Revista Acontece Sul

Alcoolismo e vinho

Por Vinhos - Adolfo Lona em Vinhos - tera, 10 de maio de 2016

Em meus longos anos transcorridos desde o primeiro curso de degustação feito na De Lantier em junho de 1988, somente uma vez um desavisado, me perguntou: “Você não acha que os cursos de degustação são uma forma de estimular o alcoolismo?”
Acho que os cursos têm por finalidade exatamente o contrário, despertar nas pessoas o prazer de saborear um vinho e assim aproximá-las desta bebida milenar.
Nos cursos de degustação não pretendemos ensinar ás pessoas do que devem gostar e sim auxiliá-las na procura das razões pelas quais gostam de um determinado vinho ou espumante. Os participantes aprendem a degustar, saborear e não consumir pela simples procura do álcool. Quem se aproxima do vinho e dos espumantes procura o prazer que proporcionam as belas cores, os convidativos aromas e o característico sabor.  Perceber que é possível, sem ser um expert ou técnico, identificar as diferenças entre as características dos vinhos é algo surpreendente.  
O vinho é uma bebida social e intimista: deve ser saboreado em companhia de alguém ou de você mesmo.
O vinho é uma bebida gastronômica, precisa conviver harmoniosamente com os alimentos, por isso está inserido nos hábitos gastronômicos milenares dos europeus.
O vinho é uma bebida cultural, quem se aproxima descobre o imenso manancial de informações sobre castas, regiões, tipos, marcas, etc. que existem a disposição. E ao conhecê-las ganha saber, cultura.
O vinho é uma bebida que tem raízes fundas e firmes com as regiões produtivas e sua gente. Desperta sentimentos fraternos, estimula a amizade, os relacionamentos, une as pessoas em torno dele. 
Por fim a cultura do vinho é tão imensa que parece misteriosa, nunca sabemos tudo, sempre descobrimos algo novo.
Por todas e outras razões que o vinho não está associado ao alcoolismo e sim à moderação.  
As estatísticas de índices de alcoolismo mostram que é nos países mais frios, onde geralmente o consumo de destilados é mais alto, há maior incidência. 
Os números de consumo as vezes enganam porque algumas pessoas imaginam que nas regiões onde se consomem 50 ou mais litros de vinho por pessoa/ano, há alcoolismo.
Desconhecem que nestas regiões o vinho está inserido na cultura gastronômica da sociedade e o consumo é diário junto às refeições. Um copo médio de 150 ml consumido todos os dias durante o almoço, leva o volume a 1 litro por semana, e em 54 semanas a quase 50 litros anuais. Nada demais, simples cultura. 
Por ser um hábito que forma parte da cultura gastronômica é difícil imaginar que isto poderá ocorrer em curto prazo no Brasil, pais cervejeiro. Os dois litros consumidos anualmente por habitante são uma demonstração do desafio gigantesco que o setor tem, mas por outro lado são um estímulo ao trabalho sério e dedicado pelo potencial. Ah, se os Governos fossem menos cruéis e diminuíssem sua gorda fatia de participação nos custos baixando impostos,  seria tudo mais fácil para quem produz, que conseguiria trabalhar em paz e desafogado e para o consumidor que deixaria de pagar pelo que não recebe.

Comentários