Revista Acontece Sul

Lado B - Valter Beretta

Por Valquíria Vita - TXT Produção de Conteúdo em Lado B - sexta, 08 de abril de 2016

Aos 71 anos, o dono da Beretta Joias e Ótica, que trabalha mais de 12 horas por dia, fala sobre trabalho – naturalmente – e sobre as coisas que lhe fazem feliz durante e depois do expediente

Nos anos 50, em uma Caxias bem diferente da atual, o menino Valter Beretta gostava de desafiar os limites da velocidade do seu carrinho de lomba. Beretta descia pelas calçadas da Avenida Júlio de Castilhos e entrava na Rua Visconde de Pelotas. Só uma vez ele perdeu o controle do carrinho - e, junto com ele, um pedaço de dente.

As corridas de carrinho de lomba na Júlio, jogos de futebol em terrenos baldios e partidas de bolinha de gude com os amigos marcaram a infância tranquila de Beretta. Enquanto o menino crescia, o pai, Júlio, já fazia da Relojoaria Beretta uma marca conhecida na cidade, que se desenvolvia rapidamente. Mal sabia o pequeno Valter que dentro de pouco tempo ele se tornaria o responsável pelo tradicional negócio da família, hoje prestes a completar 100 anos. 

TRADIÇÃO FAMILIAR
Esta história começa em 1917, quando o italiano Anselmo Beretta, avô de Valter, se estabeleceu em Caxias do Sul e abriu a Relojoaria Anselmo. Ele convidou o primo, Antonio Beretta, para trazer da Itália algumas máquinas para fabricação de joias. Mas Anselmo faleceu antes de concretizar o plano. A loja, que comercializava relógios e joias — e usava, inclusive, o método hoje extinto da “compra no caderno” — passou a ser administrada pela viúva, Augusta. 
Valter fala com orgulho da avó, que tocou sozinha o empreendimento do marido, enquanto cuidava de três filhos. “Ela conseguiu comprar uma casa, onde, posteriormente, meu pai construiu um segundo andar, e eu, mais tarde, construi um edifício”, conta Valter, sobre o endereço na na Av. Júlio de Castilhos, 1881, onde cresceu. 
Pensando no futuro, Augusta investiu para que Júlio aprendesse o ofício de relojoeiro. Ele não apenas aprendeu e gostou, como assumiu a empresa dos pais até o dia em que faleceu, no final dos anos 80 — a esposa, Suzana, que também trabalhou na relojoaria, continuou por mais alguns anos. 
Mas muito antes disso, Valter já estava atrás do balcão. Sua habilidade para os negócios despertou ainda na escola, quando se destacava em matemática. “Eu entrei com 15 anos na relojoaria. Desde que eu entrei, meu pai me deixou fazer as coisas. Com 24 anos, eu já administrava a empresa”, conta Valter, hoje com 71 anos. 

ENVOLVIMENTO ESTUDANTIL 
Valter e os irmãos — Roberto, quatro anos mais velho, e Juliana, quatro anos mais nova — estudaram no colégio Duque de Caxias, que ficava a duas quadras de onde moravam. Lá, Valter recebeu uma educação que incluiu aulas de francês, inglês e até latim. Nas horas vagas, praticava tênis e frequentava as piscinas do Clube Juvenil, para onde ia a pé.
Bom aluno e envolvido nas organizações estudantis, Valter não limitava a participação escolar entre os sinais de início e fim da aula. Durante o Ginásio, ajudou a fundar a banda musical da Duque de Caxias, mesmo sem saber tocar instrumento algum. “A minha participação na banda era a de disciplina, organização.” Na adolescência, participou do Grêmio Estudantil, chegando a assumir a presidência do Grêmio Cristóvão de Mendoza, onde fez o curso Científico e assumiu um cargo na União Caxiense de Estudantes Secundários. “Os estudantes tiveram um conflito com o transporte escolar e nós participamos da primeira greve estudantil que houve em Caxias. Com ela, conseguimos uma redução da tarifa para os alunos”, relembra.  
Ao terminar os estudos no Cristóvão, nos anos 60, Valter escolheu uma faculdade que lhe ajudasse com o plano de seguir com a relojoaria do pai, já que ele foi o único entre os irmãos a despertar este interesse. Cursou Economia na Universidade de Caxias do Sul, formando-se com a primeira turma da faculdade. “Eu era forte em matemática, já que vinha do Científico, e eu tinha um companheiro que tinha vindo da Escola Técnica do Comércio, que entendia desta parte, então, nós trocávamos figurinhas. O que me faltava na linha de técnicas do comércio, eu tinha com ele, e o que faltava nele em matemática, ele tinha comigo.” 
    Depois de formado, Valter casou-se com Beatriz, em 1968, na Igreja São Pelegrino. Os dois haviam se conhecido cinco anos antes, na bomboniére do Recreio da Juventude. “Era o point dos sócios do Juventude, uma tradição dos clubes, que hoje já não existe mais”, conta Beatriz. Ao ser questionado sobre por que se apaixonou por Beatriz, Valter diz, sem floreios: “Pergunta difícil… Com uma das namoradas tinha que dar certo. E com essa, deu”. Já Beatriz, prefere falar de química: “Eu tinha 16 anos e ele 18. Frequentávamos essa bomboniére, onde íamos tomar refrigerante nos sábados de noite. E a gente começou a se olhar e acho que a química foi essa. Sempre que a gente se encontrava, se olhava. E a gente dançava, música de dançar junto...”, conta a mulher de Valter, acrescentando que o casal gosta de dançar junto até hoje, quase 50 anos depois. 

ORGULHO DO TRABALHO E DOS FILHOS
Com pouco mais de 30 anos de idade, Valter foi escolhido para ser presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Caxias (gestão 1977/78). “Fui o presidente mais novo da CDL”, diz. 
Ele também fez parte da Câmara Júnior, uma entidade que dava incentivo à liderança. “E nosso grande desafio era aprender a falar em público. Tínhamos um sistema que a pessoa começava a falar e parava em uma palavra, e o companheiro seguinte tinha que pegar desta palavra e continuar”, relembra Valter, ao lado de Beatriz, que acompanhou a entrevista garantindo que o marido não esquecesse de nenhum evento importante na linha do tempo mental que desenvolvia enquanto falava. Os dois conversaram com a Acontece no escritório da relojoaria, no Centro, onde o casal trabalha junto na administração das lojas. 
Eles contam que Valter se envolveu até mesmo com o Movimento Escoteiro, por causa dos filhos, Leonardo, Adriano e Júlio. Junto com Beatriz, que chegou a ser a Chefe dos Lobinhos, ele fez parte do movimento durante 20 anos.
Hoje, os filhos há tempos não têm mais idade para ser lobinhos. Dois deles, Adriano e Júlio, trabalham na Beretta — um na parte da ótica e o outro na gestão das lojas dos shoppings Iguatemi e San Pelegrino. Leonardo tem a própria empresa. “O Valter é muito focado no trabalho. Ele é exigente e gosta das coisas certas. E ele sabe valorizar as coisas, tem orgulho do que construiu até hoje. E esses filhos também são um orgulho para ele”, conta Beatriz. 
Valter é realmente focado. Ele trabalha de segunda a sexta das 8h30 às 21h, e ainda dá expediente aos sábados. “Eu me habituei a este horário de trabalho, realmente faz parte da minha rotina. Se é por que eu gosto ou por que precisa…. É uma combinação de dois fatores: gosto de fazer isso, mas também porque a administração geral das lojas dá realmente bastante trabalho”, diz ele, contando que descansa aos domingos à tarde. 
O principal produto da Beretta Joias e Ótica (o nome foi se transformando com o passar dos anos) ainda são as joias. “Uma vez, a nível de presentes e necessidades, a compra de joias era bem maior do que hoje. Elas não são mais tão solicitadas em natais e aniversários, porque hoje temos celulares, televisores… Mas a joia não perdeu o seu sentido de valor e de lembrança, de fato são presentes que ficam, presentes para uma vida inteira. O que já não acontece com um celular, por exemplo.” 

 

AMIGOS, LIBERDADE, IGUALDADE E VERDADE
O passatempo preferido de Valter e Beatriz são as viagens. Todo verão, vão a Bombinhas, SC, onde construíram uma casa geminada com amigos. Além disso, sempre que possível, fazem viagens internacionais. Difícil é escolher a melhor delas para contar aqui: “Foram realmente inúmeras”, diz ele. “Uma situação que marcou muito foi uma ida à Itália, nos anos 90. A gente procurou a família Beretta e, desde lá, mantemos contato. Eles foram até a Croácia nos encontrar neste final de ano,” diz Valter, contando sobre a mais recente viagem, que incluiu Montenegro e Eslovênia. 
O casal costuma viajar com amigos — Valter diz que resgata o Francês e o Inglês do colégio, “dá para  se defender, não se passa fome”. Os amigos das viagens são também os amigos que realizam os jantares semanais. Religiosamente, todos os sábados à noite, Valter e Beatriz encontram-se para jantar na casa de um dos sete casais do grupo. As refeições são seguidas de partidas de canastra.  
Além da importância de cultivar as amizades, Valter, que é maçom desde 1992, diz que sua filosofia de vida é a mesma ensinada pela Maçonaria: “Liberdade, igualdade e verdade”. Ao falar sobre o momento mais feliz de sua vida, ele diz que prefere não citar apenas um. Prático, responde, rindo: “Teve e tem muitos momentos de alegria e eles se completam em uma felicidade geral”.  

 

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