando velho...’. E hoje em dia, eu com 80...”
Sbabo iniciou 2016, ano difícil na economia e na política, pronto para enfrentar um dos maiores desafios da carreira: presidir a Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Caxias do Sul, a CIC. “Nunca na vida pensei em ser presidente. Até agora não estou convencido de estar sentado nessa cadeira”, confessa.
Ao assumir, Sbabo tornou-se o presidente mais velho da história da entidade. Mas não foi como se ele tivesse caído por acaso na cadeira giratória da sala da presidência. Sbabo soma uma trajetória de 42 anos na CIC – lembra até hoje do dia em que Raul Randon o convidou para ingressar na entidade como conselheiro, na época em que não existiam as tradicionais reuniões almoço, apenas as marmitas que cada empresário trazia de casa. Além de ter sido conselheiro e vice-presidente da CIC, Sbabo envolveu-se em lutas empresariais e participou ativamente na criação de empresas. O cargo de presidente, portanto, mesmo que ele diga não ter planejado, foi merecido.
Nascido em 16 de março de 1936, em Galópolis, Sbabo veio de uma família onde o trabalho sempre foi levado muito a sério. O avô veio de Vicenza, na Itália. Os pais dele, Caetano Sbabo e Maria Santina Boff, se conheceram em uma fábrica em Galópolis. A família morou em Galópolis até 1944, ano em que mudou-se para Gramado após o pai, carpinteiro, receber uma proposta de emprego. 
 No final daquela mesma década, Sbabo, já com idade para ingressar no Ginásio, veio a Caxias fazer admissão para o internato do Colégio do Carmo, onde morou durante dois anos. Sobre as lembranças dessa época, ele conta: “Olha... para quem sempre morou em casa, que tinha o café da manhã com cuidado, a polentinha quente, um risoto feito com carinho... Foi uma diferença muito grande”.
As visitas à família não eram muito frequentes, já que, na época, o ônibus que Sbabo pegava para ir de Caxias a Gramado saía às 6h da manhã, parava em Nova Petrópolis às 11h30 para almoço e chegava em Gramado às 16h30. “Não tinha freio. Para parar era uma dificuldade. Tinha que ir muito devagar, senão não parava”, explica.
Em uma dessas viagens, nas férias de 1951, Sbabo conta que, ao chegar em casa, a mãe percebeu que o filho não estava bem, justamente porque não estava mais conseguindo se alimentar. O médico da família sugeriu que Sbabo saísse do internato e o pai teve que convencer os padres a permitirem que o filho seguisse participando das aulas e morando fora do colégio. Com isso, a vida ficou muito mais tranquila, já que no internato, os alunos só podiam sair aos domingos: “Íamos na missa de manhã e tínhamos a tarde livre, quando íamos comer um mil folhas e tomar um copo de leite com a mesada que recebíamos. Só podíamos gastar aquilo durante a semana”.
A alimentação melhorou, mas a rotina de gastos controlados ainda duraria muitos anos, mesmo depois do fim do internato. Em 1954, ao terminar o Ginásio, Sbabo começou o Curso Técnico de Contabilidade. Até então, ele dependia 100% do recurso dos pais para sobreviver, mas sentia que estava na hora de adquirir independência financeira. Conversou com o dono da Livraria Rossi e se ofereceu para trabalhar com eles durante o dia. “Entrei como balconista. E foi lá que eu descobri minha vocação como comerciante.” 
Na Rossi, Sbabo diz que ganhava cerca de R$ 600. A pensão custava R$ 700. “Então meu pai tinha que me dar mais R$ 100 para que eu conseguisse viver lá. O resto, o ônibus e etc continuava vindo de casa”. Mesmo que o pagamento não fosse excelente, Sbabo não se importava em ficar horas a mais na livraria. O esforço rendeu-lhe um elogio – e um aumento. “E, depois disso, eu sempre usei esse aprendizado para a minha vida: quem se aplica no trabalho sempre é recompensado.”
O que aconteceu na vida profissional de Sbabo depois desse primeiro aumento de salário foi uma sucessão de eventos, surpresas e oportunidades de emprego em diferentes ramos – sempre devido às boas relações que cultivou e ao esforço constante para melhorar. O ano de 56, lembra ele, foi especialmente importante: Sbabo recebeu diploma de Técnico em Contabilidade, em uma época em que a função correspondia ao serviço de administrador de empresa. Não continuou na livraria. Em vez disso, começou a trabalhar com um representante de uma fabricante de lã, onde fazia a contabilidade das empresas. Mais tarde, foi nomeado contador da filial da fábrica. 
Mas o ano foi realmente importante devido a um acontecimento particular: no dia 24 de dezembro de 1956, Sbabo conheceu Jandyra. “Eu estava com um primo, Pedro Giacomet, que tinha conhecido a prima da Jandyra em um baile do Guarany. Eles noivaram em 24 de Dezembro e me convidaram para a festa. A Jandyra estava servindo a mesa”, lembra. “E eu sempre digo que a Jandyra deve ter posto alguma coisa naquela sopa, porque desde lá, estamos juntos há 56 anos”.
Sbabo e Jandyra casaram-se na Igreja Nossa Senhora de Lourdes, em 1960. Juntaram dinheiro e foram para Curitiba de ônibus para a Lua de Mel. Durante 40 anos, os dois, moradores do bairro Exposição, foram palestrantes do curso de noivos. Essa preparação que visava fortalecer outros casais, segundo Sbabo, foi o que fez com que ele e Jandyra tivessem um relacionamento ainda mais fortalecido – afinal, sempre tiveram que dar o exemplo. Eles tiveram cinco filhos: Monica, Márcia, Fábio e as gêmeas Daniela e Gabriela. “Quando já tínhamos três filhos, a Jandyra rezou porque queria ter mais um. Rezou tanto que vieram gêmeas”, brinca. Criar cinco filhos não foi simples, já que tanto Sbabo quanto a mulher sempre trabalharam fora.
Com o tempo – e os filhos já adultos – viajar, uma das atividades favoritas do casal, ficou mais fácil. Hoje eles frequentam as águas termais como Piratuba e Gravatal, além das praias de Florianópolis, onde houve uma reunião com a família toda no final do ano passado. Por muitos anos, a família veraneou em Curumim (“fomos os precursores”, diz ele). Sbabo e Jandyra já foram aos Estados Unidos, onde reside uma das filhas, e à Itália, quando completaram 50 anos de casamento. “A Jandyra sempre me acompanha nas viagens. Quando a gente começou a empresa, a gente não tinha férias nem condições, mas ela vinha comigo até Porto Alegre carregar o caminhão com areia ou cimento”.
A história da Formolo Materiais de Construção, empresa que até hoje Sbabo é sócio-diretor, esteve ligada à Jandyra. Ainda nos anos 50, Sbabo juntou-se com o irmão de Jandyra, Valdemar, e começou a prestar serviços de contabilidade para empresas. “Com isso, além de a gente faturar um dinheirinho extra, eu tinha a prerrogativa de ver a Jandyra todos os dias, já que o escritório ficava na casa dela – e naquele tempo só podia namorar quartas e sábados”. O pai de Jandyra, Albino, percebeu o trabalho de Sbabo e Valdemar e propôs a criação de um novo negócio: um depósito de materiais de construção chamado Albino Formolo e Cia Ltda – que, em 2016, completa 56 anos. Estava fundada, com isso, a Formolo Materiais para Construção. “Começamos com capital de giro quase zero. Mas com vontade de trabalhar,” conta.
O início, como quase todo negócio, não foi fácil. “Nos primeiros três anos, a Jandyra que teve que pagar as contas do armazém, porque a Formolo não tinha recursos. Foi difícil. Nos primeiros anos, não tiramos um tostão. Mas foi melhorando e fomos investindo. E a filosofia da empresa sempre foi essa: investir para poder crescer”. Um desses investimentos foi a faculdade de Direito, a qual Sbabo ingressou para ter o conhecimento jurídico necessário para algumas atividades que realizava na Formolo.
Essa filosofia de esforço e trabalho duro também foi aplicada nesses anos todos em que Sbabo esteve envolvido com a CIC. Entre os momentos mais marcantes na entidade, está a conclusão da Rota do Sol. “Eu tinha um ex-colega de Cambará, que, cada vez que ele precisava vir para Caxias ele demorava um dia todo, às vezes tinha que dormir na estrada. Eu sempre pensei que deveria ser criada uma estrada melhor, e, além disso, uma estrada que nos unisse a Torres. Sempre tive o interesse de propagar essa ideia”, conta Sbabo, que conseguiu ver a Rota do Sol finalizada em 2007, depois de décadas de trabalho. 
Quanto ao futuro, Sbabo ainda pretende por em prática uma série de novas ideias que tem para os empresários envolvidos com a CIC. “A expectativa que todos têm em mim pelo trabalho que fiz nesses 42 anos faz com que eu tenha a obrigação de fazer algo que tenha a minha marca aqui”, ressalta, contando que “nunca na vida” foi tão cumprimentado. “Eu gosto disso, não estou aqui por obrigação”, diz ao final da entrevista, deixando claro que talvez seja justamente isso – fazer as coisas por vontade, e não por obrigação – o segredo do seu sucesso.

 

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