Revista Acontece Sul

Lado B - Nivaldo Tolotti

Por Valquíria Vita - TXT Produção de Conteúdo em Lado B - quarta, 09 de maro de 2016

O dono do restaurante Andrea trabalha de segunda à sexta. No tempo livre, gosta de prestigiar o restaurante dos outros

Lembrado e premiado por servir um dos filés mais famosos da cidade, o dono do restaurante Andrea, Nivaldo Tolotti, tem mais habilidades de papo atrás do balcão do que propriamente no fogão. Junto com a mulher, Áurea, que criou as receitas, e com o filho, Humberto, que hoje também é sócio, eles formam a equipe que faz do restaurante Andrea um dos preferidos dos clientes que querem jantar massa, polenta com molho de perdiz e filé. 
Nivaldo faz questão de receber os clientes pessoalmente todas as noites da semana, desde 1971, quando fundou o restaurante no bairro Pio X. “Já me ofereceram para mudar de local muitas vezes, até de graça, mas eu nunca quis sair do meu cantinho. Me ofereceram lugares grandes, mas eu sempre quis atender eu mesmo. Essa é a minha filosofia: que o proprietário tem que estar ali, conversando com o cliente.”  
“Mas o senhor também cozinha?”, pergunto. 
“Ah, sim... Ovo”, diz Nivaldo, rindo. “Claro que, se querem que eu faça um filé, eu faço. Eu não sei é fazer os molhos. Isso quem sabe fazer… é aqui ó”, diz ele, apontando para Áurea. 
Além de recebê-los no balcão do aconchegante restaurante de 20 mesas, Nivaldo, um senhor baixinho e sorridente, de cabelos brancos e olhos azuis, passa de mesa em mesa para conversar com os clientes, sejam eles habituais ou não. “Se eu não estou aqui, eles já pedem para o Beto, meu filho, ‘O teu pai está doente?’. Esses dias, chegou um e perguntou ‘O teu pai morreu?’”
Tudo isso, Nivaldo conta com muito bom humor. Durante a entrevista que concedeu no restaurante durante uma tarde tranquila de sexta-feira, ele contou também sobre a amizade com o ex-técnico da Seleção Brasileira, Luiz Felipe Scolari, o Felipão — que morava perto do restaurante e foi frequentador assíduo desde os anos 70, juntamente com a mulher, que buscava viandas. 
Até hoje, Felipão visita o restaurante, já que eles também são amigos — o que permite que Nivaldo possa contar histórias assim: “Quando ele foi campeão do mundo, a Globo descobriu que ele gostava de comer aqui. E vieram me entrevistar mais de uma vez. Depois que ele levou sete gols, não vieram mais”, diz, às gargalhadas. 

Mesmo com a lembrança dos 7x1, a popularidade do filé mais pedido do Andrea permanece intacta. O Filé Felipão, feito com queijo, aspargos e ervilha, disputa o posto de mais pedido do restaurante com o Filé à Parmeggiana. 

“Ninguém morre de trabalhar”
Em março de 2016, mês em que essa reportagem está sendo publicada, Nivaldo completa 80 anos. Até agora, a trajetória foi de muito trabalho. “Mas ninguém morre de trabalhar”, ressalta. 
Nascido em Farroupilha, em 18 de março de 1936, Nivaldo veio a Caxias com a família antes de completar um ano de idade. “A minha infância? A minha infância foi só trabalhar”, conta Nivaldo, que aos 10 anos, já estava empregado em um armazém. O menino era responsável por uma espécie de tele-entrega (sem telefone, claro). “Todas as manhãs, eu batia nas residências, porque era a época em que as pessoas compravam no caderno, e eles me diziam o que precisavam. Depois, eu voltava ao armazém, fazia o ranchinho e levava nas casas tudo embrulhadinho”, lembra, sobre o primeiro emprego.  
O trabalho no armazém começava às seis da manhã e terminava às oito da noite. Nivaldo também trabalhava sábados e domingos pela manhã. Com isso, restavam apenas as tardes de domingo para descansar. “Não tinha como estudar”, conta Nivaldo, que frequentou a escola dos seis aos dez anos. “Ele estudou na escola da vida”, complementa Áurea. 
Nivaldo trabalhou e morou com a mulher que o criou, Maria Biazol Tomini, a dona do armazém. Ele se mudou de lá apenas quando completou 30 anos, ao casar-se com Áurea. “Nós éramos vizinhos. Eu preparava o sorvetinho dela e ela se apaixonou por mim”, brinca Nivaldo, explicando que na época em que servia sorvetes, o armazém já havia virado bar e era administrado por ele. O Bar Tomini, inclusive, rendeu muitos “convidados” extras ao casamento de Nivaldo e Áurea, em 1965. “A festa de casamento teve 80 convidados e 30 furões. Eu não convidei, mas todos os meus clientes e amigos do bar apareceram.” 
O casal que completou 50 anos de união tem quatro filhos: “Vanderlei, Paula, Humberto e Roberto. Acertei?”, Nivaldo confirma com Áurea. “De vez em quando eu troco”, diz ele, acrescentando que hoje eles também têm sete netos. 
Depois de se casar, Nivaldo abriu outro bar, na Júlio de Castilhos, no Centro. O bar funcionou “direto, dia e noite, durante dois anos”. 
“E o senhor gostava de trabalhar lá?”, indago. 
Nivaldo ri novamente. “Gostava ou não gostava… em 1970 eu já tinha três filhos!”
continua
O bar, infelizmente, não vingou, e o período entre dezembro de 1970 a março de 1971 é, até hoje, considerado pelo casal o período mais difícil de suas vidas. “Durante esses meses, eu não tinha nada. E já tínhamos três filhos pequenos. Isso foi triste”, lembra. Nivaldo sabia, entretanto, que se realizava profissionalmente atendendo pessoas, afinal, assim o fazia desde os 10 anos. E foi assim que ele se juntou com o amigo, Remi Collato, em 1971, e abriram a Lancheria Andrea. O nome do estabelecimento foi uma homenagem à filha do sócio de Nivaldo, na época, recém-nascida. 

“Pausa para frequentar o 
restaurante dos outros”
Nivaldo conta que desde a abertura, o restaurante deu certo: “Sendo humilde, tu sempre tem amigos. E meus amigos sempre estiveram aqui, desde o começo. Vinham de todos os cantos da cidade tomar aperitivos e comer perdiz.” 
Quem já foi ao Andrea sabe que o restaurante está sempre cheio — o que é, para eles, o melhor reconhecimento pelo trabalho da família por todos esses anos. Quem precisa aguardar por uma mesa, pode se distrair com as paredes decoradas por quadros com reportagens sobre Nivaldo e o restaurante, prêmios e troféus (o Andrea já ganhou o prêmio Divina Cozinha sete vezes, na maioria delas, com o melhor filé), além de quadros pintados pelo filho Humberto. “Eu trabalho de segunda a sexta à noite”, conta Nivaldo. “No sábado e domingo… eu vou te mostrar”, ele levanta para buscar o novo cardápio do restaurante, com o recado na última página: “Pausa para frequentar o restaurante dos outros”. Nivaldo gosta de ir a galeterias, pizzarias e churrascarias. Churrasco é, aliás, sua comida favorita. 
Quando precisa responder sobre o que gosta de fazer quando não está trabalhando, ele pensa por alguns segundos, até que o filho grita do outro lado do restaurante: “Fazer churrasco para a família nos finais de semana!” “Sim, todos os domingos”, concorda o pai. 
Outro lazer é a pescaria. “Já pesquei no Pantanal várias vezes”, conta Nivaldo. A pescaria substituiu o hobbie que ele tinha quando era mais jovem: a corrida. No trajeto das ruas entre a casa e o Centro, Nivaldo corria cerca de cinco quilômetros todos os dias. 
Já faz tempo que ele não corre. “Bastante tempo”, sorri. Mas, mesmo aos 80, ele tem disposição e, mais do que isso, sente-se feliz ao trabalhar todas as noites da semana. “Eu preciso estar trabalhando. Se eu não estou no serviço, eu sinto muita falta. Eu gostaria de trabalhar mais 50 anos, mas, naturalmente que não... Mas até que eu tiver saúde e cabeça boa para trabalhar atrás do balcão, pretendo trabalhar. Me faz muita falta se não estou aqui batendo um papo”.

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