Revista Acontece Sul

Lado B - Isamar Ordovás Sartori

Por Valquíria Vita - TXT Produção de Conteúdo em Lado B - sexta, 23 de fevereiro de 2018

A vida da presidente da Casa Anjos Voluntários, que se dedica 

a propiciar condições melhores 

a milhares de famílias

 

Em uma sociedade cada vez mais individualista, destaca-se quem consegue ser capaz de se dedicar a outras pessoas. Caso de Isamar Ordovás Sartori, que é envolvida em causas sociais e trabalho voluntário há 40 anos. Todos os dias, a presidente da Casa Anjos Voluntários trabalha para melhorias na instituição que ajuda jovens e famílias em situação de vulnerabilidade social de 18 bairros da Zona Oeste de Caxias. Apesar de não ter retorno financeiro com o cargo, Isamar diz que o que recebe em troca é muito valioso: “Acho que vim para esse mundo para isso. Para tentar ajudar a ajeitar a vida de algumas pessoas. E isso é uma troca. Assim como eu faço por eles, eles estão fazendo por mim. A cada dia mais, tento impulsionar as pessoas, enquanto elas me impulsionam de outra maneira, para que eu vá crescendo cada vez mais”, conta. 

O voluntariado corre nas veias da família. Isamar nasceu em 17 de dezembro de 1954, e cresceu, ao lado das três irmãs, aprendendo sobre a importância do envolvimento com as causas sociais da cidade e da preocupação com as outras pessoas. “O maior aprendizado que tive em casa foi saber dividir e respeitar”. O pai, o pediatra Henrique Ordovás Filho (que hoje dá nome ao Centro de Cultura) foi o fundador da Apae (Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais de Caxias). E a mãe, Reny, sempre esteve ao lado dele nas causas que defendiam. “Cresci numa casa onde as pessoas eram muito envolvidas”, lembra Isamar. 

Até mesmo nas escolas que estudou (passou pela Escola Duque de Caxias, Imigrante e Carmo), Isamar abraçou trabalhos voluntários e campanhas que apareciam. Fora da escola, ela ajudava os pais nas ações da Apae. 

Na faculdade, Isamar decidiu estudar Design de Interiores, em Porto Alegre. “Foi um período muito bom, eu adoro Porto Alegre, lá tem um astral diferente”. Depois de se formar, abriu o próprio escritório e trabalhou, durante muito tempo em Caxias, com o marido, Nelson Carlos Sartori, que é arquiteto. 

Os dois se conheceram muito jovens. Ela com 16 e ele com 17. Casaram-se em 1978. “Acho que o que nos mantém juntos até hoje é o companheirismo e o bom humor, esse, especialmente, tem que ter. Somos parecidos em muitas coisas, em outras não. Nessas, é preciso ter respeito e saber levar”, aconselha. 

Isamar e Nelson tiveram duas filhas: Tríssia, que é jornalista, e Cristine, que é publicitária. “É muito legal ter duas filhas mulheres. Eu já vinha de uma família com muitas mulheres e é algo muito bom. É uma caminhada que temos juntas. E elas são muito voluntárias também. Me deram uma força muito grande, principalmente no começo da Anjos Voluntários, e até hoje ajudam no que precisar, além de terem seus próprios trabalhos voluntários”, diz Isamar, mostrando, no pulso, uma tatuagem com três joaninhas, símbolos da sorte, que fez junto com as filhas. 

Isamar trabalhou como designer de interiores até cerca de sete anos atrás, quando decidiu dedicar todo o seu tempo à Casa Anjos Voluntários. “Eu tinha em mente que para que ela crescesse e se desenvolvesse como deveria, assim como todas as entidades sociais, eu teria que estar próxima, estar sempre junto, além de estar lendo muito, estudando e tentando fazê-la crescer com novos atendimentos”. 

Ela é presidente há sete anos. Mas está envolvida com a Anjos Voluntários há 14. “Comecei fazendo atividades com as crianças. Eu queria fazer um voluntariado e procurei a Parceiros Voluntários, que me deu o nome de três entidades. Passei nas três e disse o que gostaria, de trabalhar com crianças e adolescentes, e a que mais me encantou foi a Anjos”, conta. Depois disso, uma sequência de fatos (e de muito esforço) a transformaram em presidente da instituição. “Eu sempre fui muito metida. Comecei a ver que tinha que haver melhoras, que aquilo estava muito acomodado. Eu nunca me ofereci para ser presidente, mas me oferecia para desenvolver, até fisicamente, a entidade. Arrumava parceiros para trocar armário, forro, piso, e ia melhorando a Casa, até que a diretoria me convidou para ser presidente. Em um primeiro momento, achei meio punk, mas daí fiquei pensando que eu tinha condições para fazer algo que realmente pudesse melhorar a entidade. E ela teve um boom, conseguimos muitos parceiros”.

Hoje, a Anjos Voluntários atende 200 crianças e adolescentes. Há uma fila de espera de 300 e, por isso, eles estão fazendo esforços dentro do apertado orçamento disponível para conseguir atender a pelo menos mais 20 este ano. Os bairros atendidos sofrem com problemas de violência e drogas, e a Casa proporciona um local para que jovens de 6 a 16 anos se ocupem com atividades educativas durante o turno contrário da escola. 

Com a ajuda de parceiros, hoje eles oferecem oficinas de teatro, música, dança de salão, teclado, informática, judô, badminton, futebol, e outras atividades, entre elas, uma turma de jovens empreendedores. “Essas famílias se encontram em situações de risco, a gente tem que fazer um movimento para que eles saiam. Não é ficar ali e dar um pouquinho de condição, é tentar dar condição para sair e ter uma vida diferente mesmo. Isso necessita de uma grande dedicação”, diz a presidente, anunciando o plano da entidade: construir a nova sede, que deve acomodar 450 crianças. Eles já têm o terreno, faltam parceiros para ajudar a erguer o novo prédio e colocá-lo em atividade. 

Apesar da dificuldade da arrecadação de fundos para a Casa, Isamar diz que o trabalho é muito recompensador. A melhor parte é ver a transformação dos jovens: “Temos jovens que saíram e hoje estão em bons empregos, são empresários, estão muito bem encaminhados. E vemos as mudanças das famílias também, algumas casas que não tinham nem banheiro, e hoje já estão muito mais estruturadas”, diz, completando: “Acho que eu tenho uma história muito positiva. E qualquer um conseguiria estar no meu lugar. O que tenho é um amor infinito pelo o que eu faço, um prazer grande demais em fazer isso. E isso é a única coisa que precisa”.

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