Revista Acontece Sul

NATALIA BORGES POLESSO

Por Valquíria Vita - TXT Produção de Conteúdo em Lado B - sexta, 18 de agosto de 2017

O rápido sucesso da premiada escritora de Caxias do Sul, que está se destacando entre grandes nomes da literatura

 

Na última semana de julho, durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), às margens do rio Perequê-Açu, grandes autores brasileiros se reuniram para discutir literatura, arte e diversidade. No meio de nomes famosos, figurava uma representante da nova geração da literatura: a escritora Natalia Borges Polesso, 36. 
Os últimos dois anos têm sido agitados e repletos de bons acontecimentos na vida da escritora, nascida em Bento Gonçalves e radicada em Caxias do Sul. Em maio, na mesma semana em que se casou com a professora de francês Daniela Cavalcante, recebeu a notícia de que seria a próxima patrona da Feira do Livro de Caxias. “O convite foi uma surpresa. E foi muito legal que isso tenha acontecido – comigo ou com outra pessoa com esse perfil jovem e uma proposta diferente de literatura  – porque é um sinal de que os campos estão se abrindo e que as pessoas estão pensando mais em outras dimensões para a literatura”, diz. 
Desde o mestrado em Letras, parte dele cursado na Universidade Paris-Sorbonne, Natalia tem chamado a atenção no âmbito literário. “Esse tempo em Paris foi transformador. Como pesquisadora e como ser humano”, diz a escritora, que, na França, além das pesquisas em que se envolveu, teve a oportunidade de participar de vários eventos de literatura junto com seu orientador. Foi também em Paris que ela conheceu Daniela, há dois anos. “Embora a conjuntura planetária e, principalmente, a situação do Brasil não estejam boas, desde 2015 as coisas estão indo bem para mim”, reconhece, com bom humor. 
Natalia já escreveu três livros: o primeiro deles foi Recortes para Álbum de Fotografia Sem Gente, lançado em 2013, que lhe rendeu o primeiro troféu Açorianos. Depois, veio um livro de poemas, Coração à Corda, e, o mais reconhecido até então, Amora. Com protagonistas mulheres de relações homoafetivas, Amora já ganhou quatro prêmios (dois Jabutis – Categorias Contos e Crônicas e Escolha do Leitor – um Açorianos e um Ages), além de ter sido lançado internacionalmente. A mídia nacional chegou a chamar Natalia de “a desconhecida que desbancou Verissimo e Rubem Fonseca”, autores que disputavam com ela o troféu Jabuti. E, junto com esse sucesso, ela também entrou para a lista Bogota39, que elencou os 39 melhores escritores jovens da América Latina. “Na Flip, conheci vários representantes da literatura e vi como o Amora está circulando. Não tinha noção que era algo tão grande. E aconteceram coisas que eu nunca imaginei que aconteceriam, de me pararem na rua e perguntarem, ‘Tu que é a Natalia? Posso tirar uma foto?’ Foi demais.” 
Apesar do sucesso na literatura, Natalia considera-se uma leitora tardia. Diz que começou a ler com mais intensidade apenas no Ensino Médio e que realmente se aprofundou nas leituras com a faculdade. “Não tínhamos muitos livros em casa, tínhamos uma enciclopédia médica, não sei por que, já que meus pais não são médicos, na escola não tinha muito acesso aos livros e não existia a quantidade de livrarias de hoje”, diz. Mesmo assim, ela sempre gostou de contar histórias e escrever. “A primeira coisa que lembro de ter escrito foi um poema de Dia das Mães, na quinta série”. 
Os pais, Pedro e Marislane, eram fotógrafos, e algumas das lembranças da infância de Natalia estão ligadas a isso. “Meu pai viajava para pegar os filmes dos clientes no interior e revelar em Caxias, e, muitas vezes, a gente fazia essas viagens com ele. E tínhamos uma espécie de sistema de delivery, então eu e meu irmão fazíamos as entregas das fotos, de bicicleta, para alguns clientes”. 
Natalia é a mais velha de três filhos. O irmão, Mateus, hoje vive em Lisboa e é monge Hare Kishna, e a irmã, Camila, divide o apartamento com ela em Caxias. “Quando éramos pequenos, nos mudamos muito. Eu só nasci em Bento. Logo fui levada a Porto Alegre, porque tinha um problema de coração, e depois a Caxias, para que meus pais ficassem perto dos meus avós, já que não sabiam se eu ia vingar”, conta Natalia, que também morou em Campo Bom. “Além de cidades, também nos mudamos muito de casa. E hoje eu vejo que quem se muda não consegue juntar coisas que não são necessárias, tudo o que é guardado é porque realmente é precioso.”
Além de ter ajudado na loja dos pais, ao longo da vida Natalia trabalhou em uma imobiliária, como secretária, foi bolsista de pesquisa, atuou em uma editora, virou professora particular de inglês (atividade que desempenha até hoje) e chegou a fazer faxinas em períodos em que estava na faculdade e tinha poucos alunos particulares. O inglês ela aprendeu graças às músicas. “Eu sempre fui muito nerd, gostava de estudar. Não tinha muitos amigos, então passava as tardes em casa lendo letras da Alanis, Madonna, Cranberries. Fui aprendendo inglês aí”, diz a escritora, que também é fluente em francês. 
A afinidade com a literatura e com os idiomas ajudou na escolha do curso, Letras, na UCS, que logo depois foi seguido pelo mestrado, doutorado e agora um pós-doutorado. “Hoje estou escrevendo um novo livro, um romance, que deve ser lançado no final do ano”, diz Natalia, deixando a certeza de que ainda vamos ouvir falar muito dela por aí.

 

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