Revista Acontece Sul

LADO B - IRMÃ LEDA BORELLI

Por Valquíria Vita - TXT Produção de Conteúdo em Lado B - sexta, 18 de novembro de 2016

A freira, que atende 300 crianças pobres em Mendoza, já se sente em casa na Argentina, onde vive há 21 anos

 

Quando você mora muito tempo longe do país onde nasceu, adquire hábitos que nunca pensava que teria. Hábitos que percebe que se encaixam tão bem com você, que depois é até difícil se lembrar como conseguia viver de outra forma. Para a irmã Leda Borelli, 69, nascida em Fazenda Souza, tudo na Argentina, onde vive há 21 anos, combina com ela. Em Mendoza, cidade localizada aos pés da Cordilheira dos Andes, todos levam uma vida mais calma e estão constantemente preocupados com o bem viver, não com o “ter”. “Já me habituei à realidade de lá: uma realidade em que todos dormem depois do almoço”, diz a irmã, enfatizando o “todos”. “Como diria um ditado de uma irmã lá da Argentina: “é tão bom acordar duas vezes ao dia”. 
Irmã Leda concedeu a entrevista em uma breve visita ao Brasil em outubro, quando passou alguns dias na casa das Irmãs Murialdinas de São José, congregação a qual já dedicou 50 anos de sua vida. Apesar de todos os festejos realizados para comemorar o cinquentenário de vida religiosa, em poucos dias em Caxias, a irmã, que carrega um leve sotaque por causa do espanhol que fala diariamente, disse que já sentia saudades de Mendoza. “Não consigo mais me habituar à realidade brasileira. Essa vida de correr tanto, de buscar mais e mais, a ganância e o materialismo que reinam nessa cultura italiana não coincidem mais com meu ponto de vista e meu ritmo de viver.” 
Outra característica que ela destaca do povo de Mendoza é a solidariedade. “Quanto maior a crise que se vive no país, maior a abundância de comida que temos para as crianças”, conta. Irmã Leda trabalha em um espaço educativo, onde 300 crianças e jovens de baixa renda passam o período contrário à escola. Esse foi o motivo que a congregação lhe enviou à Argentina, há duas décadas. Quando chegou em Mendoza, a irmã começou o trabalho do zero, ajudou, inclusive, a limpar o terreno e a construir o espaço. “No início foi muito difícil. Agora estamos colhendo os resultados de 20 anos de trabalho, já atendemos os filhos dos filhos. ‘Os que semeiam entre lágrimas colherão entre cantares’, como diz o salmo”. 
O trabalho como freira é extremamente gratificante, segundo ela. “Nós somos amadas, eu diria, até exagerando, extremamente amadas. Lá, as pessoas passam pela gente e chegam a nos tocar no braço só para poder dizer ‘eu estou perto de uma irmã’. Como posso pensar em trocar uma realidade dessas? Essa vivência em Mendoza está sendo a maior experiência da minha vida”, diz, satisfeita, contando que recentemente, recebeu do governador do RS e da prefeitura de Caxias homenagens pelo trabalho desenvolvido lá. 
O contato diário com as crianças argentinas é algo que a realiza, já que Leda sempre quis ser professora. Aos 16 anos, na época em que a congregação das Irmãs Murialdinas de São José nascia em Fazenda Souza, Leda foi convidada para ser freira. “Uma irmã, chamada Mercedes, perguntou se eu queria ser freira, e eu respondi que não, porque a minha intenção era ser professora. Aí ela me disse que eu poderia ser professora e irmã, e isso ficou na minha mente e no meu coração.” 
Com aquele incentivo, Leda, que já era muito religiosa desde pequena, ingressou nas Murialdinas, congregação liderada pelo Padre João Schiavo, que hoje está em processo de beatificação. “Minha vocação foi alimentada por uma intensa vida de oração. Quando estava no colégio, saía de manhã cedo, às 5h30, para estar na missa às 6h, e levava uma merenda que comia no caminho do colégio.” 
    Toda a família era religiosa, mas Leda foi a única que estudou. Filha de Avelino Borelli e Luíza Rech Borelli (neta de Ana Rech), além de estudar muito, trabalhou nas terras da família junto com os oito irmãos. “Éramos uma família pobre e todos trabalhávamos na terra para nos sustentar. Minha infância foi traumatizada pela morte prematura da minha mãe, quando eu tinha apenas oito anos”, conta. 
    Depois de entrar para as Murialdinas, nos anos 60, Leda iniciou a faculdade de Geografia, na UCS. “Gostava de Matemática, mas acabei na Geografia e acho que acertei, porque sou apaixonada pela natureza, por viagens”, diz Leda, que já viajou o mundo. Em seu passaporte, carimbos do Uruguai, Paraguai, Chile, Equador, Itália, Alemanha, Suíça, França, Espanha, entre outros países. “Todas foram viagens de compromissos pelas Murialdinas. Tenho muitos amigos no Exterior. Quando vou para a Itália, não tenho tempo de visitar todos individualmente, faço reuniões-almoço para reunir todo mundo.” 
    Numa das viagens à Itália, em 2013, viveu a experiência emocionante de conhecer o Papa Francisco. Leda lembra exatamente do dia: 25 de setembro. “A sensação foi extraordinária, quando eu vi, estava na frente dele. Nos cumprimentamos e contei que eu torcia para o San Lorenzo, que é o time dele. E quando eu disse que era de Mendoza e estava entregando um livro para ele, ele me disse ‘e por que não me trouxe um vinho?’. Então eu disse que enviaria, e mandei três garrafas de vinho pelo meu sobrinho, que também é religioso. Ele entregou na Casa Santa Marta, onde vive o Papa, que me mandou um agradecimento”, conta, mostrando as fotos do encontro. 
    Além do encontro com Francisco, outro momento que marcou a trajetória de Leda foram os anos de convivência com o Padre João Schiavo, “um homem santo”. Juntos, eles trabalharam em Fazenda Souza, onde, inclusive, construíram casas. “Já fiz muitas coisas nessa vida. Construí casas, dirigi caminhão, microônibus, ambulância, carreta, transportei vivos e mortos”, conta Leda, que também foi diretora, supervisora e professora em escolas. “Sem dúvida, eu me sinto uma pessoa feliz. Não tenho nada para dizer contra a vida, sou entusiasmada e amo a vida. Desejo viver muitos anos com muita lucidez e fazendo o bem.”

 

Comentários