Revista Acontece Sul

Lado B - Francisco Karkow

Por Valquíria Vita - TXT Produção de Conteúdo em Lado B - sexta, 22 de dezembro de 2017

O médico que faz consultas de duas horas de duração diz que só tem pressa de uma coisa: viver mais 20 anos com a mesma lucidez

 

 

Em 2008, o médico metabologista Francisco Karkow, hoje com 71 anos, estava dando uma aula no departamento de transplantes como professor convidado na Universidade do Texas, Estados Unidos. Ao perceber que o símbolo do departamento era uma fênix, decidiu propor uma sugestão: “Falei que aquela não era a figura ideal para representar o departamento. O melhor seria usar Ganesha (um dos deuses do hinduísmo), a primeira figura humana submetida a um transplante bem feito. Ele teve a cabeça decepada e a cabeça de um elefante colocada no lugar”. 

Sem saber que havia um americano com raízes indianas escutando a “sugestão”, Karkow acabou fazendo ali um grande amigo: Anil Kulkarni, médico e professor, e também um grande fã da história de Ganesha. Foi por causa de Anil que Karkow começou a viajar anualmente para o Japão, onde participa de um congresso que apresenta seus casos clínicos e o uso do AHCC, um suplemento capaz de reverter doenças. Até hoje, além de publicarem juntos, ele e Anil fazem Skype semanalmente. “A vida, de uma forma ou de outra, foi me empurrando para esse convívio com pessoas muito importantes”, conta Karkow, fazendo questão de citar outros médicos, além de Anil, como Virvi Ramos e Renato Metsavaht, responsáveis pelo “impulso inicial mágico na minha carreira”, Samir Rasslan e Joel Faintuch. 

Assim como a história de Ganesha, Karkow sempre gosta de incrementar suas conversas com outras boas histórias. Não é daqueles que têm pressa em acabar uma consulta. Normalmente, passa cerca de duas horas com cada paciente que atende no consultório de metabologia no Villagio Iguatemi. Não os deixa ir embora sem antes fazer um estudo completo de cada caso, o que envolve muitas perguntas sobre os hábitos de vida de cada paciente. “A metabologia engloba todo o universo da pessoa”. 

No consultório – onde Karkow atende usando Crocs – além de uma estátua de Ganesha, alguns ícones de arte que aprecia, como o Homem Vitruviano, de Da Vinci, e um grande quadro do artista Sergio Lopes. No meio deles, um desenho feito à mão que deve ter mais valor do que todas as outras peças: assinado por uma paciente, Rafaela, que desenhou-se junto ao médico que tratou sua atopia, uma grave manifestação alérgica. 

A explicação para a escolha da medicina está na infância. Karkow nasceu em Cruz Alta, em 1946, mas com um ano de idade mudou-se para Porto Alegre. Era o mais novo dos seis filhos de Ricardo e Izabel, e o único que sofria de graves crises de asma. “Ainda tenho a imagem de um médico na minha mente. Nós éramos absurdamente pobres e eu era muito doentinho. Esse médico ia até a nossa casa e cuidava de mim devotadamente e generosamente, toda vez que eu tinha essas crises. E isso ficou talhado na minha cabeça”. 

A decisão de seguir a profissão foi tomada na adolescência. “Na escola, eu era horrível. Minha trajetória é anárquica. Foi só quando terminei o Ginásio que eu, obcecadamente, resolvi estudar Medicina. E parei de jogar futebol, coisa que amava. Antes disso, eu não era nada devotado aos estudos”, revela. No ano em que estudou para o vestibular, chegou a perder 12 quilos. “Tornei-me o melhor aluno do local onde fiz o Científico, em uma escola noturna onde ninguém nunca tinha entrado em Medicina antes”. Karkow prestou vestibular na UFRGS. “Meu desempenho foi horrível, cheguei a vomitar. Daí vim a Caxias e fiz vestibular aqui, quando estava abrindo o primeiro vestibular da UCS. E passei.”

Como tinha aptidão para Química, começou pagando a mensalidade da UCS com o dinheiro que ganhava como professor da matéria no Carmo. 

“Mas consegui pagar apenas um mês de faculdade”. Prestes a desistir, o médico Renato Metsavaht, diretor da faculdade, ofereceu-lhe uma bolsa integral para continuar os estudos – muitos anos mais tarde, Karkow chegou a ser médico de Metsavaht. 

O plano era terminar a faculdade de Medicina e mudar-se para os Estados Unidos. Mas no segundo ano de faculdade, ele conheceu Elisabeth Macedo (Betinha, como ele a chama). “Eu me apaixonei. E ela mudou a minha trajetória de vida”, conta, sem nenhum arrependimento por ter mudado essa trajetória. Por intermédio de um primo de Betinha, que era seu colega de faculdade, Karkow foi convidado para uma festa, onde a conheceu. A festa era o noivado dela com outro pretendente. “Foi love at first sight (amor à primeira vista)”, conta, misturando o inglês com o português, como faz eventualmente. “Olhei para ela e me apaixonei”. Se, para ele, foi “at first sight”, para Betinha, segundo ele, essa paixão não foi tão imediata. Só veio algum tempo depois. “Naquela hora, ela nem me olhou. Estragou a minha noite. Dois anos depois, as coisas foram acontecendo. Ela rompeu o noivado e nos casamos: eu tinha 22 e ela 21 anos. Tinha tudo para dar errado. Mas tínhamos muita vontade de que desse certo. E hoje estamos com quase 47 anos de casados, celebrando (como se fosse) 50 anos desde os 45. Serão cinco anos de celebração, viajando todos os anos. Sou apaixonado por ela.”

O começo do casamento teve que superar grandes dificuldades financeiras, “éramos pobres de marré”, diz. Ele e Betinha tiveram dois filhos: Adriane, hoje arquiteta, e Antonio, médico fisiatra. Todos, incluindo a mulher, que é psicóloga, hoje trabalham no mesmo prédio com um grande “K” na entrada. 

Dentre todas as viagens que já fez (a maioria delas na companhia da mulher), Karkow destaca as mais marcantes: São Paulo, onde fez doutorado, Estados Unidos, onde aperfeiçoou-se profissionalmente, além de Canadá, Qatar, Dubai, Abu Dhabi, Europa e Japão. Por este último local, tem um carinho diferenciado. “Sou apaixonado pela cultura deles, modo de viver e educação”. 

Quando não está viajando ou atendendo, gosta de caminhar, de preferência na praia, e de assistir filmes. “Só consigo ler ou ver filmes que sejam focados no aprendizado. Ah, e romances”. Ele também passa bastante tempo com a família, que está em várias fotos de seu consultório. Ele e Betinha têm três netos pequenos e mais um a caminho. 

A maior parte do tempo, porém, ele passa com os pacientes – começa a atender às 7h45 da manhã todos os dias da semana. Ele conta que depois de ter sido cirurgião, optou pela Metabologia, assunto que lecionou na UCS por 34 anos. Hoje, é professor e consultor do Fátima Saúde. “Quando eu era cirurgião, eu era diferente dos outros, gostava de estudar os distúrbios pós-operatórios. Acho a metabologia muito mais fascinante e decidi seguir por este caminho. O que me atrai é a simplicidade, a doçura do convívio, a inquietude da busca do conhecimento e a preocupação e o comprometimento com o paciente”, conta, revelando seus planos: “Eu jamais atendo com pressa. Mas vivo com pressa porque eu quero ainda viver com muita lucidez por uns 20 anos. Daqui a 20 anos, eu ainda tenho que estar muito bala”. 

Comentários