Revista Acontece Sul

LADO B - VALMOR ROMANI

Por Valquíria Vita - TXT Produção de Conteúdo em Lado B - quinta, 20 de outubro de 2016

Seguindo o seu lema de “transparecer bons exemplos”, Romani, das Empresas Weloze, se encaminha para a formatura em Administração aos 68 anos de idade

 

“Lembro como se fosse hoje: o pai, nervoso, embaixo de um Chevette velho na mecânica, tentando consertar aquilo. Não dava certo, ele blasfemava e nós saíamos de perto. Minha mãe, com um fusquinha velho, trabalhava o dia inteiro, fazia o almoço todos os dias e vendia roupas, cosméticos e tudo quanto era bugiganga para completar a renda da família”. 
Assim inicia o livro “Uma história de luta e sucesso”, escrito por Fabrício Romani, filho de Valmor Romani. A obra, que conta os percalços da trajetória das Empresas Weloze até se tornarem o grande grupo que são hoje, é uma “pequena retribuição”, escreve Fabricio: “O maior presente meu pai já me deu: poder fazer parte da trajetória de vida dele e contribuir para o sucesso da Weloze. Ele nos ensinou o que sempre considerou o mais importante: o valor do trabalho”. 
Este mesmo valor que passou aos filhos, Valmor aprendeu muito cedo: aos nove anos já trabalhava em uma serraria com o pai, Antonio Giacomet, em Campo Novo, onde tudo começou. 

Infância e adolescência: “ou trabalhava ou trabalhava”
Valmor nasceu em 15 de março de 1947, em Cazuza Ferreira. Como o pai trabalhava em uma serraria, a família mudava-se de cidade conforme as araucárias iam terminando. Nos anos 50, as condições de vida eram precárias: o chuveiro da casa da família era uma lata de 20 litros com uma saída de água e a atração da casa era um refrigerador americano da marca Frigidaire, à querosene, comprado pelo pai. “Eu me emociono quando falo do meu pai, porque ele era uma pessoa muito dinâmica. Não tinha estudos, mas tinha muita perseverança naquilo que fazia. A minha mãe também sempre o acompanhou nos mais de 50 anos de casados. E juntos ele formaram uma família de cinco filhos”, diz Valmor, citando os irmãos José, Elio, Marisa e Luis Carlos. 
A educação e criação dos filhos, na época, eram muito mais rígidas do que atualmente. E muitas vezes se apanhava sem nem mesmo saber o porquê. Uma das lembranças de Valmor é do dia em que os irmãos mais velhos o colocaram dentro de uma caixa de madeira (que criativamente denominaram de barco) e a lançaram no rio. O “barco”, obviamente, afundou. Valmor quase se afogou. E a mãe, ao saber do “naufrágio”, em vez de punir os irmãos mais velhos, deu uma surra em Valmor. 
Em outra ocasião, ainda quando pequeno, uma vaca veio em sua direção enquanto andava de bicicleta na estrada. A tal vaca, já conhecida por ser brava, jogou Valmor para um barranco — e a perna quebrada por causa do “atropelamento” da vaca não impediu que a mãe lhe desse mais uma surra ao descobrir o ocorrido. 
Desde sua primeira experiência de trabalho, Valmor trabalhou como mecânico, ofício que aprendeu com livros comprados pelo pai e com a prática diária do conserto de caminhões e tratores. “Naquela época era assim: tinha duas opções. Ou trabalhava ou trabalhava”. 
Na década de 60, ele morou em Bom Jesus, onde trabalhou em uma oficina e viveu em uma pensão. Lá fez alguns anos de Ginásio, que concluiu em Caxias do Sul, no Colégio Noturno para Trabalhadores. 
Foi em Caxias onde ele conheceu Elsa De Meneghi. “Naquela época, existiam vários boliches onde a moçada se reunia em Caxias. Num  desses boliches nos encontramos e estamos juntos até hoje”, conta. Após o casamento, em 1971, ele e Elsa tiveram três filhos: Fabiano, Fabrício e Fábio. 

Alguns acidentes pelo caminho
Foi longa (e cheia de altos e baixos) a trajetória de Valmor até chegar aonde está hoje. Após trabalhar como balconista vendendo autopeças nas empresas Dambroz, Wisintainer e Volkswagen, nos anos 70, Valmor ganhou um fusca azul do pai, e, com ele, viajou o Estado inteiro representando a empresa paulista Sanart, de autopeças. “Tive a chance de viajar por todo o Estado e de fazer muitas amizades. Eu ia com o Fusca, até o dia em que me acidentei com ele e tive que comprar outro”, lembra. 
Foi nessa época que a Weloze iniciou sua sua primeira fase: “Eu vendia peças para automóveis e tinha um amigo que montou a metalúrgica Weloze aqui. Comecei a vender para ele também”, conta Valmor, que, mais tarde, acabou comprando as cotas de um dos sócios da empresa. A Weloze fabricava protetores para cárter de automóveis, correntes metálicas transportadoras e componentes elétricos utilizados em obras civis. 
Nesse período, Valmor também passou por um outro acidente: perdeu três dedos da mão direita enquanto produzia peças em uma máquina da empresa.  
No final daquela difícil década de 70, após passar por uma situação financeira muito ruim, a Weloze foi vendida. “Reorganizei minha vida montando outra oficina mecânica e fui vender máquinas. Como era difícil vendê-las, era a oficina mecânica que me dava suporte para me manter. Não foi muito fácil no início”. 
Algum tempo mais tarde, Romani decidiu alterar o nome da mecânica para Tecnauto Indústria Metalúrgica. Nos anos 80, o empresário e amigo Amerigo Manzato e o pai dele adquiriram parte dessa empresa e, juntamente com Valmor, voltaram a chamá-la de Metalúrgica Weloze. Mas desde 2006 a empresa é de capital de Romani e de seus três filhos. Hoje, a Weloze tem quatro empresas em seu grupo: além da Metalúrgica, eles possuem a Delav, a Nopin e a O.M.T., e, no total, contam com 150 funcionários. 
Todas essas décadas de experiência com negócios proporcionaram a Valmor algo que não tem preço: experiências de viagens para diversos países, da Europa, principalmente, além de uma infinidade de contatos. 
Formatura aos 68 anos
de idade
    Todos os dias Valmor acorda às 6h30 e vai para a Weloze — não tem planos de parar. “Acho que tenho mais uns 20 anos de vida, o que já está bom”, diz, rindo. “Mas nunca tive a pretensão de me aposentar e parar de trabalhar. Não me adaptaria a outro ritmo de vida”. 
Os filhos (que já lhe deram três netas: Martina, Laura e Carolina) trabalham com ele, e a família reúne-se sempre que possível para um churrasco. Nas horas de lazer, Valmor aprecia um bom filme ou programa de televisão, além das viagens a Torres, onde a família veraneia. 
Este ano está sendo especial pois é o último de sua faculdade. Valmor está concluindo o curso de Administração, que durou oito anos. Em fevereiro de 2017 está marcada a formatura, o que para Valmor, aos 68 anos de idade, vai ser um momento mais do que especial. “Pretendo fazer uma festa, porque um evento desses não pode passar em branco, né?”. 
Ele diz que acredita que vivemos em uma sociedade que carece de bons exemplos. Justamente por isso, a frase “é preciso transparecer bons exemplos” é a filosofia que rege a sua vida. E foi pensando nela que ele ingressou na UCS aos 60 anos de idade. “Entrei para a faculdade, primeiramente, como uma realização pessoal. Depois, porque queria servir de exemplo para outros. Então já fico feliz se puder incentivar alguém com esse exemplo de vontade”. A experiência de ter aprendido na teoria o que ele já vivenciava na prática “foi ótima”, como ele define. “E vai ser melhor ainda quando eu sair”. 

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